Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

CADA ROCA COM SEU FUSO…


MINUCIOSAS FORMIGAS, CIGARRAS GAITEIRAS…

«Minuciosa formiga
não tem que se lhe diga:
leva a sua palhinha
asinha, asinha.

Assim devera eu ser
e não esta cigarra
que se põe a cantar
e me deita a perder.

Assim devera eu ser:
de patinhas no chão,
formiguinha ao trabalho
e ao tostão.

Assim devera eu ser
se não fora não querer».

 

O poema de Alexandre O’Neill merece atenção especial, sobretudo neste momento em que o debate lusitano sobre a pandemia Covid-19 se torna uma grande encenação de passa-culpas. Como é hábito antigo, passamos rapidamente dos melhores do mundo para os piores. Do milagre para a maldição… Ora formigas, ora cigarras – e esquecemo-nos que somos, sempre fomos, as duas realidades como toda a gente. Felizmente! E razão tem o Alexandre O’Neill – “Assim devera eu ser / se não fora não querer”. Do que se trata? “Não fora não querer” significa não querer ser o melhor do mundo, porque ninguém o é. Olhemos com um pouco de atenção o que se passa com este traiçoeiro vírus? Toda a gente sabe que a situação que vivemos constitui um dilema difícil. Se ficássemos confinados, não resolveríamos o essencial. Partindo para o disparate desconfinado, também não. Talvez adiássemos por dias ou semanas o que inexoravelmente sofremos hoje. Mas um dilema é um dilema. A economia e a saúde pública obrigam a uma combinação de fatores. Não podemos ao mesmo tempo fazer avançar o negócio e contrariar o desemprego, sem redobrar o cuidado na saúde pública. Aqui bate o ponto. E é verdade que houve quem julgasse que por ser jovem ficaria incólume à doença. E também houve quem pensasse que a vacina estaria ao virar da esquina, e tudo se resolveria, sem dificuldades… Portanto, toca a andar… Mas sejamos muito práticos. De facto, fomos algo facilitadores, como quase sempre somos. O certo é que tínhamos de desconfinar, com as cautelas necessárias. E este é o nosso ponto! Temos dificuldade em planear e em prever ou prevenir. O que nos diz o poema imortalizado por Amália e agora lembrado por Adriana Calcanhoto é apenas isto – temos de cuidar dos exemplos das minuciosas formigas e das gaiteiras cigarras. Ou seja, temos de saber ser formigas gaiteiras e cigarras minuciosas. Que é a arte senão o sentimento e o cuidado? No meu livrito já aqui citado sobre o paradoxo de Zenão afirmo em dado passo: “todas as fábulas de Esopo, de Fedro ou de La Fontaine contêm um paradoxo. Elas são ao mesmo tempo lições morais e apelos à sabedoria suficiente para não seguir cegamente uma conclusão rígida. É a formiga um modelo de vida? Naturalmente que o não é. Mas pode ser. O mesmo para a cigarra. Esopo ensina-nos sim que a vida não pode esquecer o outro lado das coisas. Daí as representações pedagógicas do mundo às avessas. Poderia a formiga viver sem a música das cigarras? Poderia a cigarra viver sem o trabalho das formigas? Claro que não. Uma fábula é um paradoxo ilustrado. Temos sempre de a ver o direito e o avesso… Como num lenço de namorados, temos de saber que o direito é que dá a leitura, a qual não existiria se não houvesse avesso…  Pode a raposa viver sem o corvo? Pode o burro existir sem o leão? E tal como Zenão nos ensinou, a pura lógica não permitiria sequer que a cigarra e a formiga se encontrassem, e logo não haveria a lição paradoxal da cigarra laboriosa e da formiga cantadeira”… Eis por que razão o nosso saudoso Alexandre O’Neill tem toda a razão… Escrevo, entristecido, eu anglófilo empederrnido, ao ver Mr. Johnson, Boris, a reeditar os métodos da pérfida Albion, e as desconsiderações de John Bull, que conhecemos de ginjeira.  Agora vêm dizer que teríamos de ter sido ainda melhores para usufruir das benesses britânicas. E eis que dão motivos para as nossas lágrimas de crocodilo. Para mim, no entanto, tudo pode ser mais simples – se redobrarmos as cautelas e se soubermos ser boas formigas e melhores cigarras…

 

Agostinho de Morais