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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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CALCORREANDO VILA FRESCA…

 

TU CÁ TU LÁ

COM O PATRIMÓNIO


Diário de Agosto * Número Extra 2

 

Calcorreando pachorrentamente por Vila Fresca, gozo este fim de Verão, em que os dias se alternam entre o calor e a brisa enevoada. Um velho amigo encontrou-me e, inesperadamente, perguntou-me pelo meu velho “carocha”. Surpreendeu-me a questão. Parece-me que inventaria antiguidades… Disse-lhe que estava de boa saúde, bem guardado e em funcionamento. É das coisas em que tenho mais orgulho, uma vez que é um original raro, com o óculo traseiro ainda dividido e com matrícula das séries antigas, que já poucos identificam, anterior a 1955, portanto identificável pelo número central. É um verdadeiro clássico, com um motor muito simples e fiável, apesar da dor de cabeça que sempre me deu a bateria, por ser muito fraca… Ligo-o sempre que posso e dou uma volta para gáudio de todos. E como quis preservar o original, mantive esse velho defeito de origem, ou seja, a bateria pindérica… No fim da guerra foram os ingleses que deram um impulso decisivo à popularidade desse pequeno automóvel. Hitler inventou-o, mas não lhe deu condições de persistência. E é mesmo de património cultural que falamos. Quantos de nós, da minha geração, pudemos gozar as vantagens desse carro modesto, mas de indiscutível qualidade… Devo, porém, dizer que é raríssimo o modelo que tenho de cor original preta… O meu amigo ficou contente por ter boas notícias desse caso mítico na história do automóvel, e combinámos, um dia destes, ir à minha garagem de Vila Nogueira, visitar e dialogar com o meu “carocha”, que faço questão de manter brunido e impecável, como nos tempos em que me foi vendido pela velha Guérin. Mas também esclareci que ao lado dele está um Morris 8 de 1948, igualmente como veio de origem, com uma vaquinha por símbolo. Esse era um carrinho nervoso, mas bom amigo, que me pregou sustos na serra de Sintra por causa dos travões, mas no qual aprendi sobretudo que o melhor auxiliar de um bom condutor é a caixa de velocidades, que me permitiu sempre sair-me bem (diabo seja surdo…) de várias atrapalhações. Abençoada caixa de três velocidades… Nestas crónicas, já vos falei das inesquecíveis jornadas das corridas de Monsanto, em que vi em carne e osso Stirling Moss, Jack Brabham, Jim Clark e o nosso Nicha Cabral. Já não vi cá Juan Manuel Fangio, que veio dois anos antes de eu ter ido a Montes Claros pela primeira vez. As corridas de automóveis eram fantásticas, sobretudo num tempo em que não podíamos ver as transmissões televisivas e tínhamos de ir aos locais para gozar o prazer do movimento e do ruído ensurdecedor das máquinas. Sim, o património cultural material e imaterial faz-se também de recordações da tecnologia, do desporto, dos heróis e das tragédias. . E ficámos os dois ali esquecidos do tempo, a recordar. Meu amigo lembrou-me ainda um primo meu e homónimo. Quantas recordações? E voltamos a falar do «joaninha» de outro familiar nosso, com que seguia a temporada espanhola dos touros. Onde estará esse Renault – dito joaninha? Na sucata por certo. Quanta coisa fica esquecida pelo caminho? E que importa? Conversa de velhos. E falar dessas coisas e pessoas é melhor do que nos atermos às maleitas e às doenças, que é o verdadeiro tédio. Despedimo-nos – Até ver!

E continuo a andar, pelas ruas de Vila Fresca sem destino certo. A andar para ir lembrando e para pensar com meus botões.

Já se notam os dias mais curtos. O sol desce no horizonte.

Como é bom percorrer as ruas e olhar em volta e gozar o tempo antigo da serra.

E dou-me de súbito a recitar intimamente.

Como gostaria de encontrar agora o meu amigo António.

E cito, cito sem hesitação:

 

ALDEIA DE IRMÃOS (de António Osório):

 

Ao pé dos eucaliptos,

Do lavadouro, as casas.

Capela fechada, oficiantes ratos,

E cães, patos, galos

Na rua e a dormir dentro,

Individuais, subreptício.

E doentes, cavadores, crianças

sonhando com ninhos destruídos.

Longe, na paróquia o cemitério.

Em torno vinhas, olivais,

Irmãos uns dos outros

Como tijolos dentro da parede.

E no Inverno o canto

Da lenha exorbitando na lareira,

A queimar, a queimar a cinza por debaixo.

  

Agostinho de Morais

 

 

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A rubrica TU CÁ TU LÁ COM O PATRIMÓNIO foi elaborada no âmbito do 
Ano Europeu do Património Cultural, que se celebra pela primeira vez em 2018
#europeforculture