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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

 

Minha Princesa de mim:

 

   As meças de forças da Ordem do Templo com o poder político - e não só - foram-se sucedendo, acompanhando o crescimento daquela milícia religiosa, e do seu próprio poder financeiro e militar, aliás traduzido em praças fortes e territórios ocupados e governados por ela. Se, em 1147, o papa Eugénio III se desloca pessoalmente a Paris para assistir ao primeiro capítulo geral da Ordem, cujos cavaleiros partirão, como guarda especial do rei Luís VII de França na 2º cruzada, para a Terra Santa - expedição que foi um fracasso, obrigando o rei a colocar-se, ainda mais, sob a proteção  dos Templários - já em 1153, para proteger Jerusalém, onde reinava o jovem Balduíno III, com este participam na conquista da praça turca de Ascalão e, por terem sido quarenta dos seus cavaleiros os primeiros a nela entrar, o mestre Bernardo de Trémolay guardou-a para o Templo, o que foi mal percebido... Aliás, de nada lhes valeu, antes mal lhes veio, pois acabaram por ser massacrados pelos turcos, que a ocuparam até à sua reconquista, pouco depois, por Balduíno. O sucessor deste, o rei Amaury de Jerusalém, aliado ao imperador bizantino, irá romper a aliança do reino franco com o Egipto, em 1168. Tal expedição conta com a participação dos cavaleiros do Hospital, mas Bertrand de Blanquefort, mestre do Templo, recusa a dos seus monges guerreiros... E com razão, como reconhece o cronista Guilherme de Tyr: O mestre do Templo e seus frades nunca quiseram intervir em tal operação e disseram que não acompanhariam o rei nessa guerra. Pode bem ser que se tivessem apercebido de que o rei não tinha boa razão para guerrear os egípcios, violando as convenções garantidas pelo seu juramento. Logo depois, o advento de Saladino marcará o início da decadência e queda final do reino cristão na Palestina. Mas ainda levará algum tempo, posto que, antes da morte de Saladino, em 1193, perturbações entre muçulmanos os enfraquecerão e permitirão que S. João de Acre seja reconquistada por Filipe Augusto de França e Ricardo Coração de Leão, com notório apoio dos Templários, cujo Grão Mestre era Roberto de Sablé, nobre vassalo do rei inglês e seu amigo pessoal.

 

   Penso, Princesa, aqui neste sossego dos campos a que a aproximação do Inverno vai retirando os tons de oiro e fogo com que o Outono os cobrira, que - como tão bem o explanou Ibn Khaldun, de quem várias vezes te falei - o percurso histórico de reinos e instituições é, à imagem da mãe natureza, um surto e florescimento, um apogeu de frutos, ceifas e colheitas, um esplendor decadentista, já glorioso como um canto de cisne moribundo, e finalmente um esquecimento silencioso, onde apenas os olhos do coração vêem o invisível...

 

   Para a Ordem do Templo, a dos Pobres Cavaleiros de Cristo, a secreta fecundidade do Inverno deu-lhes nova vida nos reinos ibéricos, ainda a braços com o fim da Reconquista e a ameaça costeira de piratas mouros, já tentados por aventuras africanas e, ainda, pelo rodeio do aperto islâmico através da circunvalação de África e o acesso ao riquíssimo comércio do Oriente longínquo. Assim se transformaram, em Portugal, os Templários em cavaleiros só de Cristo, e a Ordem desempenhou o papel de sustento, até financeiro, das Descobertas.

 

   Já não me recordo da data em que te escrevi as linhas acima, nem sequer se foi no Outono passado ou noutro anterior. Mas lá falo da aproximação do Inverno... Hoje, ocorreu-me vir recuperá-las, lembro-me ainda de que iniciavam uma carta que era sequência de outras que te enviara. Assim sucede agora, por ter lido, no Figaro Littéraire deste 6 de dezembro, a resenha de um livro da professora italiana Simonetta Cerrini, agora traduzido para francês, com o título Le Dernier Jugement des Templiers (Flammarion, 2018). Tal obra vem ao encontro do que há muito penso e já em parte te dissera: houve (e há) mais fantasia e muito gosto de fábulas misteriosas - do que trabalho aturado e sério de investigação - em muito do que por aí se tem contado dos Templários. O livro da historiadora Simonetta Cerrini, doutorada pela Universidade Católica de Milão, deve certamente ser obra fundamentada e documentada, até porque a autora há muito se dedica ao estudo da Ordem do Templo. Não resisto a deixar-te aqui um trecho longo e elucidativo da resenha feita, no Figaro, por Paul-François Paoli. Traduzo:

 

   Ela retraça a história do que acha que constitui o primeiro grande processo político da história de França, enquanto nos vai propondo uma leitura dos documentos da época. Designadamente, a decifração de uma bula do papa Clemente V, Vox in excelso, datada de 22 de março de 1312, e da qual encontrou várias cópias. Nela o papa aprovava a dissolução da Ordem dos Templários, sem contudo se solidarizar com os métodos de terror utilizados por Filipe o Belo, que acusava os cavaleiros de todos os pecados do mundo...   ... As acusações que Filipe o Belo levantava contra esses briosos que haviam feito voto de pobreza e castidade, e cuja missão era, na origem, proteger os peregrinos que partiam para as cruzadas [melhor dito, penso eu : para a Terra Santa] eram as piores que se podiam fazer. A mais grave era a heresia e a blasfémia, sem esquecer a avareza, a acumulação de riquezas, a sodomia, etc. Para a historiadora, que recorda que Dante, no Purgatório, acusa Filipe o Belo de cupidez e crueldade, não há qualquer dúvida de que o grande culpado de todo este caso é o próprio rei, que quer deitar mão às riquezas de uma Ordem cujos membros se pensa estarem ao serviço dos pobres. Não é que os Templários nada tivessem de censurável, pois até Jacques de Molay, seu derradeiro grão mestre, desejava reformar essa contestada Ordem. Mas o que surge patente, ao correr das páginas, é o carácter monstruoso da maquinação de Filipe o Belo, cujos métodos parecem prefigurar os piores processos por bruxaria dos estados totalitários...

 

    Quase a fechar esta, vou a palavras da própria Simonetta Cerrini, onde encontrarás lembranças de apontamentos feitos nas minhas cartas sobre Templários, escritas após uma visita especial ao Convento de Cristo, em Tomar, onde o nosso guia povoou o cenário de fantasmas. O que me traz escritos e datas à memória: são nove (9!) cartas que te escrevi, publicadas depois pelo blogue do CNC entre 23 de outubro e 27 novembro de 2016. Escreve a professora Cerrini no seu último livro:

 

   Nenhum soberano seguirá o rei de França nessa cruzada contra o Templo...   ... Quando o papa Clemente alargou o seu inquérito a todos os países que albergavam casas templárias, deve ter-se apercebido, ainda que demasiado tarde, de que Filipe o Belo tinha criado, não só uma bolha financeira, mas também uma bolha místico-mediática destinada a apoiar um "Estado totalitário", sobre cujo altar os guardiães do Templo de Salomão deviam ser sacrificados.

 

   Tardia embora, a "revisão" papal todavia permitiu a "conversão" da Ordem do Templo noutras novas ordens. Em Portugal, como sabemos, na de Cristo, por vontade também, e militante, d´El-Rei Dom Diniz, o Lavrador. Este monarca foi muito ativo em política de consolidação da soberania portuguesa e reforço do poder régio. O que explica como, durante o seu reinado, as relações com o papado tivessem sido muito marcadas por questões relacionadas com as ordens religiosas militares. Assim, é nessa época que os cavaleiros portugueses da Ordem de Santiago passam a eleger, direta e separadamente de Castela, o seu mestre. E, após a extinção papal da Ordem do Templo, Dom Diniz opõe-se à entrega dos seus pertinentes bens à Ordem do Hospital, e à própria Igreja, colocando-os sob a alçada da coroa. Finalmente, consegue, em 1319, que o papa João XXII institua, pela bula Ad ea ex quibus, a Ordem de Cristo, bem portuguesa, recetora de todos os bens dos nossos Templários.

 

    Assim te voltei a falar dos Templários, cumprindo, Princesa de mim, o desejo que formularas, e sorrindo amareladamente à lembrança de que já em tempos idos - sem tweeters, televisões, rádios, revistas e jornais - os autores políticos criavam histórias e lançavam caçadas a possíveis bruxas, em busca de um conveniente desenho de bodes expiatórios que vocacionassem iras... Hoje, democraticamente, tal panorama alastrou e quotidianamente vai tentando preencher os nossos horizontes. Os debates de ideias e projetos vão cedendo espaço à multiplicidade dos ataques ad hominem, a promiscuidade do aparelho judicial com o mediático vai gerando borradas confusões, juízes e processos em justiça tornam-se actores e cenários de outras guerras e disputas. O celebrado, consagrado princípio da separação de poderes (o executivo - e o moderador - o legislativo e o judicial) cada vez mais dificilmente consegue afirmar a independência judicial, quer por não se conseguir libertar este poder da contínua conspiração política em que vivemos, quer por demagogicamente o substituírem pela chamada comunicação de massas (pelas redes públicas e pelas ditas sociais). Um dos mais graves problemas a resolver nas democracias hodiernas tem, precisamente a ver com a afirmação, estruturação, disciplina e independência erga omnes do poder judicial e seus aparelhos.

 

    Não será esta carta para ti, Princesa de mim, o foro curial para uma reflexão sobre tão complexa questão política, jurídica e comunitária. Mas todavia  -  quiçá por tanto me enjoar o meu desgosto das comuns intrusões na privacidade alheia, dos processos de intenções, das sistemáticas violações do direito ao bom nome e ao juízo justo (ter-nos-emos esquecido desse ensinamento que nos deram quando crianças - do próximo, ou bem ou nada - ?), sim, Princesa, talvez por isso, não resisto a falar-te do último livro da historiadora britânica da cultura, Tiffany Watt Smith: Schadenfreude: The Joy of Another´s Misfortune, Little, Brown Spark, 2018). Este título recorre à união de dois termos germânicos (Schaden, prejuízo, pena, e Freude, alegria) para exprimir o sentimento mesquinho que é a satisfação pelo mal infligido ou acontecido a outrem. Não te contarei aqui as várias teorias que a autora refere para explicação de vício humano tão antigo. Até os gregos já o denunciavam, designadamente por palavra atribuída a Aristóteles: epichairekakia. Mas pretendo salientar a observação que Tiffany Watt Smith faz de que os tempos hodiernos são a idade de ouro da alegria malévola (ou do gozo malevolente). As redes sociais, ao abrirem-nos múltiplas oportunidades para nos maldizermos uns aos outros, lisonjeiam os nossos instintos mais baixos e proporcionam-nos algumas miseráveis delícias.

 

   Perante tão afligente panorama, mais intensamente pensossinto a necessidade imperiosa de um pacto do regime democrático que veicule a construção política de um sistema de justiça que possa cumprir, tanto quanto possível, a sua finalidade, isto é, dar a cada um o seu direito: jus suum cuique tribuendi, dizia Ulpiano, que tanto gosto de citar. Tal aparelho terá, provavelmente, de ser concebido fora da lengalenga habitual da limitada imaginação política reinante, de forma a assegurar a sua imprescindível independência e a necessária transparência dos seus procedimentos. E para nos ir ajudando a acabar com essa praga de "processos públicos", tão tristemente marcados por intenções persecutórias e sanhas ou, ainda, em contradição, por habilidades e manobras dilatórias e encobridoras... Até chego a perguntar-me se, ao fim e ao cabo, não andarão por aí muitos mais culpados em liberdade (mesmo que relativa, vigiada ou condicionada), do que menos culpados em prisões.

 

Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira

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