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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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A VIDA DOS LIVROS

De 13 a 19 de julho de 2020

 

No centenário da publicação de “Clepsidra” de Camilo Pessanha (1867-1926), temos de recordar a história misteriosa de uma das obras mais importantes da literatura portuguesa do último século. Fernando Pessoa reconheceu-o. Não é possível, de facto, entender a rica placa giratória que constituiu “Orpheu” sem considerarmos a influência deste poeta.

 

 

 

UMA INICIATIVA DE RECONHECIMENTO
A história de “Clepsidra” é de talento e de amor, de estoicismo e de inteligência. Sem a iniciativa de Ana de Castro Osório não teríamos essa obra-prima das letras portuguesas. Passaria despercebida ou esquecida, como os poemas de Cesário Verde, sem a intervenção de Silva Pinto… A história é mais do que comovente, como tantas vezes mo tem lembrado o meu querido amigo António Osório. E quando celebramos os cem anos, é bom que ao ouvirmos o poeta nos lembremos de um amor, que apesar de impossível, não impediu a generosa iniciativa que tornou grande um poeta grande. “A sete chaves – a carta encantada! / E um lenço bordado… Esse hei de o levar / Que é para molhar na água salgada / No dia em que enfim deixar de chorar”… O livro “O Amor de Camilo Pessanha” de António Osório (Elo, 2005) conta, aliás, como tudo se passou, revelando as cartas de amor que Ana não destruiu. Arnaldo Saraiva afirmou que se Camilo Pessanha fosse de um outro país, certamente que abundariam traduções e estudos sobre a sua obra. No entanto, estamos longe do justo reconhecimento, apesar da opinião de Fernando Pessoa, que constitui uma importante referência. Tudo começa pela paixão de Pessanha por Ana de Castro Osório, a que esta não correspondeu. Pessanha era amigo íntimo do seu colega de curso em Direito Alberto Osório de Castro, irmão de Ana, com quem passava férias em Mangualde em casa do Pai, João Baptista de Castro, que tratava por “primo”. Ana não podia, porém, corresponder ao amor de Camilo Pessanha, por namorar o jornalista e político republicano Paulino de Oliveira, com quem casará em 1898, cinco anos depois da tentativa. A jovem exprime, porém, o desejo «de que Camilo lhe perdoe o desgosto que lhe causa e que seja seu amigo…». E se é certo que autoriza Camilo a destruir a sua carta, tal não acontece, prevalecendo uma «atitude de estoica nobreza». Camilo “restitui” a carta de Ana, e esta guarda essa correspondência, que virá a ser revelada pelo poeta António Osório. Anos depois, em fins de 1915, reata-se o convívio entre Ana e Camilo – que “jantava e seroava em nossa casa invariavelmente duas vezes por semana”, segundo o testemunho de João de Castro Osório, filho de Ana. E é este que se vai encarregar da recolha da poesia: «Comoveu-o ver que um rapaz de dezassete anos lhe pedia para repetir os seus versos de modo a poder escrevê-los, e que, ao fim da noite, lhe mostrava dois ou três dos seus Poemas para ele emendar qualquer erro de interpretação. Prometeu então Camilo Pessanha escrever em cada noite dos nossos serões de família um ou dois dos seus Poemas, até juntar todas as suas obras poéticas». E assim Ana assume o encargo da publicação dos poemas que recolhera «e dos outros que deveria enviar e se esperaram durante quatro anos, sempre em vão». Ana de Castro Osório toma a iniciativa de publicar, há exatamente cem anos, em 1920, nas Edições Lusitânia, de que era proprietária, a Clepsidra.

 

UM VERDADEIRO SONHADOR
Em entrevista a Fernanda de Castro no “Diário de Lisboa” dirá: «De há muito conheço Camilo Pessanha. É um verdadeiro poeta e um verdadeiro sonhador. Mas é também um tímido e um misantropo». Não encontrava nele qualquer desejo de glória. E aí confessa como nasceu “Clepsidra”. “Sem dizer ao poeta os meus planos, pedi-lhe que fosse ditando versos seus, pois queria guardá-los num caderno. Camilo Pessanha ditou-me algumas belas poesias. (De facto foi seu filho o verdadeiro artífice). E foi assim que nasceu a sua Clepsidra”. Na última carta de Pessanha para Ana, de 3 de junho de 1921, o poeta agradece, aliás, tudo o que foi feito pela sua obra: «Acredite que foi das mais doces comoções da minha vida e da minha surpresa, ao ver assim evocada e acarinhada diante dos meus olhos a minha pobre alma – há tantos anos morta». Através de seu sobrinho António (seu pajem) é que Ana de Castro Osório reatou o contacto com Camilo Pessanha, numa ida deste ao Hotel Francoforte no Rossio, em 1915. No testemunho de António, temos recordação dos grânulos de ópio, que tomava nas deambulações de Lisboa e de como o poeta recitava nas ruas da cidade… «Camilo Pessanha possuía a musicalidade dos seus versos, como em estado natural. Da sua poesia, era ela a música essencial e suplicada. Recitando, dir-se-ia que acordara de uma abstrata melancolia para ser ele o choro, a tristeza, a emotividade e a dor dos seus próprios versos». Mas foi o ópio a danação do poeta. Ele fala mesmo de “tormento dessa horrível angústia fisiológica”. «O demónio da deceção foi realmente o demónio da sua vida, e não apenas o dos seus sonhos em Macau, com Ana próximo de si, em vez da pequenina Águia de Prata, que o enganava (e ele saberia?) e do “desgraçado filho”». José Régio disse que o poeta «da sua derrota fez o seu triunfo»… E António Osório afirma ainda que das histórias de amor contidas na Histórias Maravilhosas de Ana nenhuma é tão impressionante como esta – de que apenas há uma carta encantada e o silêncio sereno da nobreza íntima. E assim continuaremos a ouvi-lo: “Eu vi a luz em um país perdido / A minha alma é languida e inerme. / Oh! Quem pudesse deslizar sem ruído! No chão sumir-se, como faz um verme”… Ou “Temo de regressar… / E mata-me a saudade… / - Mas de me recordar / Não sei que dor me invade”… Na expressão de António Quadros este discípulo de Verlaine vive no íntimo a força musical da poesia: “Uma vida inteira de angústia e sofrimento para um minuto de luz, fora do tempo e do espaço? Tal a humana condição, tal a fortuna de um homem infeliz, tocado pelo génio da poesia”.

 

Guilherme d'Oliveira Martins
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