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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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CARTA AO ANO VELHO

 

Fica onde estás ano velho ou não dominas tu agora tudo o que se passou e que sempre no tudo e à tua beira esteve o mesmo erro? Que mais queres que te leve para além da manta de brisa marítima confiada apenas aos que se vão e sobrevivem? Diz-me, que mais queres? A mim me tiveste e sou eu que saio de manhã ou tu que partes pela noite? Não sei. É teu jeito retomares o interrompido antes de partires para acrescentares novas dúvidas, e que pelas mãos dos homens e das mulheres elas cheguem ao novo ano pois que esse é teu desejo-força. E a que horas o fazes? Não perguntes. Diria que a nenhuma em especial. Foste fazendo enquanto te oferecias a ser vivido e isso é de uma importância vital e sem misericórdia igual à de quem colhe campos de algodão e se fere e se sangra e só assim se afirma lá num canto onde descobre o quanto se pode suportar.

 

Ano velho te digo que sempre eu mesma e meus vizinhos, reconfortantes, cruéis, reais conheceram o espinho que astuciosamente se escondeu entre nós, e, todavia a denúncia não teve lugar, ou o amor não fosse também género de ligadura que reclama cidade e reconhece cidadãos, guerras, mercados, escolas, notícias, versos e tudo o que se vai buscar para voar connosco. As fotografias? Claro que se intuem nos pratos, na comida, nalguma gaveta da mobília, nos credos e nos sermões, nos seios descobertos ao amor e nas razões e o que é a vida? As fotografias? ano velho? têm a maior e a menor das fés: acreditam-se num instante.

 

E sim, já me sentei pacientemente no banco de uma igreja escutando de ti um Evangelho e aceitando o papel de um homem que me deixou instruções antes de uma viagem. Em tudo, o passado nos impele, ano velho, e, precisamente da mesma maneira. Não sei o que ainda não experimentei ou o que está para vir, mas sei que isso será infalível e terá de ser suficiente.

 

Ninguém será esquecido.

 

Ano velho, de ti não soube a que hora é a eternidade, mas atenta que percorri os degraus de baixo devidamente, e, ainda subo, e conforme subo, lá bem no fundo reconheço um Nada enorme, e, a minha robusta alma a fazer-lhe frente ou, não soubesse que, ao ano novo que chega, não existe mesmo melhor modo de lhe dizer, aqui estou! e vou chamar-te canteiro, postigo, orla, prazo, légua, encontro, caminhante

tua

 

Teresa Bracinha Vieira

2018/2019