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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

Fouad Ajami

 

   Minha Princesa de mim:

 

   A comissão de inquérito presidida por Sir John Chilcot produziu recentemente um relatório muito crítico sobre a guerra de invasão do Iraque em 2003, documento esse que provocou vários artigos igualmente críticos em jornais britânicos prestigiados, tais como The Independent, The Financial Times, The Guardian ou o New Statesman. Para te dar uma ideia de como vários sectores da opinião britânica que se revêm nestas publicações, continuamente reagem a uma decisão política cujas trágicas consequências hoje ainda sentimos, traduzo alguns textos respigados pelo Courrier International de 13 de Julho passado.

 

   The Independent será o que menos papas tem na língua:

Foi sempre claro que a eliminação de Saddam Hussein traria um vazio político e militar que seria preenchido por terroristas. Com a supressão impiedosa do seu ditador, era inevitável transformar-se o Iraque num atoleiro ingovernável, onde se desencadeariam ódios sectários, enquanto que um país vizinho, possuidor de armas nucleares, o Irão, se apressaria a intervir. E toda uma geração de jovens sem emprego e com formação militar teria de achar outra causa para defender. Assim fizeram, no seio de um movimento que se chama Daech. Eis o que deve pesar na consciência de todos os que apoiaram a guerra. Não apenas a morte de centenas de milhares de homens, mulheres e crianças inocentes - abominável consequência. Não apenas a rápida desintegração de uma sociedade e de um país que já eram vítimas de brutal opressão e que caíram na anarquia. Mas também o brusco e temível aumento de poder desses terroristas que hoje representam a mais grave ameaça à segurança do Ocidente.

 

   Penso, Princesa, que a proximidade temporal da publicação do relatório Chilcot com a vitória do BREXIT no referendo britânico terá inspirado, a outros jornalistas, os artigos donde destaco os trechos seguintes. The Guardian sublinha, em primeira página, uma frase escrita, em 2002, por Blair ao presidente Bush, revelada agora por aquele inquérito: Estarei consigo, aconteça o que acontecer. E comenta que tal declaração - feita sem que para tal houvesse um mandato da ONU e antes de qualquer autorização do parlamento britânico - conduzira ao terrível erro que conhecemos, fazendo ainda com que o comportamento do primeiro ministro tivesse alimentado a desconfiança do público britânico para com o seu governo (...) e que essa desconfiança por sua vez alimentasse o voto pro-Brexit. O New Statesman corrobora tal análise, escrevendo: Inúmeras causas do voto pro-Brexit - o ódio aos homens políticos tradicionais, a desconfiança para com as elites, o desejo de que o Reino Unido se desvincule do mundo - remontam à decisão de invadir o Iraque, há treze anos.

 

   Acontece-nos esquecermos que a intervenção, liderada pelos EUA, no Iraque, em 2003 - pretendendo justificar-se como resposta ao atentado de 11 de Setembro de 2001 - foi sobretudo motivada pela vontade de proteger e poder assegurar o abastecimento de petróleo proveniente daquela zona geográfica, sempre privilegiando, como aliada, a Arábia Saudita, o maior produtor, e inimigo declarado do Irão e do Iraque. Sobre o reino da dinastia Saud, o professor David Goldfisher, da universidade de Denver, publicou, no sítio Opendemocracy.net, em 2 de Março passado, um curioso artigo que, parafraseando o título do célebre romance de Robert Louis Stevenson sobre o Dr. Jekyll e Mr. Hyde (The Strange Case of Dr. Jekyll and Mr. Hyde, em português O Médico e o Monstro) nos fala do Estranho caso do Dr. Saud e Mr. Djihad. Traz-nos algumas interrogações...


   No momento em que os americanos se preparavam para a guerra, em resposta aos atentados de 11 de Setembro, o saudoso analista Fouad Ajami tinha emitido este aviso visionário: «Vamos ver muitos camaleões capazes de se apresentarem como amigos da América, mas do género de não estarem presentes quando forem precisos». Antes de atentar no Estranho caso do Dr. Saud e Mr. Djihad, registo esta previsão do Dr. Ajami, bem recordada por Goldfisher.

 

   Fouad Ajami, que trabalhou com a John Hopkins University e era membro da Hoover Institution, é considerado um dos mais influentes intelectuais árabes da sua geração. Nascido no Líbano, emigrou para os EUA, naturalizou-se americano e, como qualificado investigador da história e da geopolítica do Médio Oriente, foi consultor da Administração Bush, e pensava que o povo iraquiano acolheria a invasão e o derrube de Sadam como uma libertação. No ano da sua morte, aos 68 anos, em 2014, a Hoover Institution Press publicou a sua derradeira obra: The Struggle for Mastery in the Fertile Crescent. Trata aí de um dos seus temas recorrentes, tentando compreender o que se pode passar à volta da Mesopotâmia, ao longo da fronteira do Iraque com três Estados que, naquela zona, ocuparam o vazio de poder deixado pelo Ocidente: a Turquia, o Irão, a Arábia Saudita.

 

   Por hoje, Princesa, ficarei por este último, ou melhor, pelo estranho caso do Dr. Saud e do Dr. Djihad, tal como o narra David Goldfisher... O nosso protagonista, o Dr. Saud, reina sobre um território mais cheio de petróleo do que outro qualquer no mundo. É considerado amigo dos Estados Unidos, os quais esperam, como ele, que a sua imensa riqueza contribua para a paz e prosperidade dos dois povos. O Dr. Saud quer boa vida, e com gosto sucumbe às admiráveis atrações do Ocidente moderno. Também gosta do seu papel de guarda dos Lugares santos do islão. Mas malevolentes vizinhos sempre ameaçaram privá-lo desses prazeres: primeiro, os comunistas soviéticos, depois os aiatolas iranianos e, finalmente, Sadam Hussein.

Felizmente, os poderosos Estados Unidos tinham-se oferecido para montarem a guarda diante do seu reino: quando esses inimigos cobiçavam o petróleo do Dr. Saud, a América enviava a sua armada para o proteger. Algo todavia fazia pairar uma sombra sobre a vida aparentemente invejável do bom doutor: a sua encantadora personalidade dissimulava obsessões sombrias, difíceis de gerir. Estremecia de desgosto, de cada vez que pensava em xiitas, ou em judeus, ou em mulheres que guiam; ou na simples ideia de sociedades livres, pluralistas e tolerantes. Quando lhe vinha tal raiva, alucinações perturbavam os seus pensamentos: e logo se via, dominador, a derramar sangue e a pôr o Ocidente de joelhos.

Uma voz, ora sedutora, ora ameaçadora, sussurrava-lhe que os seus mortíferos instintos eram inspirados por Deus. O Dr. Saud sabia que seria incapaz de resistir totalmente a essa voz imperiosa, mas também tinha consciência de que ceder inteiramente a uma loucura mortífera o levaria à morte. Quando se compenetrou de tal dilema, o nosso homem procurou, e terá encontrado, uma solução maravilhosa: uma droga capaz de o transformar num «Mr. Djihad» bem distinto, graças ao qual se poderia entregar aos seus vícios, sem estragar a reputação e o saber viver que o mundo esperaria do Dr. Saud...

 

   Assim apresentada a metáfora que o mesmo Prof. Goldfisher considera pertinente a uma achega à história geoestratégica de que te falo, vou resumi-la. Segundo  o próprio, claro. E só em próxima carta, que esta já vai longa.

 

   Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira

 

 

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