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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

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   Minha Princesa de mim:

 

   Parafraseando-me Hannah Arendt, sinto-me hoje magoado da banalidade da tentação totalitária. Acontece-me pensar que é tentação que todos  conhecemos, e cada um de nós já a terá sofrido, pelo menos, uma vez na vida. Mas aflige-me como ela se vem banalizando, quiçá por modos que não será difícil comparar com os que precederam outros momentos trágicos da história do ser humano. Há muito que venho reflectindo nos desamores presentes, em que as inseguranças se tornam desconfiança e medo, e o medo se transforma em ódio... Aliás, como sabes, fobós, em grego, significa o medo, e  essa fobia diz-nos muito da intimidade do medo com o horror e o ódio. E aí encontramos, bem funda, a raiz da tentação totalitária. Os actos terroristas, tão apregoados, são, para lá e antes de agressões e manifestações de ódio, provocações, apelos a que mais medo, horror e ódio surjam e tomem conta de nós. E a cegueira da fúria é sempre criminosa. Não nos deixemos, pois, cair nessa tentação, para não irmos a caminho de um barranco de cegos. Recorro, desde logo, para ilustrar, a meu ver, a origem da fobia, ao historiador das ideias que é Tzevetan Todorov, nascido, em 1939, em Sofia, capital da Bulgária: No decurso da minha infância e adolescência na Bulgária, país que então pertencia ao "bloco comunista", submetido portanto a um regime totalitário, a noção de "inimigo" era uma das mais necessárias e utilizadas. Permitia explicar o enorme desfasamento entre a sociedade ideal, onde deviam reinar a prosperidade e a felicidade, e a turva realidade em que estávamos mergulhados. Se as coisas não andavam tão bem como prometido, a culpa era dos inimigos. E, depois, refere que, além do inimigo de fora e de longe, o tal a que correspondia a ideia fixa de "imperialismo anglo-americano", sempre se ia apontando um inimigo próximo, identificado na vizinhança, na escola ou no local de trabalho, correndo este seriamente o risco de ser expulso desses locais e funções, ou metido na cadeia, ou enviado para um campo de "reeducação". Quem não fosse adepto activo da construção do socialismo era considerado adversário, e logo inimigo. E Todorov acrescenta: Ora, os inimigos só merecem uma sorte: a eliminação. Lenine recomendava, portanto, "eliminar sem mercê os inimigos da liberdade" e "conduzir uma guerra exterminadora sangrenta". O totalitarismo é um maniqueísmo que divide a população terrestre em duas subespécies mutuamente exclusivas, incarnando o bem e o mal... E observa ainda que a mesma rígida repartição se encontra nos teóricos do fascismo nazi, donde a mesma importância atribuída à noção de inimigo. E recorda então o jurista e pensador alemão Carl Schmitt (1888-1985), católico próximo do nacional socialismo, salientando que a convicção de Schmitt não se apoia numa análise histórica ou antropológica, mas sobre o dogma cristão do pecado original, ao qual adere por um acto de fé. Lembro que, para aquele, o princípio da política estava, precisamente, na distinção entre amigo e inimigo... Como na guerra de Espanha...

   [ Deixa-me abrir aqui parênteses, só para nos lembrarmos de que, por triste fobia, mais de 30% do eleitorado católico, em França votou, nestas regionais, pelo FN, tal como padres católicos, em Portugal, insistem em continuar a ostracizar a "esquerda" e a atribuir-lhe todos os pecados, como se as Escrituras ou a Igreja fossem necessariamente de "direita" ou do que eles entendem como tal...] Isto dito, aberto e fechado, alegremo-nos com o facto de 70% do eleitorado católico gaulês não ter votado FN, de grande parte do clero lusitano não considerar a sua Igreja necessariamente de "direita", e de haver tantos militantes de "esquerda" (incluindo do PC e BE) que declaram tencionar votar pelo professor Marcelo... Gaudeamus! pois tudo isso é liberdade, sem facciosismos nem inimigos preconceituosamente declarados. A possibilidade de realizar escolhas livres é certamente, face a qualquer forma de totalitarismo, a melhor alternativa. Aliás, Todorov aponta-nos um exemplo: Em vez de eliminar os inimigos, entreguemo-nos à tarefa de impedir actos hostis. Eis a lição do percurso desse combatente exemplar que foi Nelson Mandela: conseguiu derrotar um inimigo de peso, o sistema do apartheid, sem derramar uma gota de sangue, descobrindo nos seus inimigos potenciais um clarão de humanidade, por ter compreendido as razões da sua hostilidade, assim chegando a transformá-los em amigos. Em contraste, recorda-nos a atitude prevalecente nas potências ocidentais que proclamaram o princípio leninista da eliminação, sem misericórdia, dos inimigos, como no caso da 2ª guerra do Iraque, de tenebrosas consequências... E acaba por nos dar este sábio conselho: O uso da força, militar ou policial, deve ser sempre possível, um ataque iminente deve ser travado pelas armas. Mas acrescente-se a isso outra consequência: compreender o agente agressor pelo seu próprio ponto de vista torna-se o preâmbulo indispensável a qualquer luta contra ele. Porque por detrás dos actos físicos há sempre pensamentos e emoções sobre os quais também é possível agir. A hostilidade pode ser motivada por um sentimento de humilhação, por injustiça sofrida, por cólera ou por sonhos de poder, ou pode resultar da ignorância. Os inimigos são seres humanos, como nós. Para os neutralizar, nem sempre serão necessários bombardeamentos e mísseis, mas são certamente exigíveis coragem e perseverança. Hussein Abdul Hussein escreve no jornal electrónico árabe Now., de Beirute, depois de traçar um panorama do que tem sido a vida de sírios e iraquianos nas últimas décadas: Esses bandidos do Daech nasceram num mundo violento, sempre em guerra, só conheceram tirania e sanções, aprenderam a lição de que só a lei do mais forte prevalece. Será talvez tarde para salvar deles mesmos os principais dirigentes do EI. Mas para travar o Daech, o mundo devia agir sobre as condições que o criaram...   ... Aparentemente interminável, a guerra no Iraque e na Síria dá à luz, dia após dia, uma nova geração de Baghdadi, quiçá ainda mais frustrados e sanguinários. Deixando países como o Iraque e a Síria transformarem-se em selvas sem fé nem lei, o mundo contribuiu muito para a criação da monstruosa organização terrorista que é o Daech, da sua predecessora Al-Qaeda, e, sem dúvida, dos grupos que lhes sucederão. Assim, parece que só tratando as raízes do mal se poderá esperar cura ou, pelo menos, melhoras. Mas tal exigirá um enorme esforço internacional que, pelo que nos tem sido dado ver, não se afigura fácil entendimento, dadas as diferentes perspectivas e pretensões geoestratégicas, ressentimentos antigos e afrontamentos religiosos e ideológicos, que foram sendo fomentados e aproveitados em vários jogos de poder e influência. Dentro das próprias casas ocidentais, são já mais sensíveis as questões relativas acentuados desnivelamentos económicos e sociais, como as que se referem a novos conceitos e práticas acerca de institutos como a família e a adopção, ou ainda as que interrogam o funcionamento democrático. Concretamente, temos o exemplo do Patriot Act, aprovado pelo Congresso dos EUA, em 26 de Outubro de 2011, com a finalidade de reforçar a luta antiterrorista. Registo um comentário do professor Michel Rosenfeld, da Cardozo School of Law, de Nova Iorque: Esse texto introduziu grandes mudanças nas liberdades públicas dos cidadãos. Hoje, nos EUA, pode-se ser revistado na rua pela polícia, mesmo sem se ter cometido qualquer acto suspeito. Antes do 11 de Setembro, tal seria, em princípio, proibido. O país da liberdade é hoje um país onde temos cada vez menos liberdades, onde estamos cada vez mais obcecados pela segurança. Este clima parece ser bem aceite pela opinião pública. Creio todavia que houve exageros, como acontece sempre que um Estado dispõe de legitimidade para tomar esse tipo de medidas. Mas é difícil encontrar um equilíbrio. O terrorismo favorece um clima antidemocrático. O terrorismo, certamente, mas não só. Também a injustiça económica e social, a intolerância religiosa, e tantas outras formas de sevícia e humilhação. E mais grave ainda é a tendência de qualquer forma de exclusão ou de totalitarismo, não só para despertar e provocar outras, que se lhes oponham, como para serem, elas próprias, cada vez mais agudizadas. Venham de quem vierem, é sempre bom desconfiarmos de mensagens a preto e branco, sem matizes nem misericórdia, prontas à autovitimização dos seus autores, apontando o dedo ao inimigo, ou a cortarem cerce qualquer diálogo que lhes pareça relativista. Pois é facto que, num mundo composto de tantas e diferentes gentes, e de mudanças no tempo, tudo, estando em relação, é necessariamente relativo. Questão de respeito do outro, como Jesus ensinou, e tão bem, naqueles episódios com mulheres protagonistas, como a samaritana, a mulher adúltera, ou Marta e Maria, ou, ainda, o comovente noli me tangere... Se calhar, Princesa, muitos autores de sermões, em vez de falarem tanto em preservativos, deveriam referir-se mais a esses passos do evangelho. Yoram Schweitzer, especialista israelita em questões de terrorismo islâmico e segurança, responde assim a uma pergunta de jornalista de Le Monde  (" o discurso messiânico e apocalíptico da organização do Estado Islâmico é uma ideologia em que os homens acreditam, ou simples discurso de propaganda?") : Acreditam sinceramente nele. É essa ideologia que eles utilizam para preconizar e legitimar as suas acções de erradicação de minorias, de execução de apóstatas, inclusive de muçulmanos sunitas que se lhes oponham, mesmo membros da Frente Al-Nosra e filiados na Al-Qaeda. É simultaneamente uma crença e uma justificação do seu comportamento. E para explicar a atracção que o EI exerce sobre djihadistas que abandonam a Al-Qaeda, Schweitzer diz que Abu Bakr Al-Baghdadi se autoproclamou califa, novo líder da djihad global e representante do profeta na terra, quando, afinal, tinha sido despedido da Al-Qaeda e se tornara num pária. Fez uma aposta: "OK! Vou declarar-me califa e vender esse fantasma de um califado". Tirando vantagem do contexto regional, da fragilidade dos seus adversários, desenrascou-se para ganhar uma aura de êxito. Enriqueceu muito, apropriando-se de bancos, impondo tributos e multiplicando extorsões. Muitos o seguiram, pois parecia mais rico e prometia um futuro melhor. Dito isto, os principais grupos da Al-Qaeda mantiveram-se fiéis a esta. Ocorre-me, Princesa de mim, comparar esta história com a resposta de Sigmund Freud  --  que, não esqueças, era, desde 1925, membro do conselho de administração da Universidade de Jerusalém, mesmo morando em Viena  --  a Chaim Koffler, recusando o convite para participar no movimento sionista que pretendia criar o estado judeu de Israel. Escreve Freud: Não posso fazer o que deseja. A minha reticência em despertar interesse público pela minha personalidade é inultrapassável, e as críticas condições actuais não me incitam a isso. Quem quiser influenciar muita gente deve ter algo de sonante e entusiástico a dizer-lhes, e aí está o que o meu reservado juízo sobre o sionismo não me permite. Tenho certamente os melhores sentimentos de simpatia por esforços livremente consentidos, tenho orgulho na nossa universidade de Jerusalém e alegro-me com a prosperidade dos estabelecimentos dos nossos colonos. Mas, por outro lado, não creio que a Palestina possa alguma vez ser um estado judeu, nem que o mundo cristão, como o mundo islâmico, algum dia possam dispor-se a confiar os seus Lugares santos à guarda dos judeus. Ter-me-ia parecido mais avisado fundar uma pátria judia num solo sem carga histórica. Mas também é verdade, sei-o bem, que jamais se teria podido, para tão racional desígnio, suscitar a exaltação das massas, nem a cooperação dos ricos. Também concedo, com pena, que o fanatismo pouco realista dos nossos compatriotas, tem a sua parte de responsabilidade no despertar da desconfiança dos Árabes. Não posso sentir a menor simpatia por uma piedade mal interpretada que torna um pedaço de muro de Herodes numa relíquia nacional e, por causa dela, desafia os sentimentos dos habitantes desse país... Sabes bem, Princesa, como gosto de conversar, pelo que isso tem de leitura do mundo. E, sobretudo, por pensarsentir que a verdade é uma relação, até os filósofos escolásticos o percebiam... Tudo deve ser posto em perspectiva. E como cristão, profundamente, creio que a única perspectiva certa será, sempre e só, a partilha da paz, isso a que se chama amor. É impossível impô-la. Pretendê-lo resultaria na sua negação. Com a graça de Deus, devemos apenas ser corajosos e perseverar no convite. Para mim, nas cartas que te escrevo e em muito mais, acreditar sempre em desígnios racionais, e nesse clarão de humanidade que, como a chuva, Deus dispensa sobre justos e injustos. Estás a ver? Sou um tipo antiquado, um bota de elástico reacionário...

                                  Camilo Maria

     

Camilo Martins de Oliveira