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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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AS CONDIÇÕES DO URGENTE DIÁLOGO INTER-RELIGIOSO

  


Tanta gente que foi morta ao longo dos séculos, vítima do ódio e de interesses económicos, políticos, geoestratégicos, imperativos de monopólio religioso, e  em nome de  Deus!... Haverá coisa mais abjecta e absurda? É evidente que o deus em nome do qual arbitrariamente se torturou, se assassinou, se vandalizou, não existe. Não passa de um ídolo execrável, que serviu  de legitimação a interesses brutais, sujos, selváticos. Escusado será dizer que esse deus idolátrico produz e tem de produzir inevitavelmente ateísmo. Matar, mandar matar está nos antípodas do santo nome do Deus vivo.


E hoje essa tragédia continua. E porque entre nós não se fala disso, quero (entre parêntesis) apresentar alguns números sobre a perseguição dos cristãos, sabendo-se que o cristianismo é hoje a religião mais perseguida no mundo. Não é a única, evidentemente — pense-se, por exemplo, nos rohinga, adeptos da religião muçulmana e na sua perseguição brutal em Myanmar, país maioritariamente budista. Segundo a ONG  “Puertas Abiertas”, no seu relatório de 2024 referente à perseguição dos cristãos, acabado de ser publicado, entre 1 de Outubro de 2022 e 30 de Setembro de 2023, 14.766 lugares de culto foram destruídos ou encerrados e 4.998 cristãos foram assassinados. Um em cada 7 cristãos é perseguido no mundo — um em cada 5 na África, 2 em cada 5 na Ásia, um em cada 16 na América Latina. A Coreia do Norte voltou a encabeçar o ranking negativo de perseguição mais severa, seguindo-se Somália, Líbia, Eritreia, Iémen, Nigéria, Paquistão, Sudão, Irão e Afeganistão, ocupando Índia e China os lugares 11 e 19, respectivamente. Segundo o Relatório, são 57 os países onde os cristãos enfrentam uma perseguição severa...


Voltando  à temática das religiões, constatamos que a corrupção do óptimo é péssima. A religião, que é, pode e deve ser a pátria da expansão in-finita do ser humano, da libertação, da dignidade e dignificação de todos, do amor, da alegria, da paz, do sentido último, também foi, é e pode tornar-se o espaço da loucura toda, à solta. Na religião, houve e há o melhor e o pior: nela, aconteceu e acontece a subida ao céu do humano heróico até ao divino; nela, desceu-se até ao inferno da desumanidade diabólica. Neste início ainda do século XXI, com a confusão e o medo instalados, reflectir sobre esta realidade é imprescindível.


O que durante tanto tempo Hans Küng, recentemente falecido, sublinhou — a necessidade do diálogo inter-religioso para ser possível a paz no mundo — é cada vez mais urgente. Entende-se mais claramente do que nunca que a obra do famoso teólogo se oriente pelo lema: "Não haverá paz entre as nações sem paz entre as religiões. Não haverá paz entre as religiões sem diálogo entre as religiões. Não haverá diálogo entre as religiões sem critérios éticos globais. Não haverá sobrevivência do nosso globo sem um ethos global, um ethos mundial."


Este diálogo assenta em quatro pilares fundamentais. Primeiro: todas as religiões, desde que não só não se oponham ao Humanum, mas, pelo contrário, o afirmem e promovam, são reveladas e verdadeiras. Segundo: as religiões são manifestações e encarnações da relação de Deus com o Homem e do Homem com Deus. Todas são relativas, no duplo sentido de relativo, dito já no étimo latino: relativas, na medida em que estão inevitavelmente inseridas num determinado contexto histórico-social, e relativas, no sentido de que estão referidas, isto é, em relação com o Absoluto, mas elas próprias não são o Absoluto. Precisamente este segundo pilar exige o terceiro: se não são o Absoluto, embora referidas a ele, então os homens e mulheres religiosos devem dialogar para melhor se aproximarem desse Mistério divino já presente em cada religião, mas sempre transcendente a cada uma e a todas. Não se trata, portanto, de mera tolerância religiosa, que pressupõe ainda uma superioridade de quem tolera o outro considerado inferior. É o próprio Mistério infinito de Deus que exige o diálogo para que os crentes se enriqueçam mutuamente num sempre a caminho do Mistério que se revela e ao mesmo tempo se oculta, e do qual o ser humano não pode apoderar-se nem dominar. Deste diálogo fazem parte os ateus, pois são eles que permanentemente previnem os crentes contra a idolatria e a desumanidade. Finalmente — é o quarto pilar —, se Deus é o Mistério que tudo penetra e a todos envolve, então o respeito pelo outro crente, pelo outro homem, por todas as criaturas, não é algo de acrescentado à fé religiosa, mas exigido pelo próprio dinamismo dessa fé. Acreditar em Deus implica em si mesmo acreditar no ser humano, em todo o ser humano.


E uma última observação, essencial. Não haverá paz entre as religiões e com as religiões, sem dois pressupostos fundamentais, e, aqui, peço desculpa por fazer um apelo nomeadamente ao islão, porque aquilo que custou tanto a perceber e concretizar na e pela Igreja católica, vai ser muito mais difícil para o Islão. Primeiro: condição fundamental é a leitura histórico-crítica dos textos sagrados, que não admitem de modo nenhum uma leitura literal. Segundo: a laicidade do Estado, a separação do Estado e da(s) Igreja(s), o Estado não tem nenhuma religião, para poder salvaguardar a liberdade de todos, o que não significa de modo nenhum laicismo, que seria a pretensão de remeter a religião só para o espaço privado,  como se ela não tivesse lugar no espaço público.   


Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 27 de janeiro de 2024