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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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CADA ROCA COM SEU FUSO…



JOSÉ GARCÊS (1928-2020)

Dos autores ainda em atividade, José Garcês era dos mais prolíferos ilustradores de Banda Desenhada em Portugal, sendo também reconhecido no estrangeiro. A 12 de outubro de 1946, a revista “O Mosquito” publicava a história “Inferno verde”, que assinala a estreia de José Garcês como ilustrador da imprensa infantojuvenil. Tinha então 18 anos, e frequentara a Escola António Arroio. Ao longo da vida o seu nome ficou associado sobretudo à função pedagógica da Banda Desenhada, com figuras e acontecimentos da História de Portugal, segundo um traço realista, feito integralmente à mão, com tinta-da-china e aguarela, sob a influência do norte-americano Harold Foster, célebre autor de “O Príncipe Valente”. Em virtude da ligação à feitura de Manuais escolares, designadamente na ASA, percorreu o país em visitas a escolas e em conversas com alunos e professores. Tratava-se de explicar os acontecimentos que retratava e de ligar a representação gráfica a essa experiência. Publicou entre outros, “A História de Portugal em BD”, “Bartolomeu Dias”, “Cristóvão Colombo”, “D. João V”, “História do Porto”, “História de Silves”, “História de Faro”, “Vida de Santo António de Lisboa” e “História do Jardim Zoológico”. “ A banda desenhada foi uma boa opção para ensinar, porque tinha imagens”, afirmou. Depois de “O Mosquito”, para o qual fez quatro narrativas, desenhou, entre outros, para a “Cavaleiro Andante”, “Modas e Bordados”, “Mundo de Aventuras” e também para as revistas “Camarada” e “Fagulha”.

 

Naquele tempo as histórias aos quadradinhos eram lidas sobretudo em revistas ou em continuados, e além de José Garcês trabalhavam José Ruy, Fernando Bento, Eduardo Teixeira Coelho, Jayme Cortez e Vítor Péon. “Não havia rivalidade, eramos todos amigos”, como afirmou o artista. No seu estirador criava incansavelmente, com canetas de aparo, lápis, rodeado de pastas com desenhos, livros de História, entre paredes forradas com memórias e um certificado da escola Voz do Operário, de 1940.

 

70 anos é uma carreira muito longa e rica, na qual não faltou o interesse pelo desenho de temas militares, pela criação de construções de montar em cartolina, desde o mosteiro da Batalha até uma série sobre castelos portugueses. Durante quarenta anos, José Garcês trabalhou no antigo Serviço Nacional de Meteorologia, onde desenhou as cartas de previsão meteorológica e chefiou o departamento de desenho. “Eu tenho consciência que fiz muita coisa, que prestei um serviço público ao país”, disse. Ao analisarmos a sua obra e ao encontrarmos o seu traço tributário da linha clara podemos dizer que José Garcês é uma referência fundamental da Banda Desenhada contemporânea, não apenas de entretenimento, mas com forte pendor educativo. O exemplo que apresentamos é retirado da História de Silves e nele fica patente quer o rigor artístico quer a preocupação motivadora dos estudantes, que a um tempo gozam da ligação estreita entre a arte e o conhecimento.


Agostinho de Morais