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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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CADA ROCA COM SEU FUSO…

 

JOHN LE CARRÉ, O ESPIÃO PERFEITO (1931-2020)


Pode dizer-se que o mestre dos romances de espionagem, se escreveu sobre o “crime quase perfeito”, foi de facto o “Espião Perfeito”. Porquê? Porque perfeito é completo e uma vez que não poderemos entender a Guerra Fria e o seu clima tenso e enigmático sem ler John le Carré, cujo nome de batismo era David John Moore Cornwell. Nasceu em Poole, Inglaterra, em 1931. Frequentou um colégio privado em Sherborne. Mudou-se para  Suíça aos 16 anos, onde se matriculou na Universidade de Berna, para estudar literatura moderna. Foi lá que, no final da década de 1940, foi recrutado para o MI-5 do Inteligent Service britânico por um amigo dos “serviços”, onde esteve de 1950 a 1964. Foi professor de francês e de alemão em Eton, o prestigiadíssimo colégio da elite britânica, numa altura em que começou a trabalhar efetivamente como agente secreto, o que lhe permitiria encontrar matéria de sobra para a sua escrita. Na Universidade de Oxford, para onde foi depois de estar em Berna, espiava possíveis simpatizantes soviéticos. O centro de operações onde trabalhou foi na Cruzon Street na capital britânica. Em 1960, mudou-se para a Alemanha, agindo com estatuto diplomático, o que lhe permitiu estar no fulcro dos acontecimentos da Guerra Fria. Era o tempo em que lhe estavam confiadas complexas tarefas, como fazer interrogatórios, realizar escutas telefónicas e dirigir agentes. Pôde, porém, apreender minuciosamente tudo o que era importante nessa tarefa. Foi então mordido pelo bicho literário, dedicando-se, a partir de 1964 exclusivamente ao romance, após o sucesso de O Espião que Saiu do Frio, saído a lume pela primeira vez em 1963 – “a melhor história de espionagem que jamais lera”, segundo o celebérrimo Graham Greene (seu colega no MI-6). Foi este livro — a sua terceira obra — que o lançou mundialmente. A obra foi aprovada pelos serviços secretos porque era “pura ficção do início ao fim” e, por isso, não representava riscos de segurança. Isto, ao contrário do que pensavam os críticos internos de Greene, que entendiam estar este sempre a pisar o risco quanto aos segredos que conhecia. Ainda assim, foi-lhe exigido que usasse um pseudónimo. Seguir-se-iam outras obras, como: O Alfaiate do Panamá, inspirado em O Nossos Agente em Havana de Graham Greene, Single & SingleO Fiel JardineiroAmigos até ao FimO Canto da Missão e Um Homem Muito Procurado. O agente George Smiley, tornou-se uma personagem célebre, ligando-se intimamente a Le Carré - “baixo e roliço, com óculos pesados e cabelo ralo (...), protótipo do solteirão falhado de meia-idade com um emprego sedentário”, segundo a descrição que dele faz uma velha amiga em Um Crime Quase Perfeito (1962), o segundo romance do escritor, depois de Chamada para a Morte (1961).O “The New York Times” recorda que John le Carré recusou sempre que os seus livros fossem inscritos para prémios literários. No entanto, muitos críticos consideraram que as suas obras são literatura de primeira água. Em Portugal, publicou um total de 25 obras desde 1969, por várias editoras (Edições 70, Europa-América, Presença, D. Quixote etc.)… Muitos dos seus livros foram adaptados para o cinema ou para a televisão: O Espião que saiu do Frio (com Richard Burton, óscar do melhor ator, filme realizado por Martin Ritt em 1965), A Gente de Smiley e A Toupeira, com Alec Guiness no papel de agente Smiley. Em 2016 surpreendeu ao publicar a autobiografia O Túnel de Pombos, onde evoca uma infância difícil: abandonado aos cinco anos pela mãe, com quem se reencontrou aos 21, dominado por um pai autoritário e mau carácter duvidoso, a certa altura preso por fraude. O seu último livro, Agente em Campo, foi publicado em 2019 e mostra Le Carré europeísta convicto e ativo opositor do “Brexit” , a olhar criticamente para a política britânica, bem como para a América de Trump e para a Rússia de Putin. É muito significativo que um autor arguto e inteligente como John Le Carré tenha preservado mesmo depois de 1989 e da queda do muro de Berlim a mesma lucidez sobre o curso de acontecimentos no mundo, em circunstâncias perigosas e incertas. Eis uma leitura essencialíssima, ainda por cima de um grande escritor…

 

Agostinho de Morais