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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

Minha Princesa de mim:

 

   Quando, em 20 de agosto de 1940, Félix Éboué, governador do Chade, colónia francesa, manda içar, em Fort-Lamy, a bandeira francesa com a cruz de Lorena ao centro, símbolo da França Livre que De Gaulle quer erguer, dá a essa mesma França, e contra o governo colaboracionista do marechal Pétain, em Vichy, o seu primeiro território. O governador negro africano era filho de escravos, a maioria da população que ali aclamou a restauração nacional também. E muitos dos soldados europeus que, sob o comando de Leclerc, ali apoiavam e aplaudiam a primeira reivindicação e proclamação territorial da França Livre, nesse mesmo momento se interrogavam sobre onde, então, se sentia o coração da França, sobre onde, prontos, estariam os patriotas franceses: em Vichy ou em Fort-Lamy?

 

   Nesse mesmo ano, um mês e meio antes, a 3 de julho de 1940, a Royal Navy lançara um ultimato à esquadra francesa ancorada em Mers El-Kébir: juntar-se ao Reino Unido e prosseguir a guerra contra a invasão alemã, abrigar-se em porto neutro ou nas Antilhas, para aí ser desarmada, ou auto destruir-se. O governo de Vichy declinou qualquer das sugestões e decidiu ignorar a Grã-Bretanha. Esta ataca, em pouco mais de vinte minutos inutiliza quase todos os vasos de guerra franceses ali estacionados, e assim mata 1300 marinheiros gauleses. O fantasma de tal desastre perseguiu Winston Churchill durante anos: mas teria ele podido agir de outro modo, quando sabia que o governo de Vichy procurava, nessa altura, granjear favores inerentes a uma colaboração com o Reich e poderia ser forçado a colocar a sua própria força naval ao serviço do Reich que, aliás, bem a seu jeito, até procurava apropriar-se dela?

 

   Ambos estes episódios ainda hoje afligem, com pesadas interrogações, muitas consciências - não dos seus protagonistas, que já saíram da cena terrenal, como diria Gil Vicente, mas de historiadores e intérpretes da História, e ainda de ideólogos e políticos, e também, em tom mais apagado, de quem visita o passado à procura de luzes que, quiçá, alumiem feições dos homens e confrontos do tempo presente. Para ti, Princesa de mim, apenas os evoco, não para deles tirarmos conclusões, mas antes, talvez, para nos ajudar a perceber como a nossa responsabilidade perante o que atualmente ocorre nos exige fugir de preconceitos, libertando-nos de mitos e ideias feitas, inclusive de supostas virtudes ancestrais e tradições de comportamentos insubstituíveis. A virtude moral que se nos impõe é a prudência -  no "meu" tão querido sentido agostiniano-tomista de amor sagaz - que pressupõe uma vontade firme de procurar o bem que é justiça, no sentido ulpiniano de jus suum cuique tribuendi (há lições que, vindas da nossa mocidade, nunca esquecem), e uma limpidez do nosso pensarsentir - no sentido de lucidez amável e amante. Essa prudência é mãe da responsabilidade, que será uma resposta expressa e ativa à nossa circunstância atual, e animada pela alegria de contribuirmos para o bem comum.

 

   O recurso a exércitos africanos para combate em guerras europeias - desde os marroquinos de Franco aos senegaleses que foram das primeiras vítimas francesas da invasão alemã, no princípio da 2ª Guerra - implicava uma "nacionalização" dos colonizados, esses soldados eram mesmo convencidos de patriotismo. Tal como, recordo bem, Princesa de mim, nos meus tempos de Guiné, muitos dos combatentes por Portugal eram guineenses de diversas etnias, certamente com relevo para fulas e outros povos muçulmanos, chegando até a República Portuguesa a financiar-lhes peregrinações a Meca... A Europa exangue não hesitava em recorrer aos indígenas de África para se reabastecer de humanos para a guerra. Talvez esta consideração, como, aliás, os inúmeros exemplos de compromisso e coragem (como o do governador do Chade) - para já não falarmos do sacrifício de tantas vidas - devesse estar bem mais presente nos nossos espíritos quando nos pronunciamos sobre questões migratórias, ou falamos na construção de identidades nacionais. [Vai para meio século, Princesa, que, todos os dias, nesses momentos de comunhão com o inexplicável Quem, a que chamo oração, me lembro dos meus camaradas e amigos guineenses.

 

   Também a sombra de Mers El-Kébir deverá pesar sobre qualquer reflexão acerca do recurso a medidas bélicas ou da fidelidade a alianças. Por muito que se possa procurar qualquer justificação (prevenção estratégica, mal menor, legítima defesa antecipada...eu sei lá!) para a destruição total de uma armada ancorada e incauta, arvorando a bandeira de França (contra a qual o Reino Unido não estava em guerra, antes seria aliado), aquele ato bélico foi, em si e só por si, uma barbaridade. Eis a maligna essência da guerra: a violência e/ou a desilusão como soluções justificadas.

 

   Por enquanto, todavia, muitos potenciais conflitos vão ficando pela iminência teatralizada, servindo, como já vimos, Princesa, para disfarçar tensões domésticas, tornando oportunas, e populares, supostas ameaças externas, lamentavelmente alheias à realidade de gente que sofre e cada vez menos encontra quem escute os seus apelos. A esmagadora maioria e principais vítimas da guerra na Síria são populações civis, e os seus algozes não são apenas os perpetradores de ataques armados, são igualmente os fornecedores desse armamento e os aliados das partes em disputa que, fora da ribalta, bem poderiam retirar aos beligerantes meios de apoio e condições políticas de prossecução do conflito. Enquanto o regime sírio continua atuante, comissões parecem verificar a veracidade e origem de agressões químicas, Trump convida Putin, e este aceita e retribui, May acena com a fantasia de remediar o Brexit com um reforço das relações no Commonwealth, e Macron - que reclamou para si o mérito de convencer Trump a não desertar o conflito sírio, coisa que os EUA já negaram - tenta empreendedoramente que Merkel lhe dê algum assentimento num projeto europeu... No qual procurará, quiçá lembrado de Lafayette, em ser, na UE, que os britânicos ora abandonam, o apoiante dos americanos.  

 

   Em Portugal, a obsessão de uns jornalistas de duvidosa retidão intelectual, e, pior até, o histerismo de um deputado ao Parlamento Europeu - para os quais tudo o que o Governo faz é traição à Pátria - teima em condenar, aos céus bradando, a sensata e inteligente posição portuguesa no caso Skripal, ao reiterar o seu compromisso com a UE e a OTAN, sem expulsar diplomatas russos. Reclamam-se esses "puros" das tradições e alianças lusitanas, acusam o Governo de ter posto Portugal na companhia de bandidos internacionais, com decorrentes e insanáveis prejuízos políticos e económicos para o nosso país, e dizem que são de direita... De direita serei eu, que não esqueço a prudência de Salazar e da sua neutralidade cooperante durante a 2ªGuerra. Poupem-me! Até porque não vi ainda qualquer prejuízo adveniente da posição portuguesa, antes muito pelo contrário... [Desabafo, Princesa: às escondidas vou redigindo uns apontamentos sobre a cultura dos portugueses, isto é, do ambiente e das referências que condicionam o seu pensarsentir, e verifico que, quiçá por ausência de livre espírito crítico (com origem num clericalismo beato e ignorante e num radicalismo laico e pouco culto), sofremos de marcadíssima propensão ao facciosismo maniqueísta, cuja primeira comunicação social é a hipocrisia.

 

   Quanto à recente promessa norte-coreana de suspender os seus testes de mísseis nucleares, convir-nos-á, Princesa de mim, entendê-la como afirmação clara de que estão bem cientes e seguros de poder dispor de força nuclear, já não necessitando de experiências nem demonstrações. Daí que, estando em plano de igualdade, se disponham a entender-se. Ninguém, no chamado Ocidente, poderá reivindicar aqui um efeito de dissuasão da sua própria força superior. Antes, esperemos, deverão todos preparar-se para capazmente responder a uma oportunidade de diálogo, que incluirá outros e poderá mesmo servir de plataforma para um acordo alargado de contenção do armamento atómico. Antes de se vangloriar, Trump deverá re-repensar (exercício a que, felizmente, nos tem habituado) a questão da saída dos EUA do acordo de não proliferação de que o Irão faz parte: este já anunciou que retomará o programa de enriquecimento de urânio se os americanos se retirarem... E deputados dos países europeus signatários do mesmo já subscreveram um sério aviso de prudência e permanência.

 

   Pessoalmente, Princesa, conheci e convivi de perto com a Coreia durante catorze anos, e senti muito o drama das famílias divididas entre as duas repúblicas antagónicas... Para tua sensibilização, apenas te digo que o apelido marcante da linhagem dos atuais presidentes nortenhos, Kim, indicia consanguinidade com a mulher de Moon Jae-in,o atual líder sul coreano (a senhora nasceu Kim  Jung-sook) e, ainda de  outro presidente sulista, de 1998 a 2003, Kim Dae-jung: recordo que, aí pelos anos 80, em Seul, um jurista coreano me garantia que, dada a fidedignidade dos seus registos genealógicos, um Kim não pode contrair casamento com uma Kim, face ao direito coreano vigente, precisamente por essa razão (?). E permite-me então dizer-te que, de certo modo, até os dois Kim presidentes, do norte e do sul, se sentirão da mesma família... Aliás, Kim Dae-jung assinou, em 15 de junho de 2000, em Pyongyang, que visitou, um acordo com o seu homólogo do norte, Kim Jong-il, pai do actual Kim Jong-un. Na sequência de tal ato, A Comissão Nobel Norueguesa decidiu atribuir o Prémio Nobel da Paz para 2000 a Kim Dae-jung, pela sua obra em prol da democracia, dos direitos humanos, na Coreia do Sul e na Ásia Oriental em geral, e da paz e reconciliação da Coreia do Norte em particular.  Este Nobel Kim era católico, e foi apoiado pelo papa João Paulo II, quando preso pela ditadura militar sul coreana. E desabafo o pensarsentir que o presidente Moon do sul, católico fiel do papa Francisco, tem sido um artífice autêntico do processo de reconciliação em curso, apesar dos seus opositores internos que, de certo modo, espelham as desconfianças e ódios que, noutro longínquo contexto, os cubanos da Florida também não deixam esmorecer. Mas não podemos tampouco ignorar, nem sequer menosprezar, possíveis gestos e progressos de boa vontade do Kim do norte, que, quiçá, a China  -  depois de ter transformado o seu PC num capitalismo de Estado  -  não desdenhará acompanhar, não só para não prejudicar um sistema de comércio livre de que tem sido privilegiada benificiária, mas para não ficar totalmente de fora das conversações coreano-americanas :já o avô do atual Kim do norte em parte se servira dos EUA para se aliviar um pouco da influência soviética...

 

   Afinal, Princesa de mim, acabei hoje de te escrever esta carta metafórica. O esplendor da floração da minha cerejeira do Japão desafiou a chuva forte destes dois últimos dias, põe-me e deixa-me a contemplar algo inesquecível porque ficarão as flores que o vento levou, e toda a realidade é ilusão simultânea. Vi e ouvi, ontem ainda, a Terra Justa em Fafe, em homenagem à Maria de Lourdes Pintassilgo. O seu governo de cem dias - e todos sabíamos que seriam só cem, era esse o prazo máximo que o presidente Eanes lhe poderia dar - terá sido aquele, entre tantos outros mais duradouros, que mais e profundas reformas cumpriu. Porque, muito para além dos calculismos políticos, teve o ânimo de ser fiel a uma certa ordem de amar o povo. Li hoje o Emmanuel Todd a dizer que a Rússia (Esparta) e os EUA (Atenas) repetem agora a guerra do Peloponeso... Macron insiste em que, fechada esta guerra civil Síria, a tríade (França, RU, EUA) ali se deverá manter como garante. Entre vaidades e ilusões nostálgicas, parece-me - a mim que nada percebo do assunto - que já não estamos no mundo bipolar da guerra fria, nem no da profetizada vitória liberal-capitalista do Fukuyama. Maiores ou nem tanto, outros actores apareceram e surgem, marcando presença à mesa e dispondo também de algumas cartas do baralho. O grande desafio do nosso tempo é a descoberta de uma nova cultura da paz. 

                                                           

Camilo Maria   

Camilo Martins de Oliveira