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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

A Coroação de Carlos Magno.jpg

 

   Minha Princesa de mim:

 

   A Regra que governava os Templários teve certamente forte influência de São Bernardo, o ritmo dos dias conventuais era marcado pelas horas canónicas ou ofícios divinos, as celas eram sóbrias, o silêncio era disciplina geral, só a dieta lhes permitia maior consumo de carne: afinal, se frades eram, guerreiros lhes cumpria ser, precisavam de forças... Será difícil para um espírito hodierno entender essa obsoleta figura de monge guerreiro, em que se confundem a vocação religiosa e a militar ou bélica.

 

   As cruzadas devem ser entendidas à luz das sociedades e dos sobressaltos da época: dois séculos depois da queda do Império Romano do Ocidente, ou latino, a Europa debate-se numa barbárie caótica, de que irá procurar sair, sobretudo por força da cristianização dos bárbaros e do labor civilizacional da Igreja. E o surto islâmico irá conquistar e ocupar, não só os territórios africanos e palestinos do Império, mesmo os que sobraram para Bizâncio, como muitos da Ásia Menor, tirados à já Constantinopla e aos Persas. E a Península Ibérica. Sabes, Princesa de mim, como nestes cenários em que a vontade política  - essa afirmação da força do poder temporal e bélico - sobreleva o gosto da paz, tão chão dos povos e dos seus soldados possíveis, e podem ser arrastadas, arrasadas e esquecidas afinidades e pertenças mútuas, amizades e fronteiras aceites de convívio e entendimento...

 

   As Cruzadas, a exemplo da Jihad, foram isso também, mas o que mais me chocou nessa saga foi o orgulhoso afrontamento entre cristãos latinos e gregos... Constantino, dando, em 330, a Bizâncio o nome de Constantinopla, fez dela uma nova Roma, capital do Império. Mas o Império, institucionalizado cristão, guardaria a saudade fundadora do martírio de Pedro na antiga capital-símbolo...

 

   Facto é que o Império Romano do Oriente sobreviveu ao do Ocidente, sendo assim o rei dos reis na terra, o depositário do poder divino da realeza, o imperador bizantino. Mas Pedro, o primeiro papa, instalara-se e fora martirizado em Roma, de que era bispo. Por isso o imperador lhe reconhecia o primado honorífico, e a dado passo chegou mesmo a recorrer à sua arbitragem, sobretudo quando não lhe agradavam ou convinham as sentenças do patriarca bizantino. Por outro lado, não te esqueças de que o próprio São Gregório Magno, grande reformador da Igreja e papa de 590 a 602, se reconhecia, no plano temporal, súbdito do imperador de Constantinopla. Esta circunstância de tensão e animosidade latente - em que a questão da afirmação do poder até no plano religioso, determinou excomunhões mútuas - acabaria por conduzir ao Grande Cismo e, em 1204, à conquista e saque de Constantinopla pelos cruzados do ocidente. 

 

   Todavia, muito embora a coroação, pelo papa de Roma, de Carlos Magno como Imperador tivesse escandalizado o Império Bizantino, este acabara por aceitar que tal dignidade fosse reconhecida aos Carolíngios e, mais tarde, aos Otonianos, ainda que mantivesse a convicção de que, tal como há só um Deus e um só lugar tenente, também o Império é indivisível, pelo que, mesmo tendo o título de Imperador, o do Ocidente não podia ser, como o de Constantinopla, Imperador dos Romanos... Como vês, é sempre a "política".

 

   No plano propriamente religioso, ambas as tradições - romana e bizantina, grega ou latina - professam o Credo dos Apóstolos e comungam no mesmo Corpo de Cristo. Podem divergir em interpretações, calendários e ensino, mas nenhuma é considerada herética pela outra; podem variar formas de culto, línguas e liturgias, mas não esqueças que, no seio da mesma Igreja romana, por exemplo, se celebravam os ofícios divinos de acordo com ritos tão diferentes como o próprio romano, o moçárabe ou o visigótico. Afinal, o cristianismo sempre se deu com aculturações, tal como nunca deixou de sofrer tentações de autoritarismo, de vocação totalitária. Estas explicam o porquê de inquisições e perseguições, sobretudo quando divergências doutrinais pareciam ameaçar determinados processos de consolidação social e política. Há muitas histórias de guelfos e gibelinos, a compita entre papado e império, poder religioso e político, Igreja e Estados foi mudando de forma para permanecer...

 

   O processo dos Templários, a extinção da Ordem pela bula papal Vox in Excelso, bem como a respetiva recuperação pela sucessão atribuída a outras - como a de Cristo em Portugal - é quase vinte anos posterior ao fim da ação dos cavaleiros na Terra Santa, que a perda de São João d´Acre, em 1291 assinala. Resulta da presença templária numa França onde Filipe o Belo afirma o poder real e não gosta da dependência financeira em que a coroa está: na verdade, a Ordem do Templo é então o banqueiro dela. Noutros reinos, como Aragão, Castela e Portugal, o confronto da Reconquista continua e a vizinhança dos muçulmanos magrebinos é um facto. É aí bem diferente a circunstância da milícia templária. 

   Mas tal história fica para próxima carta.

 

       Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira

 

 

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