Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

   Minha Princesa de mim:

 

    No seu sermão, frei Tiago Voragino irá contar, ao gosto do seu tempo, uma vida de Santa Madalena. Começa por lhe dar família certa, de sangue real, pai chamado Siro, mãe Eucária, irmão Lázaro, irmã Marta. A família de Betânia, de que todavia não constam, no Novo Testamento, os nomes dos progenitores aqui mencionados. Maria é Madalena, porque, da herança paterna, lhe calhou o castelo de Magdala. Dá para filme do Walt Disney, é imaginário, mas sem as presunções e pretensões pseudocientíficas de um Dan Brown, ou qualquer dos seus indigentes seguidores. O arcebispo de Génova, contudo, não poupa nos retratos pessoais: Lázaro dedicava-se sobretudo a empresas militares, Marta administrava com cuidado os bens de sua irmã e seu irmão, e ainda conseguia prover com o necessário os soldados, os servos e os pobres; quanto a Maria, essa não se inibia da entrega desenfreada aos prazeres dos sentidos.

 

   Passo a traduzir: Mas como Madalena usufruía de riquezas, e a volúpia é companheira da abundância de bens, quanto mais ela brilhava pelas suas riqueza e beleza, tanto mais abandonava o próprio corpo à volúpia; e até perdera o próprio nome para somente responder ao de pecadora. Ora, quando Cristo pregava ali e alhures, Madalena, inspirada pela vontade de Deus, apressou-se para a casa de Simão o leproso, onde, ouvira dizer, Cristo fora convidado a jantar; mas não ousando, enquanto pecadora, misturar-se à companhia dos justos, deixou-se ficar atrás, aos pés do Senhor, que lavou com as suas lágrimas, enxugou com o cabelo e cobriu de precioso unguento [...] E quando Simão dizia para consigo que, se Jesus fosse um profeta, não deixaria que uma pecadora lhe tocasse, o Senhor repreendeu-o pelo orgulhoso juízo e absolveu a mulher de todos os seus pecados. Tal é portanto essa Maria Madalena, a quem o Senhor concedeu tão grandes benefícios e a quem deu tantas marcas de afeto. Pois expulsou sete demónios do corpo dela, abrasou-a totalmente de amor por ele, fez dela a sua amiga preferida e hospedeira; quis que fosse ela a ter cuidado dele em seu caminho, e defendeu-a com doçura em todas as circunstâncias. Na verdade, justificou-a diante do fariseu que a dizia impura, de sua irmã que a chamava preguiçosa, junto de Judas, que a acusava de prodigalidade. Vendo as lágrimas dela, não pôde reter as suas. Graças ao seu amor, ressuscitou-lhe o irmão ao fim de quatro dias; em nome do seu afeto, libertou a sua irmã Marta de um fluxo de sangue que há sete anos a afligia; e graças aos seus méritos, Marcela, a serva de sua irmã, foi digna de pronunciar essa palavra tão doce e cheia de felicidade: «Bendito o ventre que te pariu!»

 

   Terás notado, Princesa, que se confundem, propositadamente, aqui, vários passos dos evangelhos: Mateus, 26, 6-7; Marcos, 14, 3 e 16, 9; Lucas, 7, 37-50 e 8, 2 e 10, 38-42 e 11, 27; João, 11, 1-44 e 12, 3-8.

 

   Frei Tiago era, certamente, grande devoto da santa - a quem dedica um dos mais longos capítulos da Legenda - esta sendo uma figura maior da hagiografia medieval, sobretudo na Igreja latina ocidental que aceitou a figura das três Marias numa, forjada por Tertuliano, reconhecida pelo papa Gregório Magno. Na Igreja oriental, greco-bizantina, manteve-se a distinção das três mulheres referidas. No Ocidente, todavia, a devoção popular, e o pertinente culto, juntou ainda, às três Marias evangélicas, a figura de outra pecadora: Maria Egipcíaca, personagem que não escapou ao nosso querido António Alçada Baptista. E que, com o nome de Thaïs, é heroína de uma novela de Anatole France e da ópera de Jules Massenet, nele inspirada e com o mesmo título. Cortesã, é convertida por um santo cenobita e acaba por viver no deserto, em oração e penitência. Frei Tiago também põe a Madalena a viver trinta anos num deserto (algures, no Midi da França?), antes de ser arrebatada ao céu por um bando de anjos... Mas a ópera acaba, na versão que tenho cá em casa, com a morte de Thaïs-Renée Fleming a cantar Ah! Le ciel! Je vois... Dieu! e o monge Athanaël-Thomas Hampton exclamando Morte! Pitié!, pois se tinham, entretanto, invertido os papéis, e o pobre cenobita quedara-se enfeitiçado pelos encantos da mulher...

 

   Como acontecerá com a cabeça degolada de João Baptista - assunto para próxima carta - a veneração de Madalena reclamar-se-á da presença corporal da santa, ou das suas relíquias, em variadas paragens, desde Éfeso, na Turquia atual, donde a terá expulso o ódio dos judeus, até Constantinopla e Jerusalém, passando, e demorando-se, por diversas localidades do sul de Itália e, sobretudo, de França: Vézelay, num caminho de São Tiago de Compostela, Marselha, Saint Maximin da Provença... Aqui, conta uma crónica, a descoberta, em 1279-1280 (12 de Dezembro de 1279?), por Carlos d´Anjou, do sarcófago da santa numa capela funerária paleocristã levou à construção de uma basílica, confiada aos dominicanos, e a um surto do respetivo culto, tornando-se aquele convento um destino de popular peregrinação provençal. Ainda hoje dura, apesar de Éfeso, Jerusalém ou Vézelay reclamarem também para si o repouso final do corpo de Maria Madalena...

 

   Pensossinto agora, minha Princesa de mim, como nos é tão familiar - aceitável, direi, corretamente proposto e edificante - o tema da mulher pecadora que se redime. Recordo a Traviata, poderia lembrar a Butterfly, há sempre maneira de invocar a culpa da mulher e o sacrifício dela... Quiçá por isso, eu, que não sou devoto, talvez compreenda a primazia dada a Santa Maria Madalena, mulher insigne no panteão de tantos homens - muitos clérigos - sempre santos... Será a misoginia uma mancha indelével no cristianismo? A mulher, se não for a Imaculada Conceição - a Virgem Maria nascida sem pecado original - lembra sempre o pecado, logo desde o original...

 

   Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira