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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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A VIDA DOS LIVROS

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  De 19 a 25 de outubro de 2020

 

“Notícias do Bloqueio” foram os fascículos de Poesia publicados sob a direção de Egito Gonçalves entre 1957 e 1961, dando largas ao desafio lançado pelo poeta em 1952, nas páginas da “Árvore”.

 

A Vida dos Livros _ CNC  - noticias do bloqueio.jp

 

 

TU DIRÁS DO CORAÇÃO

«Aproveito a tua neutralidade, / o teu rosto oval, a tua beleza clara, / para enviar notícias do bloqueio / aos que no continente esperam ansiosos. // Tu lhes dirás do coração o que sofremos / nos dias que embranquecem os cabelos… / tu lhes dirás a comoção e as palavras / que prendemos – contrabando – aos teus cabelos. // Tu lhes dirás o nosso ódio construído, / sustentando a defesa à nossa volta / - único acolchoado para a noite / florescida de fome e de tristezas. // Tua neutralidade passará / por sobre a barreira alfandegária / e a tua mala levará fotografias, / um mapa, duas cartas, uma lágrima… // Dirás como trabalhamos em silêncio / como comemos silêncio, bebemos / silêncio, nadamos e morremos / feridos de silêncio duro e violento. // Vai pois e noticia com um archote / aos que encontrares de fora das muralhas / o mundo em que nos vemos, poesia / massacrada e medos à ilharga. // Vai pois e conta nos jornais diários / ou escreve com ácido nas paredes / o que viste, o que sabes, o que eu disse / entre dois bombardeamentos já esperados. // Mas diz-lhes que se mantém indevassável / o segredo das torres que nos erguem, / e suspensa delas uma flor em lume / grita o seu nome incandescente e puro. // Diz-lhes que se resiste na cidade / desfigurada por feridas de granadas / e enquanto a água e os víveres escasseiam / aumenta a raiva / e a esperança reproduz-se». Quando falamos de Egito Gonçalves (1920-2001) vem-nos sempre à memória este poema de 1952, que foi mote de uma revista e encontramos no “Pêndulo Afetivo”, saído na Afrontamento, em 1991. É um poema de liberdade e resistência, que lemos, compreendendo que cada palavra significa um apelo forte à esperança numa sociedade que se desejava livre. Lembramos as revistas “A Serpente” (1951), “Árvore” (1951-53) e “Notícias do Bloqueio” (1957-61). E ainda hoje vemos como as revistas literárias são dos veículos culturais com maior futuro e vitalidade. Muitas vezes podem ser fugazes, mas representam um modo especial de comunicar, através das ideias, da reflexão e do pensamento. Em vez das mensagens pobres e curtas, a complexidade contemporânea necessita de espaços amplos de respiração. Se os jornais diários tendem a ver o seu espaço ocupado pela informação instantânea, as revistas e os livros têm um espaço insubstituível. Tenhamos, pois, o cuidado de não nos deixar dominar apenas pelas redes sociais, que não abrem horizontes (independentemente da importância que possam ter), mas deixam-se ficar nos circuitos fechados. As revistas, ao contrário, cultivam o tempo e a reflexão, devendo incentivar o debate e o diálogo.

 

UM HOMEM DE REVISTAS

Egito Gonçalves foi um homem de revistas. E assim lemo-lo hoje com a atualidade dos momentos de perplexidade – como há pouco Eugénio Lisboa trouxe até nós a invocação do tempo da peste… Egito Gonçalves foi um animador cultural – desde o Cineclube do Porto ao Teatro Experimental do Porto. Se as folhas de poesia “Árvore” publicaram apenas quatro números, a verdade é que recordamos a sua importância. António Ramos Rosa, António Luís Moita, José Terra, Luís Amaro e Raúl de Carvalho foram os animadores. As ilustrações foram de Cipriano Dourado, Lima de Freitas e Fernando Lanhas. Egito Gonçalves pontuou na revista e na direção do último número, com Eugénio de Andrade, Sophia de Mello Breyner, Matilde Rosa Araújo, Luísa Dacosta, Vergílio Ferreira, Manuel da Fonseca, José-Augusto França, Natércia Freire, Sebastião da Gama, Alberto Lacerda, Eduardo Lourenço, Alfredo Margarido, David Mourão-Ferreira, Albano Martins, Mário Sacramento, Álvaro Salema, Jorge de Sena, Mário Cesariny. O último número viria, aliás, a ser apreendido por decisão da censura – por dedicar atenção a Federico Garcia Lorca, com uma introdução de Eugénio de Andrade e por publicar a tradução de António Ramos Rosa de poemas de Paul Éluard. É significativa ainda a entrevista de Adolfo Casais Monteiro, onde este afirma a necessidade de “trabalhar pela unidade espiritual da Europa, baseada num idêntico apego à liberdade de pensamento”, na “poesia como elemento de irradiação espiritual”, com recusa de “qualquer espécie de servidão”. Como dirá Luís Amaro: “a escrupulosa revisão de provas” e as reuniões da organização “dispersaram-se, naturalmente, por cafés propícios (o extinto Restauração, na rua Primeiro de Dezembro, o Martinho, da Praça D. João da Câmara, o Ribatejano, aos Anjos) ou por esplanadas da Avenida, ou ainda por quartos e pesões, sabe Deus como, íamos sobrevivendo”. António José Saraiva e Óscar Lopes falam dos debates do neorrealismo na revista “Vértice” e na natureza eclética de “Árvore”. Como dizia o programa editorial da revista, intitulado “A Necessidade da Poesia”: “Livre é a palavra mais querida dos poetas, a mais vital para a poesia”. Já os nove cadernos “Notícias do Bloqueio”, publicados no Porto e dirigidos por Egito Gonçalves e Daniel Filipe (1925-1964), com Papiniano Ramos, Luís Veiga Leitão, Ernâni Melo Viana e António Rebordão Navarro situam-se numa linha paralela de abertura de horizontes e de cooperação entre as várias correntes e sensibilidades existentes. Sintomaticamente, o título do poema de Egito Gonçalves, publicado no fascículo 4º da revista “Árvore”, serve de bandeira para a revista, como o próprio pretende: “Vai pois e noticia com um archote / aos que encontrares de fora das muralhas”… A colaboração é diversa, de Miguel Torga e Jorge de Sena a Alexandre O’Neill, passando por Afonso Duarte, José Augusto Seabra Mário Henrique Leiria, Orlando Costa, José Fernandes Fafe, Teresa Rita Lopes ou Gastão Cruz, Fica, assim, a referência fundamental à criação poética começada pela geração de cinquenta, na qual, como disse Casais Monteiro, importaria desenvolver a “poesia como elemento de irradiação espiritual”, com recusa de “qualquer espécie de servidão”. O programa não merece comentários ou acrescentos, revelando-se atualíssimo e sendo reforçado no contexto democrático. Que é a cultura senão um fluxo contínuo, um movimento incessante, em que as ideias se enriquecem pela criação e pela aprendizagem, pela experiência e pelo diálogo? “Notícias do Bloqueio” são um bom exemplo – pelo que significam de resistência e pelo que representam como compromisso de não indiferença.

 

Guilherme d’Oliveira Martins
Oiça aqui as minhas sugestões – Ensaio Geral, Rádio Renascença