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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

Frei Bartolomeu dos Mártires

 

    Minha Princesa de mim:
 

   Lembrar-te-ás de muitas das vezes em que me tenho declarado anticlerical - apesar de ser católico "praticante" e ter bastantes amigos padres, frades e freiras - dizendo, aliás, porque o sou. E de, por tal, ter sido apontado como luterano, irritantemente herege ou coisa pior... Escrevi "praticante" (entre "), dando-lhe o sentido vulgar de frequentador das cerimónias religiosas, pois que, para mim, praticar (sem ") o cristianismo é, sobretudo e simplesmente, procurar cumprir o mandamento novo: amai-vos uns aos outros. Falando-te com franqueza chã, acrescentarei hoje que sou, cada vez mais serena e lucidamente, contra o clericalismo. Não me sabem bem, pela insistência passadista, que alguns atualmente professam, certos modos como a Igreja se foi por aí institucionalizando e afirmando, mais ao gosto de modelos profanos e mundanos, desde os que importou do Império Romano, aos padrões feudais e à organização de estruturas canónicas e administrativas próprias das monarquias do Antigo Regime. Tenho refletido nisso, já escrevi, e guardei (por enquanto) para mim, acerca do que talvez venha a chamar "Uma História Dual da Igreja". Porque me parece que, a par e comunicante com essa fachada e esse esqueleto clerical, sempre o Espírito Santo foi soprando sobre o Povo fiel de Deus, mantendo acesa a fé do Evangelho e suscitando movimentos de reforma, sempre marcados pelo espírito de pobreza e amor fraterno do mundo. Pessoalmente, fui mesmo muito recorrente a essas lições e modos da presença de Jesus Cristo entre os homens, em períodos de novos renascimentos do humanismo, e de viragem das idades históricas, que nos deram gente cheia da pobreza e do amor de Deus, como os mendicantes Francisco de Assis ou Domingos de Gusmão. São estes alguns dos "heróis" da minha "História", precisamente e apenas por essa graça de procurarem viver no meio e com o Povo de Deus, amando o mundo contra o mundano. Já noutras cartas te falei também da figura admirável de São Frei Bartolomeu dos Mártires, cuja Vida, por frei Luís de Sousa, sempre aconselho a ler, não só por considera-la edificante, mas pela beleza formal da língua portuguesa de frei Luís. Bartolomeu, Arcebispo de Braga e Padre Conciliar em Trento, homem que percorria as serranias do Barroso, correndo canseiras e perigos, para estar com os seus pobres diocesanos, que admoestou fraternamente o papa sobre o luxo das obras no Vaticano, e ainda pediu aos seus colegas conciliares que, antes de decretarem o celibato obrigatório para todos os padres, pensassem nos seus curas do Barroso, pobres, solitários e perdidos nas aldeias daquelas agrestes serranias... Mas não vou demorar-me a contar-te, espero que, se a publicar algum dia, benevolentemente leias a minha "História Dual". Passo agora à Lettera del Santo Padre al Presidente della Pontificia Commissione per l´America Latina, ontem, dia 26 de Abril de 2016, publicada no Bolletino, órgão de informação da Santa Sé à comunicação social. Nela, o papa Francisco insiste em relembrar as orientações, tantas vezes esquecidas ou escamoteadas, do Concílio Vaticano II, sobre o ser Igreja e renovar a sua pastoral. Dá, aliás, um exemplo factual do que quer exprimir esta sua mensagem, invocando  a América Latina, e referindo-se à "pastoral popular": Ha sido de los pocos espacios donde el Pueblo (incluyendo a sus pastores) e el Espíritu Santo se han podido encontrar sin el clericalismo que busca controlar e frenar la unción de Dios sobre los suyos. E, mais adiante, traduzo: Tomei este exemplo da pastoral popular como chave hermenêutica que nos pode ajudar a compreender melhor a ação que se gera quando o Santo Povo fiel de Deus reza e atua. Uma ação que não fica presa à esfera íntima da pessoa, mas que, pelo contrário, se transforma em cultura; uma cultura popular evangelizada contém valores de fé e de solidariedade que podem provocar o desenvolvimento de uma sociedade mais justa e crente, que possua uma sabedoria peculiar, que devemos reconhecer com um olhar agradecido [o sublinhado cita Vaticano II, EG 68].

 

   E não resisto a traduzir mais: O clericalismo, longe de fomentar as diversas contribuições e propostas, vai a pouco e pouco  apagando o fogo profético que toda a Igreja está vocacionada a testemunhar no coração dos seus povos. O clericalismo esquece-se de que a visibilidade e sacramentalidade da Igreja pertencem a todo o Povo de Deus, e não só a uns poucos eleitos e iluminados... ... Nunca é o pastor que diz aos leigos o que devem fazer ou dizer, porque eles sabem-no tanto ou melhor do que nós. Não é o pastor que tem de determinar o que devem dizer os fiéis em diferentes âmbitos. E diz mais ainda o papa Francisco: A nossa primeira e fundamental consagração mergulha as suas raízes no nosso batismo. Ninguém foi batizado padre ou bispo. Batizaram-nos leigos e é este o sinal indelével, que nunca ninguém poderá apagar. Faz-nos bem recordar que a Igreja não é uma elite de sacerdotes, consagrados, bispos, mas que todos formamos o Santo Povo fiel de Deus... ...Somos, como bem assinala o Concílio Vaticano II, o Povo de Deus, cuja identidade é a dignidade e a liberdade dos filhos de Deus, em cujos corações habita o Espírito Santo, como num templo. [Vat. II, LG 9]. O Santo Povo fiel de Deus está ungido com a graça do Espírito Santo; portanto, na hora de refletir, pensar, avaliar, discernir, devemos estar muito atentos a essa unção.

 

   O tal herege que me foram chamando nunca disse mais nem tão bem como isto. Caso para dizer  que não fui mais papista do  que o Papa. Fui-me lembrando sempre muito do frei Yves Congar, dominicano e teólogo da Igreja, que o Santo Ofício calou, sob Pio XII, durante uma década, e proibiu de ensinar. E esse homem -- que viria a ser um dos grandes teólogos do Vaticano II, e certamente de todo o século XX -- aceitou a sua pena, calou-se e fez os trabalhos de um converso (varrer, limpar escadas, etc.), no seu convento, durante uma década, sempre meditando e estudando, para finalmente ser escutado e registado pela Igreja conciliar e, finalmente, ser feito cardeal por João Paulo II. Donde agora está, possivelmente poderá ver as suas teses repetidas hoje por um papa que toda a gente entende. E que este leigo que hoje te escreve, Princesa de mim, tanto gosta de ouvir. Noutras cartas, Princesa, te citei já trechos de um livrinho do padre Congar, intitulado Pour une Église servante et pauvre (Le Cerf, Paris, 1963) que reúne estudos que o eclesiólogo apresentou a bispos conciliares de todo o mundo, em 1962, sobre questões como problemas de autoridade, o episcopado, a Igreja universal, debruçando-se sobre noções da hierarquia como serviço, ou das honrarias várias, em épocas diferentes copiadas, quer da liturgia secular e oficial do Império Romano, quer ainda dos rituais e símbolos de autoridade, já depois da queda de Roma, por exemplo, nos reinos francos e visigodos. No meu conceito de Igreja dual, verifico uma existência paralela -- que paradoxalmente, de modo nem sempre claro, ainda, para mim, é uma relação não necessariamente dialética, ou nem sempre -- dessas duas tendências: a da afirmação da autoridade clerical, com insistência em chamar-lhe magistério e doutrina da Igreja, de forte cariz jurisdicional, canónico, divulgada por símbolos do poder e do seu exercício, oriundos das sociedades políticas e suas hierarquias administrativas; e a da fidelidade à mensagem essencialmente evangélica de pobreza e fraternidade, de liberdade dos filhos de Deus. Por vezes tudo isso é bastante confuso e difícil de julgar. Porque, sendo verdade que, em demasiadas ocasiões, a Igreja clerical se deixou tentar -- e até cedeu -- pelo desejo de poder temporal, nem sempre as razões foram  semelhantes: por vezes foram agravantes, outras mais propriamente atenuantes de uma culpa menos evangélica. Aliás, mesmo a interpretação de passos dos evangelhos é variável, no seio da própria Igreja, conforme as épocas, as circunstâncias, o pregador: há quem mais insista no tudo o que atardes na terra... e quem mais sinta que o mais pequeno entre vós será o maior no Reino do Pai... Congar dá um exemplo: É no contexto da luta do papa contra o imperador Henrique IV  que se situa esta palavra de Gregório VII: Ecclesia non est ancilla sed domina (a Igreja não é serva, mas senhora): palavra que se deve compreender em relação com o contexto histórico (tratava-se de sacudir a tutela, quiçá o domínio, do poder temporal), mas que não deixa de atrapalhar, na medida em que representa, materialmente, o contrário do princípio evangélico: non dominari sed ministrare (não dominar, mas servir). [Essa palavra do papa Gregório VII consta de uma carta sua, de 3 de Setembro de 1076, aos bispos, duques e condes da Alemanha]

 

   Porque a Igreja que, todos os dias, por aí vemos em todos os seus fiéis é -- muito mais do que a instituição canónica e hierárquica que o clericalismo se compraz em sublinhar -- uma incarnação, na sua gente, do Corpo Místico invisível de Cristo. É, assim, natural que seja sempre ela e a sua circunstância... E, tal como o Corpo Místico incarna, a Igreja visível é circunstanciada... Assim, um católico é, sempre, um homem do seu tempo. Eis o grande exemplo do papa Francisco: usa calçado comum, reveste-se minimamente de símbolos e atavios de grandezas concebidas em tempos idos, come na cantina, abraça toda a gente, no meio em que estão, vestindo um hábito branco, que até vem do passado, de São Pio V, o papa da batalha de Lepanto (vê tu bem!) que era frade dominicano e, feito papa, não quis largar o hábito de mendicante para se revestir do luxo majestático das vestes atribuídas a "príncipes" e "sumos pontífices" da Igreja. Penso -- e já te lo disse, Princesa de mim, que o nosso presidente Marcelo também tem aprendido com este exemplo papal. Ainda bem! Porque é sempre bom encontrar quem está atento aos sinais dos tempos... Pessoalmente, nunca me incomodei com chamarem-me herege ou protestante. Até achei graça à piada. Mas nunca apreciei que me chamassem católico progressista. Porque não fui, nem sou. Também não sou conservador, no sentido de alguém que pretende ser desde sempre eterno um qualquer princípio que algures nasceu de uma localizável circunstância histórica e cultural, ou que é mera disposição canónica. Creio que sou, simplesmente, um homem de fé, alguém que procura -- sabendo que nem sempre, quiçá, o possa conseguir, pelo menos imediatamente -- traduzir uma resposta do Evangelho, no tempo e no modo de hoje. Sou cristão na minha circunstância. Nem de outro jeito o poderia ser. A fé, repito, é a substância das coisas que devemos esperar.

 

      Camilo Maria

  

Camilo Martins de Oliveira