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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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CADA ROCA COM SEU FUSO…

 

ESTAR DE SOBREAVISO NUM TEMPO DE FALSA INFORMAÇÃO
16 de abril de 2019

 

 

Alguém me dizia que desconfiava da transparência nos negócios públicos e que a política se quer com uma boa dose de segredo. Lembremo-nos do nosso D. João II que tudo fez com base no sigilo e não se deu mal com isso. O segredo é a alma do negócio. Mas vamos a ver se nos entendemos. A transparência tem a ver com a clareza das decisões e com a sua fundamentação. Tem a ver com o combate à discricionariedade e ao favor. Essa transparência é boa e necessária. Mas não é boa transparência o querer ver pelo buraco da fechadura e o misturar vida privada e vida pública. Eu sei que muitas vezes culpadas são as figuras públicas, na ânsia de se apresentarem, ficam-se nas fronteiras e depois queixam-se porque são elas mesmas que suscitam a curiosidade sórdida. Ninguém é célebre para o criado de quarto. Sabe-se que assim é. A Rainha Vitória quando visitava os Bairros Pobres de Londres levava as melhores joias, para marcar a distância e para se fazer admirar. A admiração e o respeito exigem, de facto, uma certa distância. Não confundamos, por isso, as coisas – a transparência deve existir para defender o bem comum e a justiça, não para alimentar a sordidez e a inveja. E o que vemos, a cada passo? O contrário disso mesmo. As chamadas redes sociais são circuitos fechados, que transmitem a má-língua, quando não a pura difamação. Longe de ser lugares de elevação são, na maior parte dos casos, lugares de conversa de subúrbios, de cloacas ou de sítios pouco recomendáveis. Cada qual apenas diz o que quer que os outros oiçam e só ouve o que deseja. A onda de “fake news” não é mais do que resultado dessa tentação dos círculos fechados, onde normalmente se manifesta uma atrevida ignorância. E depois gera-se um tremendo fenómeno: enquanto os tribunais deliberam condenações, com efeito limitado; as condenações das redes sociais ou da opinião pública são definitivas, permanentes e não pressupõem a recuperação e a integração. Ian Buruma foi afastado da “New York Review of Books” porque disse isto mesmo e porque os anunciantes não gostaram. Em nome da sobrevivência do jornal foi dispensado… Dir-se-ia que é a tirania cega do número que se impõe – tão má ou às vezes pior que os Big Brothers deste mundo. Ao menos, os tiranos podem ser vencidos e afastados. A cobardia e a pusilanimidade impõem-se neste populismo abjeto… A ilusão impõe-se. A manipulação torna-se regra. As pessoas são tratadas, no fundo, como cães de Pavlov.

 

E corri à estante, abri os Poemas de Nicolau Tolentino (1740-1811), e com algum esforço, encontrei a ilustração de como a ilusão nos vai enganando – e nós deixamo-nos arrastar por ela…

 

Fiei-me nas promessas que afetavas
Nas lágrimas fingidas que vertias,
Nas ternas expressões que me fazias,
Nessas mãos que as minhas apertavas.

Talvez, cruel, que, quando as animavas,
Que eram doutrem na ideia fingirias,
E que os olhos banhados mostrarias
De pranto, que por outrem derramavas.

Mas eu sou tal, ingrata, que, inda vendo
Os meus tristes amores mal seguros,
De amar-te nunca, nunca me arrependo.

Ainda adoro os olhos teus perjuros,
Ainda amo a quem me mata, ainda acendo
Em aras falsas, holocaustos puros.

 

Agostinho de Morais