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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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A VIDA DOS LIVROS

De 29 de julho a 4 de agosto de 2019

 

Taras Shevtchenko (1814-1861) é um dos símbolos da Ucrânia moderna, tendo sido poeta, pintor, desenhador, artista e humanista, fundador da literatura moderna ucraniana e visionário.

COMPREENDER A UCRÂNIA
Ao longo da história, Kiev, capital da Ucrânia, é uma das cidades mais antigas e com maior riqueza histórica da Europa Oriental, tendo passado por diversas fases de notoriedade e de decadência. A urbe foi fundada pelo menos no século V da nossa era, como um entreposto comercial, tendo ganho progressivamente importância, a ponto de se tornar o centro da civilização eslava oriental, até passar a ser a capital política e cultural entre os séculos X e XII. Importa lembrar que a Igreja Ortodoxa Russa se afirmou com especial intensidade no século IX em Kiev, lugar onde, segundo a tradição, Santo André teria profetizado a criação de uma grande e influente cidade cristã. Daí que o nascimento da Terceira Roma tenha tido as suas raízes em Kiev, ainda que com a queda de Constantinopla (1453), Moscovo se tenha afirmado como sucessora de Roma, em virtude de Kiev estar numa fase de subalternização. De facto, Kiev foi completamente destruída pelos mongóis em 1240, tendo então perdido grande parte de sua influência. Tornou-se então uma capital de província de pouca relevância na periferia dos territórios controlados por vizinhos mais poderosos: o Grão-Ducado da Lituânia, a Polónia e a Rússia. A cidade apenas voltou a prosperar com os primeiros sinais da revolução industrial russa no final do século XIX. Após o período turbulento que se seguiu à Revolução Russa de 1917, Kiev passou a ser uma cidade importante da República da Soviética da Ucrânia e, a partir de 1934, sua capital. Durante a Segunda Grande Guerra, Kiev voltou a sofrer danos pesados, mas recuperou no pós-guerra, continuando a ser a terceira maior cidade da hoje Federação Russa. Em 24 de outubro de 1945, a Ucrânia foi aceite como membro das Nações Unidas com a Belarus, conseguindo assim o então bloco soviético três votos formais. Com o colapso da União Soviética e a independência real da Ucrânia em 1991, Kiev manteve-se como capital do país.

 

KIEV E A CULTURA ESLAVA
Muito se tem falado da cultura ucraniana, nem sempre com conhecimento de causa. De facto, o que hoje é a Ucrânia corresponde a um território sob as influências dos Impérios dos Habsburgos e da Santa Rússia, pelo que é um lugar único onde as culturas do oriente e do ocidente se cruzam, devendo haver uma especial compreensão dessa realidade. Taras Shevtchenko é um símbolo dessa determinação. Foi um poeta, pintor, desenhador, artista e humanista ucraniano, fundador da literatura moderna ucraniana e visionário da Ucrânia moderna. O poeta nasceu 25 fevereiro de 1814 em Morintsy província de Kiev (hoje, região Cherkasy). Seu pai era um servo que pertencia ao senhorio Engelgardtu. A vida de Taras foi, assim, marcada pela situação dramática dos servos da gleba, que persistiram até muito tarde na sociedade russa. Taras revelou, no entanto, desde muito cedo as suas excecionais qualidades artísticas que, aliás, lhe permitiram obter a liberdade em 1838, por 2.500 rublos, graças à qualidade da sua arte revelada no modo como executou a difícil encomenda de um retrato. Os melhores anos da vida de Taras situam-se entre 1840 e 1847, nos quais o seu talento poético floresce. Em São Petersburgo, em 1840, escreve uma primeira coleção de poemas "Kobzar", que o tornam admirado e célebre, interpretando os sentimentos do povo ucraniano. Lança, assim, as bases para uma nova era na história da língua e da literatura do seu povo. O poema épico "Haydamaky" – a mais importante obra de Shevchenko - aparece em 1841-42. Entre outras obras deste período, salientem-se: em 1838, "Katherine"; em 1842, "Blind", bem como o drama de 1843 "Nazar Stodolya", além de "Sonho" (1844) e "Cáucaso" (1845). A denúncia do despotismo e da discricionariedade são evidentes, apelando o poeta à conquista da liberdade. Tal é evidente no célebre «Testamento» de 1845, aqui lembrado em tradução livre: «Quando eu morrer, sepultai-me /Na minha amada Ucrânia./ Meu túmulo ficará sobre um monte elevado, / No meio da planície, /Entre campos e estepes sem limites, / Cuja margem mergulha no Dniepre, / Onde meus olhos possam ver e meus ouvidos ouvir / O rugido poderoso do rio. / Quando os ursos da Ucrânia / Lançarem no profundo mar azul / O sangue dos inimigos, / Então, eu vou deixar esses montes / E campos férteis /  e voar para longe / Para a morada de Deus / Onde irei rezar. / Mas até esse dia / Eu nada saberei de Deus. / Depois de me enterrarem, porém, levantem-se. / E quebrem as cadeias que nos prenderam. / Lancem na água o sangue dos tiranos / E comemorem a liberdade que irão conquistar./ E na grande família nova, / A família do livre, do Justo e do Fraterno, / Com fala serena e palavras amáveis, / Lembrem-se também de mim».

 

UMA REFERÊNCIA PERENE
Shevtchenko viajou por toda a Ucrânia. As aspirações emancipadoras do escritor e poeta, reforçaram-se no contacto com os camponeses de Chernihiv, Poltava e Kiev. Em 1846, Taras terá entrado na sociedade secreta de Cirilo e Metódio, fundada no ano anterior por alunos e professores da Universidade de Kiev e composta de jovens interessados no desenvolvimento dos vários povos eslavos, incluindo ucraniano. A pouco e pouco, Taras Shevchenko tornou-se um símbolo, em especial para os mais jovens e para os cultores da identidade ucraniana. No entanto, os últimos anos de vida foram dominados pela doença, em parte originada pelas dificuldades da vida e pelos excessos da juventude. A morte encontrou-o em S. Petersburgo em 26 de fevereiro de 1861, um dia depois de ter completado 47 anos … Hoje, a sua memória é venerada pelo povo ucraniano, como um símbolo, mas mais do que isso, como um exemplo de determinação, de amor à liberdade, às tradições populares, às raízes da cultura. É assim de toda a justiça, em homenagem à diáspora ucraniana em Portugal, que a memória do grande artista, do autor fique perpetuada entre nós – mantendo na lembrança o seu inesquecível “Testamento”.

 

Guilherme d'Oliveira Martins
Oiça aqui as minhas sugestões - Ensaio Geral, Rádio Renascença

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