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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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ANTOLOGIA

  


UM INESPERADO BARROCO…
por Camilo Martins de Oliveira


"Ma Petite Princesse,
À ton âge, tu t’imagines, encore et usque ad pulverem, ma Petite Princesse... É simples e enternecedora esta verdade: a melhor expressão de um amor maior é um diminuitivo! A intimidade do que se sente no fundo do coração desconhece a grandiloquência. Na memória de um crente - e de tantos incréus! - não há lembrança mais doce do que a do Deus Menino. Nem oração em boca de mulher poderá ser mais cheia de graça do que a da rendição de Maria ao Menino soprado no seu ventre... A fundação da nossa religião é a ternura carinhosa de Deus, que somos convidados a partilhar. O amor é manso, debruça-se sobre o outro, não violenta nem conquista, apenas acolhe e é acolhido. Os japoneses têm uma palavra curiosa: "amae". Significará a vocação da dependência, ou o desejo inato dela. Tem a mesma raiz etimológica de "amai", que significa doce, doçura. Há quem pretenda - como o psiquiatra Tadeo Doi - que essa vocação para a dependência é como um desejo de regresso da criança à união inicial com sua mãe, e que se traduz por uma expressão que evoca a nostalgia de uma intimidade tornada sensível, após o nascimento, pela doçura do leite materno. "Amae" será então um desejo vindo da antiguidade da infância, a recusa do desamparo que, afinal, mais não é do que um modo da orfandade. A forma verbal de "amae" é "amaeru", que poderemos traduzir por desejar depender do amor dos outros. O que S. Paulo diz do amor: que "é paciente, é amável (…) tudo encobre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta" - eis o que o japonês menino (mesmo já crescido e a diminuir para velho) deseja encontrar. Nem que tenha de se servir de truques ou manhas infantis: curiosamente, o mesmo verbo "amaeru" também quer dizer "ser mimado, portar-se como um bebé"... Para o Doutor Doi, o conceito de "amae" é chave para o entendimento da confrontação de "giri" e "ninjo" que, aliás, é o tema fulcral do romance "A Bailarina", de Ôgai Mori (1862-1922), um dos textos fundadores da moderna literatura japonesa. Conta-nos a história do grande amor do autor (médico militar de alta patente e pertencente à elite do império Meiji) e de uma bailarina que conheceu na Alemanha, onde estudava a cultura e civilização do Ocidente. Convidou-a a vir ter com ele ao Japão, para se casarem, mas por pressão familiar e social obrigou-se, em consciência, a renunciar a esse compromisso do coração. Prevaleceu o "giri", a obrigação de se comportar, para com os seus círculos familiares e sociais, de acordo com normas de reciprocidade, fidelidade e obediência, seja qual for o sacrifício exigido. Explicam-se assim comportamentos como os dos pilotos suicidas ("kamikaze" ou ventos dos espíritos), ou os suicídios rituais ("seppuku" ou "harakiri") pela morte, derrota ou vergonha do senhor ou mestre. Ou ainda, a troca obrigatória e, muitas vezes, normalizada e até ritualizada de favores - que nós ocidentais tendencialmente consideramos corrupção... O "ninjo" que, neste caso, saiu vencido, é esse universo de sentimentos de simpatia, compaixão, afeto ou submissão do coração - o amor humano que, diria Tadeo Doi, nasce nessa dependência inicial da criança e da mãe e se vai reproduzindo com amigos, amantes, família, no decurso das vidas. O amor é um menino pequenino que nos enche o coração. Voltei hoje ao Byodoin, onde já não ia há mais de uma década. Fica um pouco afastado de Kyoto, mas é talvez a obra-prima da arquitetura do budismo da Terra Pura no período Heian (794 a 1160 ou 85). Foi Yorimichi Fujiwara - na altura "kampaku", ou 1º Conselheiro do imperador - que iniciou, em 1052 a construção do templo no sítio de uma casa de recreio de seu pai, prática aliás repetida por outros, inclusive pelos "shogun" Ashikaga, no séc. XV/XVI, com a edificação ou transformação em templos dos pavilhões "Ginkakuji" e "Kinkakuji" (prateado e dourado). Mas falo-te no Byodoin, por essa orientação do budismo Mahayana (da Porta Larga) que se apelidava de Terra Pura, e foi adotada pelas seitas Shingon e Tendai. O Buda aí venerado e invocado é o Amida ou Amitaba, cuja estátua está neste templo guardada no "shumidan" do pavilhão da Fénix, e tem 3 metros de altura, sentado. Todo ele é de madeira laqueada a ouro, e o rosto pacífico e quase feminino ilumina-se diariamente, a hora variável conforme a incidência do sol, que penetra por uma larga escotilha, aberta na parede sul. O "milagre" da iluminação de Amitaba Tatagata é visível, de fora do pavilhão, para quem estiver na margem sul do lago artificial aos pés do edifício do templo cujo desenho evoca uma fénix pousada, abrindo, extensas, as suas asas... O culto de Amida, como tantos outros votos e devoções na prática budista, não é uniforme: pode ficar-se pela contemplação da pureza que resultará da libertação das coisas mundanas, ou poderá crer e esperar no salvador que receberá todos na sua Terra Pura (e esta foi a crença, iniciada na China, que predominou na era Heian), ou ainda como uma salvação que libertará e acolherá todos mesmo os mais pecadores. No Byodoin, em sala anexa ao "shumidan", somos envolvidos por representações esculpidas, ao gosto, diria eu, do barroco europeu (este, cinco séculos depois), de apsaras, seres celestes que, como os anjos da nossa tradição, evoluem sobre nuvens, tangendo, percutindo, soprando vários instrumentos de sonora - e, esperemos, melodiosa - música. Rodeiam o Buda, e exultam com as suas virtudes. Por isso, haverá quem lhes chame bobisatvas. Santos, diríamos nós, que chegaram ao Nirvana. Tudo isto é "kawai" (japonês), "cute" (inglês), "mignon" (francês), precioso - dirão os meridionais - como um Menino... Por isso me despeço de Vossa Alteza, minha Princesa de mim, com esta diminuta banalidade "brusseler": au revoir, "chouke" (mon petit choux)."  Traduzo: até à vista, minha couvezinha, diria Camilo Maria em português.


Camilo Martins de Oliveira

 

Obs: Reposição de texto publicado em 12.04.13 neste blogue.