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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

 

   Minha Princesa de mim:

 

   Françoise Morard comenta: O Evangelho segundo Maria, embora em nada seja uma narrativa da vida e morte de Jesus, deve ter recebido o título de Evangelho por transmitir uma mensagem emanada do Senhor. Pode inscrever-se na linha dos ensinamentos que Cristo ressuscitado dispensa, antes de se despedir, aos seus discípulos desamparados. Pela atualidade da promoção da figura de Santa Maria Madalena como nova "apóstola" celebrada na liturgia católica, deixo-te mais um apontamento da mesma perita: O ancoradouro deste texto encontra-se muito certamente no passo do Evangelho de João, em que Maria de Magdala anuncia aos discípulos: «Vi o Senhor e eis o que ele me disse» (João 20, 18). O privilégio da visão concedida por Jesus àquela que ele amava mais do que aos outros discípulos, homens ou mulheres (10, 2-3 e 18, 14-15) ganha aqui uma importância especial: dá a Maria o conhecimento perfeito que lhe permite, não só ela própria entrar no mistério, mas ainda, iluminando-o, nele introduzir os demais. Este papel da Magdalena, da qual, com o decurso dos tempos, só se recordam as lágrimas e a conversão, foi objeto de numerosos comentários e menções nos primeiros séculos da nossa era. E já vamos perceber porquê. Só te peço que, depois de mais um comentário de Morard, leias a tradução que aqui te faço dos passos finais do Evangelho segundo Maria. Verás que o gnosticismo andou bem presente pelas primitivas comunidades ou igrejas cristãs, compreenderás como o próprio São Paulo tinha a sua costela gnóstica, penso eu, e como se impuseram os cânones à tradição inicial da teologia cristã.

 

   Antes, contudo, recordo o que te escrevi numa ou duas das cartas sobre a figura do pai, no Regresso do Filho Pródigo, do Rembrandt: duas mãos abraçam o pródigo, uma masculina, outra feminina. Assim se imagina Deus pai e mãe, e regressa o filho ao lar da unidade. Sobre a cena, e no interior dela, dos seus figurantes, reina um misterioso silêncio, misericordioso e íntimo. Num estudo publicado em Apocrypha (12, 2012), a citada investigadora já se debruçava sobre a inspiração ascética dos gnósticos. E, no comentário que seguimos: Este mesmo tema da reunificação do Homem, macho e fêmea, encontra-se também em textos gnósticos do século II, tais como "A Exegese da Alma". Mas é também testemunhado por vários escritos cristãos dos primeiros séculos: o "Evangelho dos Egípcios", a "Segunda Epístola de Clemente de Roma", ou ainda, e especialmente, no "Evangelho Segundo São Tomé". Antes desta chamada de atenção, Françoise Morard já insistira no carácter particular da mensagem do apócrifo (e, creio, gnóstico) Evangelho segundo Maria. Quando leres a transcrição do trecho final, que te traduzirei, perceberás melhor o que a investigadora quis dizer, em abono da sua tese de que se trata de uma exortação ascética, ao escrever: Na verdade, diante da perturbação e angústia dos discípulos desamparados perante a partida de Jesus e a tarefa que lhes confiou, Maria lembra-lhes o que, aos olhos dela, é essencial no dom concedido aos seus fiéis pelo Cristo ressuscitado: a graça de um ser inteiramente renovado nele e à sua imagem, doravante neles restaurada pela salvação: «Ele uniu-nos, tornou-nos Homem». Este tema da reunificação do composto humano, feito de um elemento fêmea, a alma, e dum elemento macho, o intelecto, está presente na especulação hermética grega do Poimandrés [o dragão da sabedoria]. Nesse tratado, na verdade, o homem, gerado pelo Nous-Pai, que é simultaneamente macho e fêmea, encontra-se imerso na matéria, onde é duplo: mortal quanto ao corpo, dependente dos quatro elementos primordiais, imortal quanto ao Homem essencial, nele tornado alma e intelecto. Além disso, padece da divisão de todos os seres em machos e fêmeas. Está contudo prometido a um destino eterno, na medida em que, conhecendo-se como imortal, procura o Bem superabundante que é vida e luz. O seu destino futuro depende, pois, da qualidade da sua vida cá em baixo e do seu conhecimento pelo Nous [intelecto]. Quando morrer, o seu corpo está votado à dissolução. A alma, em contrapartida, ascenderá através das esferas e abandonará, como vestidos, as paixões de que se tinha revestido ao descer à terra. Entra então em Deus e torna-se Deus, «Ele que só o silêncio pode nomear».

 

   Eis, por outras palavras, a experiência ascética e mística que Madalena relata no seu testemunho da visão de Cristo ressuscitado, depois de Pedro lhe implorar: «Irmã, nós sabemos que o Salvador te amava mais do que a qualquer outra mulher. Diz-nos pois as palavras do Salvador de que te lembrares, essas que conheces e nós não conhecemos nem ouvimos.» Segue-se, ao testemunho de Maria, o seu silêncio. André toma então a palavra e diz a seus irmãos: «Dizei o que pensais a respeito do que ela acaba de afirmar. Quanto a mim, não acredito que o Salvador tenha dito isso. Estes ensinamentos, na realidade, parecem-me derivar de um pensamento diferente». Pedro tomou a palavra e exprimiu-se sobre questões da mesma ordem; interrogou-os acerca do Salvador: «Poderá ele ter conversado secretamente com uma mulher, à nossa revelia e sem ser abertamente, a tal ponto que devamos dar a volta e obedecer-lhe todos, a ela? Tê-la-á ele escolhido, de preferência a nós?» Então, Maria chorou e disse a Pedro: «Pedro, meu irmão, que estás tu a pensar? Pensas que tive, por mim só, tais pensamentos no meu coração, ou que esteja a mentir a respeito do Salvador?» Levi tomou então a palavra e disse a Pedro: «Pedro, foste desde sempre propenso à cólera, e vejo-te agora discutir com a mulher como se fosse um adversário. Todavia, se o Salvador a tornou digna, quem és tu para a rejeitar? Com certeza que o Senhor a conhece bem, por isso a amou mais do que a nós. É melhor termos vergonha, revestirmo-nos do Homem perfeito, fazê-lo nosso como ele nos ordenou, proclamarmos o Evangelho sem impor outra regra nem outra lei além da que o que o Salvador nos prescreveu.» Depois destas palavras de Levi, eles fizeram-se à estrada, para anunciarem e proclamarem

                                                                 O Evangelho segundo Maria

  

   Assim termina o texto e surge o título. Datado, como te disse, de meados do século II, esse texto reflete, provavelmente, quer a inquietação nascente do que se tornaria numa corrente herética, mas não só, do pensamento e da sensibilidade cristã - o gnosticismo conheceu muitas formas e veredas, e a sua atração perdurou e foi seiva que alimentou, entre outros, o movimento dito cátaro na média idade europeia - quer a eterna questão do lugar das mulheres na Igreja... E da própria natureza delas, aos olhos do Deus cristão, realidade também muito sensível nas comunidades de Bons Homens e Boas Mulheres, só no século XIX apelidados de cátaros.

 

   Mas disso - como da cabeça degolada de São João Baptista, Templários e fantasias circundantes, te falarei em próximas cartas.

 

   Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira

 

 

 

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