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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

ALMEIDA GARRETT

 

O narrador anuncia: De como o autor deste erudito livro se resolveu a viajar na sua terra, depois de ter viajado no seu quarto; e como resolveu imortalizar-se escrevendo estas suas viagens. Parte para Santarém. Chega ao terreiro do Paço, embarca no vapor de Vila Nova; e o que aí lhe sucede.

 

“Há em todo este enredo um claro simbolismo político e social: o emigrado é filho do frade, como o Portugal revolucionário é filho do Portugal clerical; e só por acidente aquele não assassina o pai, como o novo Portugal liquidara pela base o Portugal antigo.” Esta uma das opiniões criticas que li acerca das “Viagens na minha terra”.

 

“Viagens” fazem referência a uma série de reflexões políticas, históricas, filosóficas e existenciais que o autor-narrador trabalha no texto e a viagem, diga-se, é interpretada como busca do conhecimento: assim, pode-se dizer, que a literatura de viagem não é apenas encontrar e conquistar pelo saber do sentir, novos territórios, mas, conhecendo outros povos e culturas refletir de um novo angulo sobre o nosso próprio eu.

 

E quando pego nesta edição de 1857 da Imprensa Nacional, leio, a dada altura, as palavras deste magnífico Garrett:

 

Comêmos, conversámos (vieram visitas, falou-se de politica, falou-se litteratura, falou-se de Santarem sobretudo, das suas ruinas, da sua grandeza antiga, da sua desgraça presente. Emfim, fomo´-nos deitar.

 

(…) Nunca dormi tam regalado somno em minha vida (…).Saltei da cama no outro dia (…) recordações de todos os tempos, pensamentos de todo o género me afluíam ao espirito, e me tinham como n’um sonho em que as imagens mais discordantes e disparatadas se sucedem umas ás outras. Mas eram todas melancholicas, todas de saudade, nenhuma de esperança!...

 

Lembraram-me aquelles versos de Goeth (…)

Vêem os primeiros símplices amores

(…) Dos labyrinthos da perdida vida;

(…) Em horas bellas por fallaz ventura

Antes de mim na estrada se sumiram.

 

É tão evidente neste livro que cada geração, pelo facto de ter nascido no interior de uma continuidade histórica, beneficia e carrega fardos anteriores, reordena ideias, sentires e tempos para, no pensamento e na ação, renovar mundo, aquele mesmo mundo que já lá existia antes do livro e que ele deixará a todos os que o lerem. Ficará o mundo deste livro, viajado também, no quarto de múltiplas estradas, por onde erradamente nos sentimos em excesso culpados e em excesso livres de culpa, quando nem o amor é inocente durante a viagem.

 

Cada peça da engrenagem deste livro é o mesmo que dizer que cada pessoa é um quadro de referência distinto, é um grau de participação no nosso processo interior, respondendo perante o nosso tribunal para que este interprete o que se deve entender, nomeadamente, nas palavras de Garrett por

 

o pouco da noite que lhe restava passou-se (…) combateu-se larga e encarniçadamente – como entre irmãos que se odeiam de todo o odio que já foi amor – o mais cruel odio que tem a natureza!”

 

Depois, depois, proponho que o critério do nosso juízo seja o mundo, isto é, que da janela do quarto de cada um, se olhe para a rua. Permitam então que sugira que deste modo se releia o livro e se faça a viagem. Que se espreite a linguagem a viver ao lado de nós com muitas razões a serem aferidas contra as probabilidades a que estamos habituados, e talvez nos chegue de outra viagem, com a qual nascemos, o entender de parte da Carta de Carlos a Joaninha no Capítulo XLVII (SEGUNDO DAS VIAGENS)

 

Tambem deve ser assim a morte: um descanso apathico e nullo depois de inexplicável padecer.

 

(…) E já não pensava em ti, já te não via na minha alma: eu não existia, estava alli.

 

A militância ideológica de Garrett não é descurada nunca neste livro, ela é uma fonte de informação sobre os sinais de vida do seu tempo e das suas opções, agregada sempre ao fogo intenso e intimo dos amores.

 

Teresa Bracinha Vieira