Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

CARTA

 

Amigo João,

 

Fizeste-me pensar nesta questão a que chamas de ganas gigantes da escrita minha, e, se acaso eu der conta de uma resposta que a interprete, dirás tu, se sim.

 

Às vezes, muitas vezes? julgo que escrevo uma obra – permite que assim a chame - de tipo indefinido, assumindo a perigosa honra de a escrever como quem vive uma morte. Penso muito nisto e, se assim for, cabe aqui uma atitude febril que necessariamente vem do interior e mergulha em ruturas, horizontes, compreensões, triunfo de vontades radicais, denúncias, disciplinas indiscretas, nervosas mesmo, até que uma escrita paciente dá lugar à gigantesca impaciência da liberdade, àquela que sacode o jugo, aquele exato jugo que até transforma os pontos de vista de um mundo que se atreva a não ser igual ao mundo. Então aí, levanto-me da cama num ai que morro tão escrava se nada escrever que até a política e a história e os gnus da savana me recusam a essência de repelir os males remediáveis como se só me restasse entregar o homem ao homem ou eu a mim.

 

E escrevo, então e muitas vezes, mesmo doente, escrevo; mesmo agarrada a uma pátria sem território ou as lágrimas não se escoassem lá onde e aonde se não sabe.

 

Assim a hereditariedade da morte, essa safada e tranquila condição que não cauciona qualquer recusa ou não trocasse cigarros com a vida, transforma-se, para se proteger, numa palavra escrita, e assim materializa uma esperança como possibilidade humana, e essa possibilidade não é, nem nunca foi, colonizada, e, talvez por isso, surja na minha escrita com ganas de gigantesco ímpeto.

 

João que o grande perigo é julgarmo-nos no céu das ideias onde se perpetuam as relações de subordinação, e, não nos termos como temíveis imposturas urbi et orbi. Aceita-se a desigualdade real de todas as condições como se existisse um lugar onde o homem pode descansar da humanidade. Logo, a escrita que tem ganas de gigante talvez seja aquela que conhece ser mais humano o esconder do jogo do que a paisagem bucólica de muita da humanidade exposta.

 

E levanto-me de novo ou não tivesse ainda diante de mim uma mulher que morre e vive alvo permanente do atirador emboscado, e, sabendo-se presa, escreve sobre muitos assassinos potenciais, apenas passageiramente inaptos para lhe interromper o destino.

 

Enfim incapaz de se corrigir, eis algo que pode abraçar uma mão que escreve e que adquiriu uma mentalidade de amor e guerra, ambos, sabe-se, atiram mil tiros no preciso momento em que o relâmpago da evidência ilumina o conhecimento. E escreve-se uma e outra vez! E o olhar dos olhos não é modo itinerante, nem qualidade saída dos limbos se se não escrever mais claramente que talvez os acontecimentos não tenham acontecido o suficiente. Quais? Todos os que estão fora do sentimento de um violino, de uma palavra, de uma tinta, de um murro, de uma memória, enfim de tudo o que não conheça o jeito da pluralidade

 

E que saudade de uma gratidão fundamental e eu a merecesse.

 

Bj

Teresa a tua amiga  

 

Teresa Bracinha Vieira