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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

 

   Minha Princesa de mim:

 

   Continuando o que, em carta anterior, te vinha narrando:

   Escreve Goldfisher que a necessidade do desdobramento da personalidade do Dr. Saud se faz sentir em 1973, depois dessa encantadora personagem se ter solidarizado, mediante a prestação de ajuda financeira, com vizinhos países árabes que se tinham envolvido numa guerra contra Israel, o Estado judeu que também ele detestava. Só que não contara com o advento do apoio americano ao seu inimigo, a quem os EUA forneceram equipamento militar, de modo a evitar que Israel fosse aniquilado. Despeitado, o Dr. Saud  sonhou então com provocar o desabamento de todo o Ocidente, cortando-lhe o petróleo, numa altura em que se configurava a derrota americana no Vietnam e estalava o Watergate, momento portanto propício a uma humilhação da grande potência. Mas esta não se assustou e mandou uma armada pronta a arrasar a Arábia Saudita, caso o embargo não fosse levantado. Então, o Dr. Saud, não só deu consigo a declarar-se fiel aliado dos americanos, como se lembrou da droga capaz de o fazer desempenhar duas distintas personagens, com duas aparências físicas diferentes. Chamava-se tal droga «petrodollars», e ele possuía-a em grandes quantidades, posto que os governos ocidentais viam nele um amigo. Ao princípio, a poção parecia fazer maravilhas: permitia-lhe parecer cada vez mais ocidental, enquanto prosseguia na sombra os desígnios ignóbeis do Sr. Djihad. Mas a droga teve um efeito secundário imprevisto: quanto mais sucumbia aos encantos do Ocidente, tanto mais o Sr. Djihad ganhava força e  raiva. Numa noite de 1979, durante o sono, o Dr. Saud transformou-se involuntariamente em Sr. Djihad. Sob o nome de Al-Ikhwan («os irmãos»), este conseguiu apoderar-se da sua própria Mesquita Maior, em Meca, e anunciou que tinha expulso o Dr. Saud do reino! Quando o nosso homem, muito abalado, voltou a autocontrolar-se, optou por uma solução temporária: só voltaria a vestir a pele do Sr. Djihad fora do reino. Desta maneira, pensou ele, poderia continuar a encantar o Ocidente, sob a aparência de Dr. Saud, mas semeando o caos por todo o lado, enquanto Sr. Djihad...

   

   Acompanhando a saga, Goldfisher destaca alguns exemplos: o apoio da Arábia Saudita à Djihad afegã, contra os russos soviéticos, com a anuência dos americanos que aí viam apenas o propósito de expulsar os comunistas.

 

   Cita o conselheiro para a segurança dos EUA, Zbigniew Brzezinski: «O que é que contava mais, do ponto de vista da história mundial? Alguns muçulmanos excitados ou a libertação da Europa central e o fim da Guerra fria?». E sublinha como, satisfeitos com a ajuda desses muçulmanos exaltados, nem reparavam nos biliões gastos na construção e funcionamento de escolas e mesquitas, onde se ensinava e pregava o radicalismo islâmico e se incorporavam jovens, se financiavam e armavam guerrilhas, no Afeganistão, no Paquistão e alhures... Nem o 11 de Setembro conseguiu abrir-lhes os olhos para a união pessoal do Dr. Saud e do Sr. Djihad. E vai daí, esquecem-se de investigar os sauditas e vão invadir o vizinho Iraque, onde o Sr. Djihad não podia pôr sequer um pé!

 

   Esta história toda tem zonas sombrias, nem sempre é linear, nem clara. Tal como tem episódios de trapalhada e trafulhice. Mas é evidente que a invasão do Iraque foi um tiro no alvo errado. E parece ainda certo que parte importante do financiamento do terrorismo islâmico internacional provém de petrodólares sauditas, até para que o Dr. Saud possa exportar - e manter afastada do seu reino - uma ameaça. Mas dinheiro saudita, aliás, também apoiou os EUA em várias frentes, designadamente na luta anticomunista, tal como serve para adquirir armamento e financiar a respetiva indústria americana. Ao que consta, quinze dos dezanove reconhecidos terroristas do 11 de Setembro de 2001 eram sauditas, tal como o famigerado Bin Laden, cuja Al-Qaeda, todavia, também teria perpetrado os atentados em Riad, em 2003. Curiosamente, surgiu uma tese saudita, mais ou menos oficial, a culpar Teerão desses atentados. Estranha acusação essa, que aponta para um apoio iraniano e xiita a ações bélicas realizadas por uma organização de sauditas, ainda por cima sunitas bem conhecidos pelo ódio que têm aos seus  irmãos muçulmanos "heréticos"... Mas, afinal, quem foi, quem poderia ter sido?

 

   Parece-me, Princesa, que, além do mais, há muita intriga, conspirações de palácio e rivalidades de famílias e dinastias, lá pelos reinos arábicos do Golfo. São vidas principescas em sobressalto contínuo, nem seitas nem confissões religiosas as sossegam. Pensa, por exemplo, como se desconfiam entre si o reino saudita e o emirato do Qatar, ambos riquíssimos, cheios de petróleo, e ambos sunitas wahabitas... Tal como haverá muitos interesses estrangeiros envolvidos, públicos e privados, políticos e financeiros. O Lawrence da Arábia conhecia desses labirintos. Ele próprio também tinha um psiquismo complexo, que aliás se refletia na sua ação de espião, agitador e criador de circunstâncias e factos políticos e bélicos... Se fosse vivo, muito nos poderia ensinar sobre a atividade encapotada dos agentes das grandes potências, na produção de circunstâncias, factos e pretextos, bem com das eminências pardas que são os grandes interesses por detrás daquela. E até o Hergé situou o seu Tintin em cenários assim induzidos, desde a América latina (L´Oreille Cassée) à China (Le Lotus Bleu), passando pelo Médio Oriente (Au Pays de l´Or Noir). Os desequilíbrios terroristas não são só árabes, nem apenas islâmicos.

 

   Se o objetivo da História é alumiar um pouco o teatro das nossas sombras (Dominique Iogna-Prat, em Ordonner et exclure. Cluny et la société chrétienne face à l´hérésie, au judaïsme et à l´islam (1000-1150), Paris, Flammarion, 2000) recordarmos o longo período da afirmação e clímax do imperialismo europeu na África do Norte e no Médio Oriente (1860-1914-1939) talvez ela nos ajude a entender melhor muito do que hoje acontece. Por hoje, minha Princesa de mim, deixo-te só um trecho de Seven Pillars of Wisdom, do T. E. Lawrence (o da Arábia, o tal que pretendia ter formado uma nova nação, ter restaurado uma influência perdida): We could see a new factor was needed in the East, some power or race which would outweight the Turks in numbers, in output and in mental activity. No encouragement was given us from history to think that these qualities could be supplied ready-made from Europe... Alguns de nós julgaram que havia força suficiente e de sobra nos povos Árabes (a maior componente do velho Império Turco), uma prolífica aglomeração Semita, grande em pensamento religioso, razoavelmente industriosa, mercantil, política, ainda assim mais acomodante do que dominante em carácter...

   O poderio árabe foi o Ocidente que o suscitou.

 

        Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira

 

 

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