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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

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    Minha Princesa de mim:

 

   Aí por 1912, salvo erro (que nunca pode ser grande), veio-me à ideia escrever uns poemas de índole pagã. Esbocei umas cousas em verso irregular (não no estilo de Álvaro de Campos, mas num estilo de meia regularidade), e abandonei o caso. Esboçara-se-me, contudo, numa penumbra mal urdida, um vago retrato da pessoa que estava a fazer aquilo. (Tinha nascido, sem que eu soubesse, o Ricardo Reis. Assim conta Fernando Pessoa o surgimento do seu heterónimo médico, o mais velho de todos eles e de que o próprio ortónimo, pois este mesmo lhe marca o nascimento em 1887, um ano antes do próprio Pessoa, dois antes de Alberto Caeiro, três de Álvaro de Campos. Mas, apesar de ser o mais velho, nasce antes de ser poeta, é aliás o último dos quatro a assinar obra sua, em Junho de 1914, depois de Caeiro e Campos, em Março. O primeiro, o Mestre, será Alberto Caeiro: Acerquei-me de uma cómoda alta e, tomando um papel, comecei a escrever, de pé, como escrevo sempre que posso. E escrevi trinta e tantos poemas a fio, numa espécie de êxtase cuja natureza não conseguirei definir. Foi o dia triunfal da minha vida e nunca poderei ter outro assim. Abri com um título O Guardador de Rebanhos. E o que se seguiu foi o aparecimento de alguém em mim, a quem dei, desde logo, o nome de Alberto Caeiro... [Escrevia de pé, como o nosso Eça tanto gostava...]. Este Caeiro  --  que dizia que as coisas são o único sentido oculto das coisas  --  tem um não sei quê de zen. David Mourão Ferreira escreve, no prefácio da sua antologia cronológica de Fernando Pessoa, intitulada O Rosto e as Máscaras: Através de Alberto Caeiro, tratava-se, essencialmente, de recusar toda a metafísica ("Há metafísica bastante em não pensar em nada") e de cantar a natureza do modo mais objectivo, sem ver nas coisas senão o que as coisas aparentam. E observará ainda que, de qualquer modo, o certo é que Alberto Caeiro, com a sua complexa "simplicidade", virá influenciar, directamente, os dois outros heterónimos que, a seguir se impõem a Fernando Pessoa: Álvaro de Campos e Ricardo Reis. É este último que tenho relido em horas insones das minhas noites. Tranquiliza-me. Quiçá porque, como diz o próprio Pessoa, pus em Ricardo Reis toda a minha disciplina mental, vestida da música que lhe é própria... Ou talvez porque eu me sinta próximo de, ou confortado por, um Ricardo Reis que o David Mourão Ferreira vai cercando assim: sintetiza toda a sabedoria do passado, todo o património moral da tradição humanística: é o Horácio do nosso tempo. E da sua poesia dirá que ela recolhe, não sem desabusada ironia, o legado dos séculos, consistindo, antes de tudo o mais, numa decantada "arte de viver"...   ... Ricardo Reis não mais desejou que viver segundo o ensinamento de todas as culturas, sinteticamente recolhidas numa sabedoria que vem de longe e nem por isso deixa de ser pessoal... Dir-te-ei, Princesa de mim, que, no sentido em que a acarinho, a minha cultura é o ar que respiro, o ambiente que me deixa ser eu, na medida em que me vou identificando através do reconhecimento das paisagens que o meu espírito tem habitado. É lapidar a definição de Ortega y Gasset, que nunca me canso de repetir: eu sou eu e a minha circunstância. Afinal, o mesmo será afirmar "diz-me com quem andas, dir-te-ei quem és" ou que "pela casa se conhece o caracol". Penso ainda que, ao dizer "a minha Pátria é a língua portuguesa", Fernando Pessoa nos dá a morada da sua cultura, a casa onde habita e a que pertence. Tal como os seus heterónimos lhe pertencem, e ele lhes pertence: são imaginários de si em circunstâncias diversas da sua alma. E tudo isto  --  pessoa, casa, cultura, língua   --  se move, evolui como a Terra e expande como o Universo inteiro, "tomando sempre novas qualidades". Mas, todavia, permanece e ganha consistência e é, na sua própria mutação, um caminho de fidelidade. O imutável vai-se revelando pelo provisório, tal como os místicos encontram o absoluto no vazio de tudo...

   Gosto muito, em Ricardo Reis, da disciplina clássica do pensamento, do estilo, da própria sintaxe do verso:

 

          Ponho na altiva mente o fixo esforço

               Da altura, e à sorte deixo,

               E às suas leis, o verso;

          Que, quando é alto e régio o pensamento,

               Súbdita a frase o busca

               E o scravo ritmo o serve.

 

 

   E em horas nocturnas de aflição, saboreio outra lembrança dos dias:

 

          Neste dia em que os campos são de Apolo

          Verde colónia dominada a ouro,

          Seja como uma dança dentro de nós

               O sentirmos a vida.

 

          Não turbulenta, mas com os seus ritmos

          Que a nossa sensação como uma ninfa

          Acompanhe em cadências suas a

               Disciplina da dança...

 

          Ao fim do dia quando os campos forem

          Império conquistado pelas sombras

          Como uma legião que segue marcha

               Abdiquemos do dia,

 

          E na nossa memória coloquemos,

          Como um deus novo de uma nova terra

          Trazido, o que ficou em nós da calma 

               Do dia passageiro. 

 

   E vacino-me de cultura clássica contra as girândolas ruidosas das falsas alegrias:

 

          Não batas palmas diante da beleza.

          Não se sente a beleza demasiado.

               Saibamos como os deuses

               Sentir divinamente.

 

          Ao ver o belo, lembra-te que morre.

          E que a tristeza desse pensamento

               Torne elevada e calma

               A tua admiração.

 

          E se é estátua ou de Píndaro alta estrofe

          Em quem teus olhos são abandonados

               Não te esqueças de que essa

               Beleza não é viva.

 

          Sempre ao belo uma cousa há-de faltar

          Para que seja triste contemplá-lo

               E nunca se poder

               Bater palmas ao vê-lo...

 

          Calma é a beleza. Ama-a calmamente.

          Os dons dos deuses como um deus aceita

               E terás tua parte

               Do néctar dado aos calmos.

 

  

   E aqui estou, Princesa a quem já dise que "amo a transparência do teu olhar magoado", sem nada mais, nesta hora crepuscular, em que recito uma versão da ode IX de Ricardo Reis:

 

          Coroai-me de rosas!

          Coroai-me em verdade

               De rosas!

 

          Quero toda a vida

          Feita desta hora

               Breve.

 

          Coroai-me de rosas

          E de folhas de hera,   

               E basta!

 

   Eu ainda vivo e respiro uma cultura que ferve sempre, porque no âmago do seu fervilhar tudo continua, talvez mesmo o que parece esquecido. A brevidade é um elo.

 

                                                                        Camilo Maria

 

 

Camilo Martins de Oliveira

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