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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

Minha Princesa de mim:

 

   A filosofia, etimologicamente significando amor ou amizade da sabedoria ou, se quiseres, a persistência na busca do entendimento, vai tendo, ao longo dos percursos humanos na cultura do espírito, duas faces unas e distintas: por um lado, a sabedoria é o conhecimento, por outro será o juízo prudente. Assim, é savoir e é sagesse, mesmo em português poderemos falar em sabedoria e sageza, esta palavra tendo há muito sido autorizada pelo cronista medievo Fernão Lopes. Como conhecimento, o que inquirimos e aprendemos é sempre filosofia, mas esta finalmente se constrói refletindo sobre aquela aquisição. Aí, já se vai tornando juízo, cuja prudência avalia, sistematiza e nos dispõe. E a partir daí lá se vai formando, pela cultura do espírito, algo que intimamente sempre nos acompanha, e a que muitas vezes também chamamos filosofia: a nossa weltanschaung ou visão do mundo, o nosso modo de olhar os seres e as suas relações.

 

   Os iluminados europeus do século XVII/XVIII, os filósofos das Luzes, descobriram o pensamento em modo chinês pelos relatos que lhes iam chegando da missão jesuíta em Pequim, e assim se tornou Confúcio um deles, penso eu, Princesa, que por sobretudo se tratar de uma reflexão moral à margem dos ditames de qualquer igreja ou religião. Ainda hoje, por aí, se fala de Confúcio como sage. Curiosamente, como muito bem entendeu Anne Cheng no seu Les tribulations de la "philosophie chinoise" en Chine, (in La pensée en Chine aujourd´hui, Folio Essais, Gallimard, Paris, 2007), o novo género de «histórias da filosofia» que proliferam na Alemanha e em França na orla do século XIX tende, pelo contrário, a delimitar o território da filosofia como propriamente europeu, rejeitando para um lá fora não filosófico tudo o que não releve da herança grega e cristã, em nome de uma nova definição da filosofia caracterizada como ciência e não já como reflexão moral.

 

   Antes de retomar uma extensa e esclarecedora citação da filha de François Cheng (do qual já muito te falei noutras cartas), deixa-me, Princesa de mim, recordar-te passos das minhas memórias do Japão, que há muito tempo já também te referi. A autorreclusão do Império do Sol Nascente, durante os 250 anos do shogunato Tokugawa termina oficialmente em 1867, sob a pressão americana do comodoro Perry, e afirma-se pela restauração do poder imperial efetivo conhecida pela designação do próprio imperador: Meiji. A partir daí, o Japão torna-se no pioneiro da modernização ocidentalizada do Extremo Oriente, muito voluntarista, procurando importar tudo o que de melhor se produzia na Europa e nos EUA, desde o direito à organização política, administrativa, e militar, do armamento aos caminhos de ferro e equipamentos públicos, da filosofia a todas as formas da atividade científica, literária e artística, incluindo, é claro, o ensino universitário. Naturalmente, a primeira tradução do conceito filosofia em caracteres chineses surge em japonês: tetsu gaku, que posso traduzir, literalmente, por estudo (gaku) da sabedoria. Deve-se a um intelectual importante da era Meiji, Nishi Amane, introdutor do positivismo de Comte na escola japonesa, que pela primeira vez o usa em 1874. De acordo com Anne Cheng, só 23 anos mais tarde, a palavra será usada na China, escrita com os mesmos kanji, ou caracteres sínicos, mas pronunciando-se zhexue, num relatório sobre o Japão publicado em 1897 por Huang Zungxian, em que se decreve a organização da universidade imperial de Tokyo, fundada em 1877, no espírito Meiji, e composta de três grandes faculdades: direito, física e literatura, desta dependendo um departamento de «filosofia». Volto então àquela citação de Anne Cheng:

 

   É à ideia hegeliana de que «não há filosofia chinesa» (entretanto ainda vivaz no "establishment" filosófico europeu, designadamente em França) que a modernidade chinesa procurou responder. Entre as Guerras do Ópio dos anos 1860 e a Revolução Cultural dos anos 1960, decorreu um século pautado por acontecimentos mais ou menos traumatizantes : 1895 (grande derrota das tropas imperiais face ao Japão); 1898 (os «Cem Dias», em que se tentou a primeira reforma das instituições imperiais, que resultou em lamentável fiasco); 1911 (descalabro definitivo da dinastia manchu e, com ela, do regime imperial que durara dois milénios, seguida da instauração da República em 1912); 1919 (movimento iconoclasta de 4 de Maio); 1949 (instauração da República Popular da China, após mais de uma década de conflitos armados: guerra de resistência à ocupação japonesa, guerra civil entre nacionalistas e comunistas). Nas nossas referências a esse «século das revoluções», que também poderíamos chamar século das tentativas de modernidade, devemos ter presente um feixe de fatores que vão desde a influência das ideias ocidentais aos esforços de mobilização de recursos tradicionais, à mutação do letrado tradicional em intelectual moderno, à instalação de novas estruturas educacionais, tais como universidades de modelo ocidental, sem esquecer o papel da mediação japonesa. Seremos pois levados a insistir no papel complexo desempenhado, durante este período, pelo Japão, simultaneamente modelo e repulsa para a China, percebido quer como potência colonizadora a exemplo do Ocidente, quer como aliado contra este.

 

   As raízes chinesas (e, aliás, sino-coreanas) da escrita, do budismo e de muitos aspetos da cultura e tecnologia nipónicas, além da própria configuração política da instituição imperial japonesa foram abordadas no meu Fomos em Busca do Japão (VERBO/BABEL, Lisboa, 2016) e outros escritos, designadamente publicados no blogue do CNC. Em finais do século XIX, e tempos seguintes, verificam-se movimentos de influência em sentido inverso, ainda que penalizados pela amargura e ofensa impostas pela agressão nipónica à China, o Império do Meio, (de que até Le Lotus Bleu, aventura do Tintin, traça um retrato arguto e sentido) e a colonização da Coreia pelo Japão, na primeira metade do século XX. Três povos com muitas parecenças e algumas afinidades e pertencentes a três famílias linguísticas distintas, ainda que todos três se sirvam todavia, total, quase ou parcialmente (o coreano apenas para nomes, visto dispor de escrita própria desde o século XVI, o japonês acrescentando dois silabários fonéticos derivados) de caracteres chineses. Quanto à expressão tetsu gaku, criada no Japão com caracteres sínicos e, nestes sendo depois incorporada na língua chinesa, deixa-me acrescentar outra curiosidade: foi na universidade de Tokyo que se começou a ensinar «filosofia chinesa» e, pela primeira vez, em 1900, se depara com o título Shina Tetsugaku Shi, utilizado pelo professor Endo Ryukichi. Traduz-se por Nova Filosofia da China, mas a surpresa está na substituição de Chuoku (País do Meio), na leitura japonesa dos dois carateres chineses, pela fonética Shina, em dois caracteres silábicos nipónicos. Afinal, talvez lhes parecesse que, com a modernização Meiji, o "centro" do mundo passasse mais para leste, onde nasce o sol... para o Império do Sol Nascente... Nihon ou Nippon significando a raíz, a origem do sol.

 

   Porque a filosofia é cultura - quiçá a cultura do espírito por excelência - ela só pode exercer-se em circunstância e na história. Assim, passa de interrogação a busca, de procura, e reflexão, a explicação, que mais não é do que um olhar proposto. Mas este, como qualquer visão do mundo, comunica-se e enraíza-se, alarga-se como árvore que cresce e se abre em ramos, a cuja sombra se abrigarão muitas gerações. A sua história é distiladora de essências a que chamamos valores ou princípios. A universalidade destes não tem dono, antes é, por definição, de todos: só pela entrega e comunicação se fixa, como raíz fasciculada, que vai beber, buscar e dar vida até onde puder. O valor do universalismo cristão, por exemplo, que afirma a igual dignidade de todos os seres humanos, pode ter sido esquecido - e muitas vezes o foi e é -  no seio de comunidades ditas cristãs, até por impulsos sectários de distinção entre bons e maus. Mas pode, por essa tal cultura (subterrânea também) do solo que a todos nos sustenta, florescer em comunidades heterogéneas. Dou-te, Princesa de mim, uma ilustração que hoje traduzo de The Economist, notícia e comentário que não inventei, cinquenta anos depois do célebre discurso - conhecido por Rios de Sangue - proferido por Enoch Powell para uma plateia de militantes e eleitores tories no Midland Hotel, em Birmingham, "profetizando" o advento de conflitos sangrentos entre brancos e gente de cor se continuasse a permitir-se imigração no Reino Unido:

 

   Atualmente, metade dos habitantes não brancos do RU vivem nas três maiores cidades do país: Londres, Birmingham e Manchester. A segunda incarna o que os universitários apelidam de "superdiversidade". Outrora, as minorias étnicas tinham tendência a fechar-se em grupos. Hoje, a mistura de populações de diversas origens étnicas é sem precedentes. Nenhuma circunscrição de Birmingham conta menos de 32 etnias, segundo Jenny Phillimore, da Universidade de Birmingham. O distrito recordista é o de Handsworth, cujos 31.000 residentes procedem de 170 países diferentes: ali, diz a investigadora, "todos têm um lugar".

 

   Esta demografia retrata-se na vida política da região. A antiga circunscrição de Enoch Powell, Wolverhampton South West, foi representada, até 2015, por Paul Uppal, um sikh (conservador), sendo hoje o mesmo assento parlamentar ocupado por Eleanor Smith, uma deputada trabalhista cuja mãe deixara Barbados para vir para o RU em 1954, a fim de trabalhar para o National Health Service. Esta mulher política lembra-se do desapontamento de sua mãe ao ouvir o discurso de Enoch Powell, que apelava ao repatriamento voluntário - linha oficial do partido conservador naquela altura. Fora encorajada a vir para o RU quando este país precisava de mão de obra e, agora, intimavam-na a voltar para casa..."

 

   Em carta próxima, Princesa de mim, voltarei à filosofia chinesa, como reflexão moral e política. Sempre vamos aprendendo uns com os outros... Falar-te-ei do conceito milenário de tianxia, ou seja, de tudo o que está sob o céu...

 

Camilo Maria     


Camilo Martins de Oliveira