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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

Minha Princesa de mim,

                                              

Queridos Amigos:

 

                                           Nuvem neste instante

                                              feita nossa

                                           libertação

                                              do exílio

 

   Quadra não sei, recolhi-a de Enfin le royaume - quatrains (Gallimard, 2018), de François Cheng. Presumindo que o poeta chinês da Académie Française a tenha escrito em francês, dessa versão a traduzi. O original reza assim:

 

                                           Nuage un instant

                                              apprivoisé,

                                           Tu nous délivres

                                              de notre exil.

 

   A coletânea de poemas (quadras chinesas, poderá dizer-se?) que este livro encerra é um insistente, melodioso e exigente, apelo a sair de nós. Como aquela definição que Plotino (270 a.C.) dá da inteligência, como movimento do nosso pensamento que o ergue das coisas inferiores para nos levantar a alma até ao que é superior. Mas tal movimento, mesmo nesse instante da nossa busca em que cativamos a passageira nuvem que nos livra deste exílio, ou nos liberta como verdade encontrada, só pode existir e ter sentido na nossa consciência. Ou seja, citando São Tomás de Aquino (Summa Theologiae, Ia IIae q. 19a.5): Se a tua razão se revoltar contra a afirmação de que Cristo é Filho de Deus, seria ofensa a Deus acreditares na divindade de Cristo. Eis, Princesa de mim, o que muitos convictos ateus e devotos crentes nem sempre entendem: qualquer de nós só verdadeiramente pensassente a verdade, em liberdade... Veritas liberabit vos, isto é, a verdade vos libertará - não significa que um achado científico, nem qualquer dogma ortodoxo, por si só, ou por muita pregação, seja definitivo e triunfador. Antes nos alerta para que, tal como o conhecimento científico é contínua descoberta, a Boa Nova é incessante anúncio da libertação do nosso exílio. Chama-nos a ser vigilantes, atentos à chegada de cada instante em que se manifesta como vocação à conversão. Tal como a ciência, a fé, o amor ou a paz, nunca estão perfeitos: são vocações, sempre a pedir resposta, um passo mais de ação renovadora. E a precisar de cultura, de um espírito que se lavre para se abrir à sementeira. Dessas vocações se pode dizer que são graça, um dom. Repetindo Raïssa Maritain, só o dom opera a salvação.

 

   Ora, nem todos recebemos o dom da fé, ou não o descobrimos a chamar por nós. E se não nos tocou nem toca, mantem-se estranho, porque não há força nem lógica que imponha a fé. Quem a tem, ou julga ter, dela apenas pode dar testemunho. Para o cristão, o testemunho da fé dá-se pelo amor e pela paz. Eu não posso dar a fé seja a quem for, posso procurar dar o meu amor e a minha paz a toda a gente.

 

   Em tempos de tantas incertezas, interrogações, expectativas e desilusões, a fé cada vez menos se anuncia como dogma, e cada vez mais se testemunha pelo amor e pela paz que soubermos irradiar, para comunhão de todos na esperança que a todos nos deve animar. E é dando esse testemunho, com empenho na defesa da terra e na construção de uma casa comum, que se anuncia, no dia a dia, a Boa Nova. Que 2019 seja ano mais despido de preconceitos, desconfianças e negações, para que nos nossos dons de amor e de paz se manifeste a Graça.

 

Camilo Maria  

                                         
Camilo Martins de Oliveira