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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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ATORES, ENCENADORES - LX

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EVOCAÇÃO DE VERGÍLIO FERREIRA, ATOR JUVENIL, ESPORÁDICO DRAMATURGO

 

Na semana passada, Guilherme d'Oliveira Martins referiu, num texto publicado no e-cultura do CNC, “a singularidade e a força criativa” de Vergílio Ferreira, cujo centenário do nascimento se assinala este ano, como aliás se assinalam os 20 anos da morte. A obra e a marca excecional de Vergílio são ali analisadas com profundidade, sobretudo a partir de títulos muito significativos – “Aparição”, “Vagão J”, “Mudança”, “Conta-Corrente”, “Alegria Breve” ou, noutro plano, “Pensar” ou “Para Sempre”. O texto de G. Oliveira Martins contem assim uma visão abrangente do mais significativo da obra romanesca de Vergílio Ferreira, e as citações, designadamente de Eduardo Lourenço, enquadram a análise global do pensamento e da criação literária respetiva.

Farei aqui referência breve às ligações de Vergílio com o teatro: e breve porque breve foi a sua intervenção direta, como ator e como dramaturgo, sem com isso significar a menor valia do texto dramático que nos legou - a peça “Redenção” publicada em 1949 na revista “Vértice” e incluída, em “Consta Corrente - 2” relativa a 21 de Julho de 1977.

E aí escreve com efeito Vergílio Ferreira: “Perguntam-me com frequência porque não escrevo teatro, tenho bossa para os diálogos, era de tentar. O curioso é que, quando rapaz, escrevi coisas de teatro que se perderam. De miúdo, logo aos seis anos funcionei como ator em Coimbra, só não entrei no TEUC por timidez, e as quezílias de saúde e o ar secreto ou esotérico que tinha aquele agrupamento, mais chegado à literatura, o teatro só episodicamente me seduziu. Creio que a razão é eu amar intensamente a palavra e o teatro não me dar grande resposta, é como se eu tivesse apenas de molhar a boca”…

Não cabe aqui uma análise exaustiva da peça “Redenção” como tal: conflito de opções do protagonista, designado como “O Poeta” que vive a angústia da solidão, da miséria e da doença. Dois amigos (designados por “O 1º Amigo e o 2º Amigo) tentam convencê-lo a intervir numa sessão pública que lhe daria alguma projeção. O Poeta começa por recusar mas, perante a insistência, acaba por ceder à pressão dos Amigos: mas morre ao tentar juntar-se a eles…

Ora bem: o que aqui quero salientar é o sentido teatral das situações, expresso e consagrado em notas de cena que, em rigor, reportam para o mesmo sentido “de espetáculo” da obra romanesca de Vergílio e com o mesmo profundo conflito existencial. Mas o mais curioso, é o detalhe das indicações expressas pelo autor no sentido da potencial encenação, cenografia e direção de atores – tudo isto aliás transparece também na obra romanesca, mas só aqui assume uma expressão cénica expressa e direta.

Vejamos então a caracterização das três personagens, tal como o autor as concebeu e expressamente caracterizou:
“O Poeta – 35 anos, magro pálido, começo de calvície, vestido com desleixo; 1º Amigo - 35 anos, alto, compleição normal, vestido com certa elegância não excessiva; 2º Amigo - 25 anos, sóbrio, baixo, vestido corretamente”.

E a cena é minuciosamente descrita:
“A cena representa um quarto numas águas furtadas, teto oblíquo, pequena janela á esquerda e ao fundo, dando para telhados de outras casas. Ao pé da janela uma mesa e uma pequena estante com livros. Para lá da janela vários prédios. Ao lado direito uma cama de ferro e mesinha. Ao lado esquerdo, um velho lavatório de ferro com jarro e bacia de esmalte velhos, também algumas cadeiras, ao mesmo lado esquerdo uma porta que dá para uma escada alta. Quando o pano sobe, o poeta está recostado sobre a cama”.

E segue-se a caracterização das personagens e as didascálias e orientações da ação, da interpretação e da encenação. Por exemplo:
“(O protagonista) fecha a janela a deitar-se. Pouco depois, ouve passos pela escada acima. Soergue-se, escuta. Os passos aproximam-se. Deita-se encostando a cabeça à beira da cama e espera de olhos fechados. Entram dois amigos, calmamente. Param um momento de pé ao fundo da cama. (…) Acende um cigarro (…) voz baixa, inclinando-se (…) recostando-se de novo”… e assim sucessivamente, com sucessivas indicações diretas aos atores.

E ainda, uma caracterização psicológica das personagens: o 1º Amigo “quando estava no liceu só discutia as fórmulas matemáticas (…) servia-se delas, não hesitava.” O 1º e o 2º Amigos são homens de ação” ao contrário do Poeta, que “gosta de hesitar (…) não tem responsabilidades, não quer atuar”…

Remeto para as razões que, em 1987, Vergílio Ferreira elenca para “explicar” a escassez, quase inexistência da sua expressão teatral assumida - e digo assumida porque, nos romances, a espetacularidade é mais do que evidente. Mas diz ele em “Espaço do Invisível – VI”:

“Eu poderia ter escolhido entre o teatro, a poesia e o romance – se escolher não é profundamente ser mas deliberar. (…) mas porque o teatro é antes de mais ação, vim a sentir nele a falta da «palavra»; e porque a poesia é antes de mais emotividade, vim a sentir nela a falta da «ideia». É dito isto assim sumariamente porque nem a palavra tem por força de faltar no teatro, nem a ideia tem de faltar na poesia. Mas sem dúvida o teatro é fundamentalmente uma ação resolvida no palco, como a poesia é sem dúvida uma emoção resolvida num certo número de versos”.

E finalmente: analisei esta peça num estudo encomendado e publicado pela Universidade da Corunha. E aí traço uma convergência entre esta peça única de Vergílio Ferreira e o teatro de Raul Brandão, “na medida em que (e cito) os ambientes têm algo de comum e porque a dramaturgia brandoneana percorre também uma trajetória (…) até à profunda, dolorosa, condoída e solidária meditação existencial”.
E assim é nesta breve passagem de Vergílio Ferreira pelo teatro-texto, ele que episodicamente passou também pelo teatro-espetáculo.

  

DUARTE IVO CRUZ

 

 

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