Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

     Minha Princesa de mim:

 

   Pensa que, ao tempo de frei Tiago Voragino, não havia internet nem wikipédias, nem sequer livros ou jornais impressos... Os manuscritos existentes, com mais ou menos iluminuras, eram pacientemente copiados em mosteiros, conventos e cabidos, e a respetiva consulta fazia-se in loco. Tal circunstância tornava demorada e laboriosa a tarefa a que hoje chamamos consulta bibliográfica. Assim, é tanto mais espantoso o rol de fontes informativas e citações constantes da Legenda Aurea, redigida por volta de 1275. Só para um dos três sermões que o Voragino escreveu sobre o Baptista - este, que tenho à frente, sobre a degolação do Percursor - o seu autor recorreu às fontes seguintes: Mitrale, de Sicardo de Cremona; História Escolástica, de Pierre le Mangeur; Libri Antiquitatum, de Flávio José; Commentarium in Mattaehum, de Hraban Maur; Sermões, de Sto. Agostinho; Commentarii in epistulas Paulinas, de São Jerónimo; Historia Eclesiástica, de Rufino; Historia Tripartida, de Cassiodoro; Historia Eclesiástica, de Eusébio de Cesareia; Summa, de Beleth; Crónica, de Sigisberto de Gembloux; In gloria martyrum, de Gregório de Tours; Historia dos Lombardos, de Paulo Diácono; Diálogos, de Gregório Magno. É claro que também textos desses encerram lendas e boatos e veiculam mais tradições e contos do que verificações históricas. Mas não deixam, por isso, de retratar universos mentais, referências de crenças e devoções, tradicionais e coevas. Voragino, aliás, recebe umas melhor do que outras, aqui e ali até emite críticas ou dúvidas. Faz trabalho sério.

 

   As festas a cuja celebração se refere - todas à volta da degolação ou decapitação de São João Baptista - eram, ao tempo, quatro, conforme estabelecido no Ofício Mitral de Sicardo de Cremona: a primeira, ainda hoje celebrada a 29 de Agosto, é a do próprio martírio; a segunda é a da cremação e dispersão dos ossos do santo; a terceira celebra a invenção ou descoberta da cabeça decapitada (hoje celebrada com a primeira); a quarta tem a ver com a translação do dedo e a dedicação da igreja que lhe foi consagrada por Santa Tecla. Levo-te à festa da descoberta da cabeça, de que já te falara em cartas anteriores, precisamente por ser a que refere a mesma que nos foi lembrada, na charola do Convento de Cristo em Tomar, esculpida no topo de um capitel. Traduzo-te passos do texto do Voragino:

 

   Em terceiro lugar, comemora-se em razão da Invenção da sua cabeça. Porque diz-se que foi nesse dia que a encontraram. [cf. relato da audiência de Bento XVI em 29 de Agosto de 2012, em Castel Gandolfo] Segundo o livro XI da Historia Eclesiástica, João foi detido e decapitado na prisão de um castelo da Arábia, chamado Macheronte, mas Herodíade mandou transportar a cabeça para Jerusalém, e enterra-la, com precauções, junto à casa de Herodes, temendo que o profeta ressuscitasse se a cabeça fosse enterrada com o resto do corpo. Mas segundo a Historia Escolástica, ao tempo do imperador Marciano, que começou a reinar no ano do Senhor de 452, João revelou a localização da sua cabeça a dois monges que tinham vindo a Jerusalém. Apressaram-se a ir ao antigo palácio de Herodes, e encontraram a cabeça em sacos de pele de cabra, que, a meu ver, provinham das vestimentas que o santo trazia no deserto... A seguir, o Voragino conta que, depois, um oleiro de Emesa se juntara a eles e, avisado, em sonhos, por São João, fugira com a cabeça para a sua cidade. Mais tarde, confiou o segredo a sua irmã, e assim ele foi sendo confiado, por gerações sucessivas, a legítimos herdeiros, até São Marcelo, a quem o Percursor, em visão, deu o beijo da paz e revelou a urna onde se conservava a cabeça, a qual foi então colocada numa igreja, para lhe ser prestado o devido culto. Finalmente, por intervenção imperial, a relíquia iria parar a Constantinopla e guardada noutra bela igreja. E depois? - perguntas tu, Princesa de mim... Depois, a cabeça passou para as Gálias, para o Poitou, no reinado de Pepino, e pelos seus méritos muitos mortos foram ressuscitados - responde frei Tiago Voragino, que a seguir conclui o seu relato do movimentado destino da cabeça de São João Baptista:

 

   E, tal como foram castigados Herodes, que mandara decapitar João, e Julião o Apóstata, que ordenara que lhe queimassem os ossos, igualmente foram punidas Herodíade, que sugerira à filha que pedisse a cabeça, e a própria rapariga, que a pedira. Há quem diga que Herodíade não foi, afinal, condenada ao exílio, nem morrera em Lyon: enquanto segurava a cabeça de João, e rindo o insultava, por vontade divina a cabeça soprou-lhe na cara e ela morreu naquele instante. Eis certamente uma narrativa popular, e convém atermo-nos à versão, anteriormente contada, de que ela acompanhara Herodes no exílio e nela tivera um fim miserável; esta é, aliás, a versão que os santos narram nas crónicas. Quanto à filha dela, um dia em que passeava sobre o gelo, este quebrou-se debaixo dela e levou-a para o fundo da água, onde se afogou... Uma crónica afirma que a terra a engoliu viva, coisa que podemos entender à maneira do que se diz dos egípcios que foram engolidos pelo Mar Vermelho: A terra devorou-os [Êxodo, 15, 12].

 

   Atenção, Princesa, olha que o Pepino acima nomeado não é O Breve, avô de Carlos Magno, mas, sim, o neto deste, Pepino I da Aquitânia que, em 817, mandou construir a igreja de São João, ao que dizem, para albergar a relíquia, e assim ali, em Angély, se ergueu a abadia beneditina de Saint Jean d´Angély. O sítio foi estação de um dos itinerários do Caminho de Santiago. A abadia foi destruída e reconstruída mais de uma vez, sendo que, por volta de 1562 (creio), durante as Guerras das Religiões (entre católicos e huguenotes) foi alvo de atentado que provocou incêndio em que ardeu a pretensa cabeça se São João Baptista. Todavia, a devoção a esta manteve-se, e outras "candidatas" havia, como te referi em carta anterior, quer em França, quer noutras localidades e templos das igrejas cristãs romana e orientais, e mesmo em mesquitas. Não te esqueças de que o Profeta João também aparece no Corão. Nem de que a cidade de Emesa, acima mencionada, viria, com a ocupação muçulmana, e até hoje, a chamar-se Homs. Fica na Síria, a uns sessenta quilómetros do famoso Crac dos Cavaleiros, castelo fortificado que os cruzados levantaram e chegou a ser governado pela Ordem dos Hospitalários. Mas os Templários é que ficaram com a fama da devoção (até já lhe chamaram adoração!) da cabeça de São João Baptista...

 

   Mas disso, e de outros boatos sobre Templários falaremos em carta próxima. E, já agora, para acabar esta: está também na Síria, em Damasco, cidade capital, a Grande Mesquita dos Omíadas (séc. VII), que alberga um santuário onde alegadamente se enterrou essa cabeça, e onde uma tradição muçulmana pretende que Jesus comparecerá, no fim dos tempos. 

 

     Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira