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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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CADA ROCA COM SEU FUSO…

 

CLAIRE BRETÉCHER OU A BD NO CONSULTÓRIO DO DR. FREUD…

 

Nascida em Nantes em 1940, Claire Bretécher é na BD francesa um caso muito especial. Com vinte três anos encontra René Goscinny no auge da sua pujança criadora e o grande mestre, pai de Astérix ou do Petit Nicolas, viu em Claire a sua capacidade criadora, e o talento feminino, e criou a história hilariante a absurda “Le Facteur Rhésus”, que não corre bem. Mas em 1969 aparece no “Pilote” a personagem Cellulite. Está mais conforme com o estilo que Claire deseja para si. A partir daí o sucesso não parará. O traço que sempre apresentou era inconfundível. E era uma observadora mordaz dos hábitos e costumes da sociedade francesa. Roland Barthes classificá-la-ia como a “maior socióloga do ano” em 1976, Pierre Bourdieu referiu a força etnográfica de Agrippine, Umberto Eco não poupou elogios à originalidade desta artista singularíssima. Participa esporadicamente no “Spirou” e é fundadora de “L’Echo des Savanes” (1972) uma experiência inovadora na BD. Depois do feminismo avant-la-lettre vem a dimensão pioneira da ecologia. Mas nunca perde o sentido crítico e o distanciamento dos entusiasmos pueris. Trabalha no mensário “Le Sauvage” e cria para o “Nouvel Obs,” de Jean Daniel “Les Frustrés” (1973). Então torna-se uma celebridade europeia e mundial. Retrata cruelmente intelectuais, parisienses, militantes de esquerda, soixante-huitards retóricos, snobs seguros das suas convicções, mas cheios de nevroses patéticas… “Ela é o nosso contrapoder” dirá Jean Daniel. E tinha razão. A rir, punha tantas vezes a nu a fragilidade de algumas propostas salvíficas de outras páginas da revista. No princípio dos anos 80 tratará das angústias da maternidade e depois passará para o tema da adolescência com a inconfundível Agrippine (1988). Tudo isto acompanhado com grande sucesso nas tiragens, nas edições e no reconhecimento em Angoulême (1982), capital da BD francesa. Apesar de se tornar referência dos movimentos sociais do momento, Claire preservou sempre a sua independência crítica, sem compromissos militantes, para poder ver o lado ridículo de tudo, sem esquecer uma responsabilidade ética e cívica. Em 2015, finalmente, teve direito a uma exposição digna desse nome no Centro Pompidou, mas ainda faltam muitos trabalhos, muitas análises de uma obra significativa e surpreendente de uma grande desenhadora. Nos últimos anos preparava uma mostra de conjunto, que a doença e o desgosto da morte de Guy Carcassone, seu marido, impediram. Certamente que o público exigi-la-á em breve. Não me canso de voltar a folhear quarenta e cinco anos de uma fantástica produção… Claire Bretécher ainda deixou muito para pensar…

 

      

Agostinho de Morais

 

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