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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

   Minha Princesa de mim:

 

   Volto, repito, reitero, não me fico. Verifico que, ao longo de tantos anos (quatro décadas?) passados "fora", aí pelo mundo que não conhecia, por inconsciente razão fui olhando para Rembrandt. De muitos modos, de exposições a livros, com olhares diferentes e, todos, um mesmo olhar: este, o de querer ver... Terá sido por esse apelo, misterioso e tenaz, à transcendência de si, de nós mesmos  --  que as dezenas de autorretratos seus, pinturas, desenhos, gravuras, sempre perscrutantes, nunca narcísicos, incansavelmente nos gritam? Quiçá assim seja, já Van Gogh dizia que não se pode ver um Rembrandt sem acreditar em Deus... Ficou-me, fica-me sempre, calada no coração, esta impressão tão profunda de ser, mesmo eu, todos nós, uma casa de Deus. Até ouso dizer que Deus não existe sem o ser humano... Essência ontológica será o Ser enquanto ser... Mas existência, peço perdão, é mesmo existir, é estar aqui, é o Manuel, o Deus connosco. Aliás, a cena bíblica que, salvo erro meu - e muito me falha a memória, Princesa de mim! - Rembrandt mais pintou é a refeição partilhada pelo Cristo ressuscitado com os seus companheiros de caminho, em Emaús: o reconhecimento da presença de Deus pela partilha do pão. O cristianismo nada tem de feitiçaria, nem de ordens sacras. É, de modo divinamente simples, o sacramento do amor de Deus pelo amor dos homens. Antes de te contar cenas da convivência de Rembrandt com a sua Igreja e as de outros, incluindo judeus, deixa-me traduzir-te um trecho de Georges Bernanos: Ele amou como um homem, humanamente, a humilde herança do homem, a sua mesa, o seu pão, o seu vinho - os caminhos cinzentos e dourados depois das chuvas, as aldeias com seus fumos, as casinhas nas sebes de espinheiros, a paz da tarde que cai, e as crianças brincando à porta de casa... Tudo isso ele amou humanamente, à maneira de um homem, mas como nenhum outro amara nunca, nem amaria jamais. A ênfase de Bernanos, posta num francês tão tocante e bonito que nem sei como traduzi-lo, talvez se exagere: esse amor do Deus humano que nos habita, creio eu, qualquer de nós poderá pensarsenti-lo.     

  

Já te contei, Princesa de mim, que Rembrandt nasceu em Leyde, cidade universitária e calvinista, bastião da resistência ao domínio da Espanha católica. O pai do pintor convertera-se à Igreja Reformada de Calvino, a mãe talvez tenha permanecido fiel a Roma. Mas ele próprio era calvinista, claramente depois do seu casamento, em Amsterdam, com Saskia van Uylenburgh, que lhe deu quatro filhos, todos batizados na Igreja Reformada Holandesa, dos quais só um, Titus, chegou a adulto. Mesmo esse não sobreviveu ao pai, que enviuvara de Saskia, morta de tuberculose pouco depois do nascimento desse filho. Todavia, as relações do pintor com a puritana Igreja não foram pacíficas: escandalizava-a por viver em concubinagem (se voltasse a casar-se perderia o direito à herança de Saskia). Hendrickje, sua segunda companheira, foi excomungada por equiparação da sua concubinagem a prostituição, numa altura em que Rembrandt já não frequentava a igreja. Mas a casa em que vivia, na Rua Larga de Santo António (presumo que Antão), não só lhe dava vizinhança com católicos e protestantes, mas também com muitos judeus, designadamente sefarditas ibéricos, muitos deles portugueses que, aliás, ali perto construíram a Esnoga, a célebre sinagoga portuguesa de Amsterdam, onde, hoje ainda, a oração pela rainha é dita em português do século XVII: pela Rainha e a Madama sua Mãe, assim os ouvi rezar, no princípio dos anos 1970, quando por já andava em trabalho diplomático e, por ser português, me convidaram a assistir a um ofício. Ainda me lembro de alguns nomes portugueses que ali li, gravados em lápides tumulares e outras: Ribeiro, Osório, Pinto, Castro, Teixeira da Mota. Desta última família, recordo, um dos descendentes foi, há alguns anos, ministro dos Negócios Estrangeiros da Holanda...

 

   Vizinho próximo de Rembrandt foi o filósofo Bento (ou Baruch) Espinoza, judeu de Portugal, que, com o pintor, é das figuras mais gradas do Século de Ouro dos Países Baixos. E se as cenas bíblicas do Antigo e do Novo Testamento constituem temas para grande parte da obra pictórica de Rembrandt, muitos dos modelos que para elas pousaram foram judeus (e portugueses) daquele bairro, hoje, aliás, denominado Bairro Judeu. Além do diferendo com Daniel Pinto, que já te referi, Rembrandt teve, tanto quanto eu saiba, mais dois casos judiciais com judeus portugueses: um comerciante de arte chamado Samuel de Orta, e um destacado membro de rica família, Diego de Andrada. Neste caso, tratou-se da encomenda, ao pintor, do retrato de uma jovem familiar dos Andrada, quiçá hoje perdido, mas que alguns peritos identificam como a ainda existente, no Museu de Belas Artes de Montreal, Jovem Mulher, talvez retrato de Beatriz (Raquel) Nunes Henriques que contraiu matrimónio judaico, em Hamburgo, em 1654, com um Manuel Teixeira de Sampayo, de família com a qual os Andrada celebraram vários casamentos. Seriam também portugueses os modelos da famosa Noiva Judia? Não sabemos, como tampouco podemos afirmar se se trata de um retrato comemorativo, encomendado pelos próprios figurantes ou seu familiar, ou de uma cena bíblica (Isaac e Rebeca) com modelos contratados para o efeito.


Camilo Maria

Camilo Martins de Oliveira

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