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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

 

Hassan Khader

 

   Minha Princesa de mim:

 

   Cheguei ao fim da minha carta anterior a falar-te de noosfera e Teilhard de Chardin. Mas não era o que tinha para te dizer, nem é disso que te quero falar nesta carta. Tampouco irei repetir as minhas considerações acerca da consolidação de poderios financeiros concentrados, a nível mundial, não controlados politicamente, face oculta de um capitalismo que regula os nossos hábitos... Antes te vou referir, Princesa de mim, um artigo publicado no Shaffaf, centro de informação árabe que está na rede, em francês e inglês, com orientação independente. A tese do autor, Hassan Khader, é, em resumo, a seguinte: o terrorismo islâmico não resulta do ressentimento árabe contra o ocidente, antes é consequência do poderio petrolífero. Traduzo alguns trechos do artigo sobre o contágio do homem doente:

 

   Omar Mateen, o assassino de Orlando, que se reclama do Daesh, poderá trazer um número incalculável de votos ao candidato à presidência americana Donald Trump, mas também a candidatos da extrema-direita em vários países europeus. Assim, o Daesh contribui para remodelar o nosso mundo no sentido de inaudita selvajaria, sem fim à vista. E já sabemos que democracia e liberdade, tal como os conceitos de cidadania, igualdade e direitos humanos, adquiridos depois do inferno da 2ª Guerra Mundial, não são irrevogáveis. É certo que há mais de uma matriz do pensamento do Daesh, e podemos mesmo ir buscar as suas raízes a séculos atrás. Mas tal não nos fará desistir da resolução de dizer que o Daesh é, antes do mais, um problema árabe. É um produto do mundo árabe, desse mundo que se tornou no homem doente do nosso planeta. A sua doença afeta a Terra inteira. O fenómeno Daesh não pode ser compreendido se não levarmos em conta, e à cabeça, o súbito sentimento de poderio que os Árabes tiveram com os rendimentos do surto petrolífero (em meados dos anos 70), sentimento que tinham esquecido há séculos. A riqueza petrolífera foi uma viragem. Foi ela que pôs na ordem do dia deles o projeto de islamizar o mundo à força de biliões de dólares e com a colaboração de bancos, empresas, associações, reuniões e conferências, sempre com carácter transfronteiriço.

 

 

   Antes de regressar ao Shaffaf, deixa-me que te diga que tampouco podemos esquecer o ressentimento histórico, não só, nem tanto, o desgosto ou saudade dos passados impérios árabes e do otomano, mas sobretudo o que resulta das ocupações europeias de terras muçulmanas, no século XIX / XX, e, já no XXI, das agressões bélicas nelas movidas pelo Ocidente. Antes deste ter metido o nariz no Iraque, Afeganistão ou Síria, por exemplo, não havia ataques terroristas. Mas tal lembrança não invalida a tese de Hassan Khader que, depois de observar que não houve Daesh durante a guerra da Argélia, nem aquando da ocupação israelita de Jerusalém oriental ou da mesquita Al-Aqsa, nessa cidade, que tanto humilhou o Islão, conclui que isso se deveu a não ser ainda omnipotente o petróleo. Observa ainda como o projeto de islamização do mundo não se afirmou na sequência da derrota na Guerra dos Seis Dias (em 1967), mas depois da "vitória" árabe na guerra de outubro (Guerra do Kippour, em 1973). Os fatores determinantes foram a renúncia do Egipto ao seu papel de líder do mundo árabe, aceitando apenas um lugar secundário, a reboque da Arábia Saudita. E o artigo prossegue assim:

 

   Os iniciadores do projeto de islamização não tinham certamente previsto criar o Daesh tal como este nos aparece hoje. Por isso os seus financiadores e orientadores se viraram contra ele, tal como ele contra aqueles. Isto simplesmente confirma que qualquer projeto de engenharia política e social comporta riscos, a saber, pode escapar aos seus criadores...  

[...] Assim, se o Daesh é um dos resultados do projeto de islamização fomentado pelas monarquias do Golfo, também podemos refletir sobre as razões do seu êxito ideológico e a sua capacidade de recrutar e levar jovens, na flor da idade, a fazem-se explodir no meio de uma multidão. Há, primeiro, a ideia de que o Al-Qaeda e os talibãs derrotaram a União Soviética no Afeganistão (em 1989). Isso concorda com o mito do islão das origens, o tal que derrotou os impérios persa e bizantino. Esta parelha da ilusão afegã e do mito das origens vai inscrever os jiadistas numa história sagrada, que anda a par com a convicção de que se aproxima o fim dos tempos. É o carburante sentimental e simbólico que alimenta todos os movimentos messiânicos. Podemos também atribuir o surto do Daesh à teoria do investigador francês Olivier Roy, segundo a qual a nossa época está marcada pela «santa ignorância», a saber, religiões despojadas do seu contexto cultural e da sua história, conservando apenas uma fé divorciada da cultura.

 

 

Para consultares diretamente o Shaffaf, visita metransparent.com.

 

 

   Camilo Maria

 


Camilo Martins de Oliveira