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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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ANA CRISTINA LEONARDO: O CENTRO DO MUNDO

 

No centro do mundo há muito para contar e tanto que os veteranos deste livro de Ana Cristina Leonardo podem ser crianças, gentes de meias idades que crescem ou envelhecem que é outro jeito de desaguar, tementes ao rei por bondades, banditismos ou assassinatos, russos que por apátridas se fazem passar por alemães e sempre na procura de um agasalho quente, de uma mulher adúltera que sobrevive porque tem os abraços de cela que a selam, sempre de confissões sustidas, ou o mar não as pudesse abafar de vez, se as ouvisse, apenas porque nelas procura as coisas proibidas que só a morte revelará, e tanto é tanto.

 

E tem a palavra Olhão. «Logar de Olham.» Lugar desconfiado das governanças, às quais se obedece apenas em mar alto, disciplinadamente como o beijo que não tem qualquer ruído e que de tão iletrado, beijo, beijo não é. É sim, beijo de salmoura, diz-se então que em mil setecentos e troca os números e os pares dos sapatos que um dia um versejador denunciado perdeu, dentro de todas as caixas que lhe fariam bem à reserva monetária do engenho contrabandista, tinham um sapato só – julgo que o esquerdo - e como não tivessem qualquer utilidade, estes sapatos sem par, os restantes foram logo apanhados com o sapato do pé direito, em falta, nas restantes caixas de sapatos, que, no leilão arrematado ao fisco deu a quem rema nas artes de versejar a razão para expulsar os de Napoleão, e, era levar depressa a boa nova ao rei de Portugal e dos Algarves e dizer-lhe que assim também se uniam as terras da esquerda e da direita, e que talvez por essa razão ser sabida da Europa, ela ainda assentava na paz precária do Tratado de Versalhes.

 

E quem está a tentar fugir deste “Centro do Mundo”, nele deixando infantarias americanas nas torres de vigia, são sempre os sobreviventes, aqueles que rezam o terço das balas para que os disparos se nunca façam a seu favor. E dias e noites hão-se passar em número escasso e logo os gritos se tornarão gemidos. Assim, sem muito mais, encontrei neste livro editado pela QUETZAL* vários pontos exactos e definidos, em que as nesgas dos céus azuis não têm tempo para visões de misericórdia. Afinal o que levamos connosco é todo o cais e o próprio mar dentro dele; é tudo Alhambra e os lenços de cores mágicas ali tão perto; é ainda uma Polónia ocupada e as automutilações sob negros panos arados, à roda de uma Mesquita de Jeddah e um médico argonautra:

 

- Quem quiser escutar mentiras, alinhe-se.

Alguém disse:

- Vamos pois, que se um homem deixa de se poder divertir é hora de dar corda aos sapatos, e respeitando a Lei Seca, pelo menos eu, não amo a minha Rosa.

 

Teresa Bracinha Vieira

 

  • Ave trepadora da América Central, que morre quando privada de liberdade.
  • Por decisão da Autora, este livro mantém a grafia anterior ao Acordo Ortográfico de 1990