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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

CADA ROCA COM SEU FUSO…

 

JÚLIO

 

É sempre difícil recordar um amigo que nos deixa. Os obituários muito disseram sobre Júlio Castro Caldas. Mas fica sempre muito por dizer, apesar das listagens exaustivas de cargos e encargos que os homenageados tiveram. No entanto, importa menos recordar o prestigiado Bastonário da Ordem dos Advogados que foi, exemplar na defesa do prestígio da profissão e na salvaguarda intransigente dos direitos fundamentais dos cidadãos ou o Ministro da Defesa Nacional que demonstrou o que sempre caracterizou a sua vida – zelo, defesa do interesse público, determinação, saber e inteligência. É sempre mais importante lembrar a pessoa e o cidadão.
Encontrámo-nos poucos dias antes de nos deixar, na Avenida Infante Santo: sempre igual a si mesmo. Era aberto, generoso, cordato, mas nunca escondia o facto de arrastar consigo os males do mundo. Foi assim sempre, esperançoso, mas invariavelmente à espera de uma conspiração ao virar da esquina. O Júlio era um homem de valores éticos. Punha essa atitude em tudo o que fazia: fosse no escritório de Advogado, onde era de uma competência a toda a prova, ou na função política, em que era exaustivo no elencar dos riscos e dos perigos… Conheci-o melhor logo em 1974, quando foi chefe de gabinete de Francisco Sá Carneiro, nos primeiros passos da revolução de Abril, ao lado de um outro saudoso amigo, o António Patrício Gouveia. Mas antes disso tinha uma longa militância cívica entre os católicos inconformistas do Centro Nacional de Cultura, de “O Tempo e o Modo”, da Livraria Morais e do grupo do António Alçada Baptista. E o certo é que conhecemos-lhe sempre a mesma coerência, que o levou a ser um dos subscritores do célebre documento dos 101 de 25 de outubro de 1965 no qual um grupo de católico denunciava o desrespeito dos direitos fundamentais e a ação discricionária da polícia política e da censura. É um texto a que deveremos regressar. Júlio Castro Caldas merece a lembrança de uma vida de defesa intransigente do bem comum, dos direitos humanos em nome da dignidade da pessoa humana.

 

Agostinho de Morais