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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

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    Minha Princesa de mim:

 

   Em carta antiga te falei do Orlando Furioso de Ludovico Ariosto, sem sequer me lembrar de que Giacomo Casanova - que se deliciava com os episódios amorosos e eróticos desse romance de cavalaria em poema  - punha tal livro na biblioteca pessoal de Pauline e dele se serviria para ambientar o período mais quente dos seus amores com a nobre portuguesa. Sobre essa obra do poeta quinhentista, remeto-te para a minha-tua carta de 29 de Junho de 2014, a pretexto de ópera de Vivaldi, e regresso aqui aos passos da Histoire de Ma Vie que contemplam o êxtase e o desenlace do romance que te vinha contando nas minhas duas últimas missivas. Continua em crescendo a narrativa de Casanova, depois do ponto em que a deixámos: Assim vivíamos, Pauline e eu, nunca nos separando, e ficando todos os dias mais enamorados, precisamente porque pretendíamos matar o nosso amor à fome. Mas, afinal, talvez fosse o amor a matar-me, porque eu emagrecia a olhos vistos, já não conseguia dormir, e se me acabava o apetite. Pauline, pelo contrário, engordava e ficava cada vez mais bonita. Dizia-lhe que, se o meu sofrimento servia para lhe aumentar os encantos, ela devia impedir a minha morte, porque um morto deixa de sofrer. Ela convenceu-me de que o meu enfezamento vinha, não do meu amor, mas da vida que passava em casa, sem nunca sair. Sugere-lhe ela então que vá dar um passeio a cavalo, e ele lá se decide. À despedida, conta ele, beijo-lhe a mão, pois ainda não tinha passado disso... Acidentalmente, Casanova cai do cavalo, é transportado para casa, o médico diagnostica-lhe uma entorse. Fica de cama. Entretanto, Pauline regressa de uma diligência que fora fazer, fica em alvoroço com a notícia, corre a vê-lo, empalidece, cai-lhe na cama.  - Minha querida amiga, isto não é nada, é só um entorse...  - Deus seja louvado! Senti o meu coração...  -- Sinto-o! Feliz queda!...   ...Colo os meus lábios aos dela, dá-se o duplo beijo, abençoo o entorse. Pauline ri.  -- De que vos rides?  -- Da manha do amor, que sempre manda em nós...   ...Até à minha partida viveremos juntos, como mulher e marido, e faremos a boda esta noite, ceando aqui, na vossa cama, já que o entorse e eu vos proibimos de sair dela. E jura a donzela que não quero sair dos vossos braços, senão quando chegar a carta fatal que me chamará de volta a Lisboa! Há oito dias que o meu coração não cessa de a temer. Não, já não desejo recebê-la. Pom! pom! pom! pom! Chegámos a esse momento que soa como os primeiros acordes da 5ª sinfonia do Beethoven... É o destino a bater à porta... Casanova é inultrapassável em poder de sedução, pelo menos no que toca a cativar o leitor, e a mantê-lo preso ao encantamento em que o seu relato encerra as suas personagens. Vê tu bem, Princesa, como a nobre donzela portuguesa lhe cai nos braços, ela própria Eva impelida, persuadida e persuasora, pelos versos de Ariosto: Como ela me falava em pé, convidei-a a cair-me nos braços, mas, estando aberta a porta, ela não quis e, para me acalmar, foi buscar o Ariosto e quis ler-me a aventura do Ricciardetto com Fiordispina, princesa de Espanha, que faz toda a beleza do vigésimo quinto canto do poema, que eu sabia de cor. Imaginava ser ela a princesa e ser eu Ricciardetto, e comprazia-se imaginando "che il ciel l´abbia concesso / Bradamante cangiata in miglior sesso"... E quando chegou à estrofe que diz "Le belle bracia al collo indi mi getta / e dolcemente stringe, e bacia in bocca: / tu puoi pensar se allora la saetta / dirizza Amor, se in mezzo´l cor mi tocca", quis uma glosa sobre a frase "baciar in bocca", e sobre o amor que nesse momento tornou rija a flecha de Ricciardetto. Fazendo-lhe então o comentário da acção, ela pareceu zangada por eu, de surpresa, a ter feito tocar na flecha; mas teve de rir-se quando chegou a estes dois versos: "Io il veggo, io il sento, e a pena verbo parmi: / sinto in maschio di femmina mutarmi". E a outros dois, da estância seguinte: "Così le dissi, e feci ch´ella stessa / trovò com man la veritade expressa". Admirava-se por Roma não ter proibido este poema, onde havia tantas "porcarias", mas desdisse-se quando a convenci de que as únicas coisas que merecem ser chamadas "porcarias" são as que nos desgostam. Ela achava Ariosto simpático por ter escolhido uma Espanhola, de preferência a mulher de outra nação, para lhe atribuir o gosto barroco que a levara a enamorar-se de Bradamante. Mas pensei que tinha chegado a minha vez, quando ela leu estes três versos: "Io senza scale in su la rocca salto, / e lo stendardo piantovi di botto, / e la nemica mia mi caccio sotto". Saltarei as ardentes narrativas dos momentos de volúpia erótica que se seguiram, e aproximar-me-ei do fim da história de Pauline. Antes, porém, volto ao Orlando Furioso do Ariosto. O episódio que Casanova refere  --  e que ele mesmo foi buscar, pois não creio que a real ou imaginária fidalga portuguesa o tivesse feito, tal como provavelmente não teria sequer o livro na sua biblioteca ambulante, nem eu vejo, Princesa, qualquer professor, mesmo um setecentista italiano, recomendar Ariosto num convento de freiras  --  surge no canto XXV daquele poema quinhentista, e, em português, reza e explica-se como segue. Ricciardetto, irmão da guerreira Bradamante, conta como só era possível distingui-los pelo sexo (ele homem, ela mulher) ou pelo cabelo (curto o dele, de longa trança o dela). Mas eis que, em batalha contra os mouros, Bradamante é ferida na cabeça, e o servo de Jesus que a trata tem de lhe cortar o cabelo. Assim, de guerreiro vestida, mas sem elmo e com cabelo curto, na floresta a descobre Fiordispina, filha de Marsílio, rei de Espanha, que por ali andava à caça. Sigo aqui a tradução do conto de Ricciardetto a Ruggiero que, do Ariosto, fez Margarida Periquito (Orlando Furioso, editora Cavalo de Ferro, Lisboa, Novembro de 2007): Encontrando minha irmã lá deitada, / coberta de armas, o rosto excepção, / que em vez de uma roca usava espada, / pensou de um cavaleiro ter visão. / Pela face e o ar viril tão encantada, / sente conquistado o seu coração; / convida-a para a caça e, sob fresca fronde, / longe dos outros com ela se esconde. / Tendo-a consigo em solitário choco, / onde não teme que alguém apareça, / com actos e palavras, pouco a pouco, / descobre o amor que o coração lhe empeça. / De olhos ardentes e um suspirar louco, / abre-lhe a alma de desejo possessa. / Ora pálida ora ruborizada, / um beijo por fim lhe rouba apressada. / A minha irmã percebera a verdade: / que ela  com outro a tinha confundido; / não podia contentar-lhe a vontade, / e num sarilho se tinha envolvido. "Mais vale (pensava) dar contrariedade / ao criado engano, tão descabido, / mostrando ser feminina e gentil, /  que deixar-me tomar por homem vil... E assim fará Bradamante que, de consciência tranquila, sossegadamente dorme nessa noite em que, deitada mesmo a seu lado, Fiordispina se debate com o desespero do desejo insatisfeito, e geme acordada ou sonha o impossível, como resumem os dois primeiros versos que Casanova cita: crê que o céu a seu desejo deu nexo, / Bradamante mudando em melhor sexo... O que, para efeitos práticos, acabará por acontecer mais tarde, quando Ricciardetto, agora tão parecido com sua irmã Bradamante, de cabelo curto, ao ponto de se confundirem para quem não lhes tocar o sexo, se faz passar por ela. E os versos, que Casanova a seguir recita, vai busca-los à estrofe 54: Ao meu pescoço os seus braços projecta, / a si me aperta e beija-me na boca. / Imagina como de Amor a seta, / com tal, meu coração em cheio toca. / Toma-me a mão, para o quarto me acarreta; / e ela sozinha (mais ninguém convoca) / do elmo às esporas as armas me tira; / não deixa que mais ninguém interfira... 

   Julga Fiordispina que, para a alcova, consigo arrasta Bradamante, pois não conhece Ricciardetto. E até parece que este, afinal, também entra no sonho, no gosto necessário da metamorfose, pois, como acima já lemos na referência de Casanova, ele(a) diz: Eu vejo, eu sinto e custo a acreditar: /  de mulher, para homem estou a mudar... Segue-se o gesto ousado de levar uma mão a sentir a rigidez do membro seta: Assim lhe disse, e fiz de modo que essa / achasse, com a mão, a verdade expressa... Tudo está preparado e pronto para o assalto final de Ricciardetto-Casanova a Fiordispina-Pauline. Acima já dito em três versos, aqui traduzidos em português: Sem escada sobre a fortaleza salto, / planto o estandarte de uma só estocada, / e deixo a inimiga subjugada! Ocorre-me, com algum riso, aquele exemplo de rimas, que nos ensinavam no liceu dos nossos velhos tempos: "Forte, fiel, façanhudo, / fazendo feitos famosos"... Nas memórias que escreve, Casanova é muito prosaico, conta factos e desenha emoções que teve ou que sentiu, designadamente, nas suas parceiras em amores diversos. No caso de Pauline, o sexo surge ambíguo e metafórico, é fatal, não só no sentido em que Georges Bataille definiu o erotismo (l´affirmation de la vie jusque dans la mort), mas sobretudo como vitória e conquista. Creio, Princesa, que o recurso a Ariosto é, subrepticiamente, a procura de uma expressão que lhe autorize a sua própria história: a posse de Pauline ganha contornos épicos, a convenção moral e religiosa, tal como a superioridade aristocrática, são derrotadas pelo ardor da carne e do desejo plebeu. Mas, depois de deixar bem claro que foi ele quem desflorou a nobre menina, Casanova não se torna gabarola, nem entretém descrições de intimidades pícaras, até parece render-se, transforma o vencedor na coisa vencida: Vendo nos meus braços a primeira beleza de Portugal, o único rebento de uma ilustre família, que a mim se entregara e todavia só por muito pouco tempo me pertenceria, contemplava Pauline, apoiado num cotovelo e submerso nessa triste reflexão.  -- Em que pensas, meu querido amigo?  -- Procuro convencer-me de que a minha felicidade não é um sonho. Se é realidade, quero morrer antes de te perder. Sou o afortunado a quem entregaste um bem inestimável, e de que me julgo indigno, apesar de te amar mais do que a mim mesmo. Bem mais do que amante, Pauline é uma aparição, a revelação de um amor até então insuspeito, outra dimensão da mulher, que o cinismo de Casanova, contudo, devia ter percebido em anteriores libertinagens: A minha querida Pauline era uma pensadora tão agarrada à sua religião, que nesta se ocupava muito mais do que eu. Nunca a teria descoberto assim, se não tivesse conseguido deitar-me com ela. Encontrei muitas mulheres feitas desta maneira: para gozar da sua alma é, primeiro, preciso começar por daná-las, e logo se ganha toda a confiança delas, e elas já não têm segredos para o felizardo que conseguiu conquistá-las. Por essa mesma razão, esse encantador sexo gosta do valente e abomina o cobarde, a menos que seja um favorito que as divirta, mas que, no fundo, desprezam, pois se o valente lhe bater elas riem-se. Após essa noite celestial, decidi não mais sair de casa enquanto Pauline permanecesse em Londres. O meu projecto agradou-lhe, e nunca mais me largou, a não ser para ir à missa nos dias santos. Fechei a porta a toda a gente... Curto será, todavia, o idílio: a carta convocatória chegará de Lisboa, com autorização do casamento de Pauline com o conde de AL..., e dinheiro para as despesas de confortável viagem. Perante a insistência de Casanova, conta o próprio, a portuguesa permite-lhe que a acompanhe a Calais, mas, quando ali pernoitam, ela exige que durmam em quartos separados. Se a história for verdadeira, parece que ela terá cedido, lá em Londres, à tentação de satisfazer desejos fisiológicos e de consolação emocional, mas sem perder de vista a independência necessária ao cumprimento do porvir que o seu estatuto reclamaria. Assim foi. E o veneziano levaria algum tempo a carpir tristezas e saudades. Mas, afinal, entre inúmeras paixões e incontáveis devaneios, dois amores menos levianamente o marcaram: A semelhança entre esta separação em Calais, e a que me trespassou a alma em Genebra, quinze anos antes, quando Henriette se foi embora, é impressionante, impressionante a semelhança dos caracteres dessas duas mulheres incomparáveis, uma se diferenciando da outra apenas pela beleza. Talvez fosse preciso isso para que eu ficasse tão perdidamente apaixonado pela segunda como estivera pela primeira. Ambas sábias, ambas dotadas de um espírito profundo, só por força da sua diferente educação era a primeira mais alegre, tinha mais talentos e menos preconceitos. Pauline tinha o nobre orgulho da sua nação, propensa à seriedade, e tinha a religião mais no coração do que no espírito. Para além disso, ultrapassava Henriette na tendência para o prazer de amar, e nos transportes que se seguem. Fui feliz com ambas, porque me encontraram rico, sem isso não teria conhecido nem uma nem outra. Esqueci-as. Mas quando as recordo, acho que foi mais forte a impressão que Henriette me fez, pela simples razão de que a minha alma era mais susceptível aos vinte e dois anos de idade do que aos trinta e sete. Mas, a julgar por outros passos da sua Histoire de Ma Vie, Casanova ainda planeou, mais de uma vez, ir a Portugal. Não o fez, por falta de notícias de Pauline. A ser verdadeira a história, foi ela que o deixou. E ele não soube explicar porque é que dessa vez, um seu amor não foi, simultânea ou sincopadamente, enorme e insignificante, extasiante e brejeiro... E quando, três décadas depois, terá revisto, velho já e em Dux, na Boémia, os seus apontamentos de memórias londrinas, esqueceu-se de conciliar dois passos do seu relato: aquele em que diz que, na noite primeira, com Pauline nos braços, se confundiram os nossos fogos e os seus gemidos me asseguraram de que os seus desejos eram mais vivos dos que os que eu sentia, e maiores as suas necessidades do que as minhas. O dever indispensável de gerir a sua honra me levou a parar um instante e a recolher num lenço as gloriosas marcas da sua virtude, de que eu acabava de triunfar ; e outro, esse em que, após a celestial noite, após o conflito amoroso, ela me pareceu um anjo incarnado: a sua tez, que a abstinência de um ano tinha empalidecido, tornara-se um vermelho de rosas, e o seu rosto ganhara um ar de satisfação e contentamento que os meus olhos não conseguiam deixar de admirar... E assim chego à suspensão final desta história: o Casanova, afinal, triunfou de uma virgindade quase inviolável, ou de uma abstinência necessitada de pronta satisfação? Que teria levado qualquer Pauline portuguesa e nobre a refugiar-se esporadicamente em Londres? Ao fechar o livro, penso que ele traça um retrato privado do século XVIII europeu, desse tempo de luzes, em que o Antigo Regime se fechou nas classes dominantes (clero, nobreza e burguesia), deixando o povo fora do palco da realidade e da ficção. O usufruto das ideias, dos sentimentos, como o gozo dos prazeres e o protagonismo dos conflitos do mundo, eram declaradamente privilégios da nata social. Nem sequer a Revolução Francesa, a encerrar o século, foi uma revolta popular.

                                                                                Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira

 

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