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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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ALICE GOMES

Alice Gomes.JPG 

Fogueira de lenha verde”
 

O título deste livro é um paradoxo, um absurdo (…)porque já não sou uma estreante, porque já não sou uma rapariga, fogueira que eu ateasse devia ser de lenha seca.

Alice, Alice Gomes, oh!, os prados imensos das idades, que grandes campos pelos quais devagar chegamos aos bosques. Não é um paradoxo o título deste teu livro: pego-lhe na leitura palpitante. Ora!..., tu sabes como é…

Alice Gomes, foi irmã de Soeiro Pereira Gomes e do matemático Alfredo Pereira Gomes. Dedicadíssima professora do Ensino Primário, abriu-se como escritora, cujas obras dedicou às crianças. Casou-se com o escritor Adolfo Casais Monteiro e ficou Alice como um expoente da nossa Literatura Infantil e só?

Do livro “Fogueira de lenha verde”:

- O que é verdade, minha senhora, é que nem todas as cabeças foram feitas para chapéu. (…) Tinha conseguido o que ambicionava: ser independente, mas sentia a possibilidade de ser feliz. Aquela felicidade que Eduardo lhe tinha oferecido na ternura da sua mocidade, como lhe parecia remota! Aquele passado de há seis meses apenas (…)

(…)DIREITO À VIDA é, sobretudo, uma chamada às mulheres para que organizem a sua vida, de forma a poderem assumir as suas responsabilidades.(…) Não quererão os Leitores e as Leitoras aplicar a sua imaginação, a sua criatividade, e concluir a minha história, como bem lhes parecer?

Professor diz-me porquê.JPG

Professor diz-me porquê?

 

Professor diz-me porquê?

Por que voa o papagaio
que solto no ar
que vejo voar
tão alto no vento
que o meu pensamento
não pode alcançar?

Professor diz-me porquê?
Por que roda o meu pião?
Ele não tem nenhuma roda
E roda gira rodopia
e cai morto no chão...

Tenho nove anos professor
e há tanto mistério à minha roda
que eu queria desvendar!
Por que é que o céu é azul?
Por que é que marulha o mar?
Porquê?
Tanto porquê que eu queria saber!
E tu que não me queres responder!

Tu falas falas professor
daquilo que te interessa
e que a mim não interessa.
Tu obrigas-me a ouvir
quando eu quero falar.
Obrigas-me a dizer
quando eu quero escutar.
Se eu vou a descobrir
Fazes-me decorar.

É a luta professor
a luta em vez de amor.

Eu sou uma criança.
Tu és mais alto
mais forte
mais poderoso.
E a minha lança
quebra-se de encontro à tua muralha.

Mas
enquanto a tua voz zangada ralha
tu sabes professor
eu fecho-me por dentro
faço uma cara resignada
e finjo
finjo que não penso em nada.

Mas penso.
Penso em como era engraçada
aquela rã
que esta manhã ouvi coaxar.
Que graça que tinha
aquela andorinha
que ontem à tarde vi passar!...

E quando tu depois vens definir
o que são conjunções
e preposições...
quando me fazes repetir
que os corações
têm duas aurículas e dois ventrículos
e tantas
tanta mais definições...
o meu coração
o meu coração que não sei como é feito
nem quero saber
cresce
cresce dentro do peito
a querer saltar cá para fora
professor
a ver se tu assim compreenderias
e me farias
mais belos os dias.

Alice Gomes (1946)


Alice, em estilo dialogante, também tem o dom de contar histórias do real pelo maravilhoso ou pelo sonho, e por elas a poesia e o teatro. Contos Risonhos e

Bichinho Poeta.JPG 

Bichinho Poeta (1970), livro de poemas, a Lenda das  AmendoeirasNau Catrineta peças teatrais de Alice Gomes, ou  as reflexões que deixou expressas em Aprender sorrindoLiteratura para a Infância, 1979, bem demonstram a justiça do prémio que a Câmara Municipal de Tabuaço criou para o atribuir anualmente.

Alice Gomes, quero dizer-te:

Estendi grinaldas da minha janela à tua e assim realizo todas as lembranças da escrita que sabe como se dá o nó.

 

Teresa Bracinha Vieira

Novembro 2014

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