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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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CARTAS DE CAMILO MARIA, MARQUÊS DE SAROLEA

Charles, Marquis de Montholon.JPG

Charles, Marquis de Montholon.

(Sem a numerar ainda - o que será feito na publicação final das dezenas de cartas do marquês de Sarolea que traduzi, e de que publiquei a maioria no blogue do Centro Nacional de Cultura - junto hoje mais uma ao acervo já conhecido):

Minha Princesa de mim:

Acordei cedíssimo, com essa angústia - a de não me sentir já capaz de acudir ao que devo - a magoar-me o peito. Abri a janela, anunciava-se ontem um dia cinzento e chuvoso para hoje, mas esta manhã vi o sol sorrir - e não é que é mais bonito esse sorriso quando rasga nuvens! - rezei e enchi-me de força. Falta-me humildade, bem sei, mas vou repetindo comigo "Tudo é graça!", até que talvez um dia finalmente entenda bem o que assim vou rezando. Na verdade, nunca fui capaz de rezar para pedir isto ou aquilo, não acredito que Deus seja sensível a "cunhas" e conceda, a uns, privilégios que recusa a multidões de outros, Deus não pode ser injusto. Apenas imploro o favor de entender, sobretudo nos momentos mais fracos da minha alma e vida, a graça silenciosa e invisível, essa que só a fé intui, a fé cuja substância é feita das coisas que devemos esperar... Coisas que não vemos ou não podemos entender. Talvez seja isso, essa força interior de procurar dizer o indizível, ou de continuar sempre em busca de entender o que quiçá não tenha, para já ou para logo, explicação ao alcance, que torna gémeos o artista e o cientista , e faça deles, consciente ou inconscientemente, seres religiosos. Porque a religião é, afinal, esse inquérito de uma vida, ao encontro do que acreditamos estar para além da ignorância, da perplexidade e da angústia. Queremos as coisas que devemos esperar, não por dever moral, muito menos jurídico, mas pela simples obrigação ontológica da nossa condição humana. A quaestio não é um mero exercício escolástico, só uma questão posta pela prática da racionalidade: questionar é procurar, é interrogar a noite e o silêncio, como ser perdido em busca de um caminho. Assim frei Tomás de Aquino é-me mais próximo pela contemplação como espera da visão, do que pelo discurso com vista à conclusão. Neste sentido, entro em comunhão com crentes de muitas religiões, com agnósticos, com ateus quiçá, com todos os que recusam a paixão dos nossos limites e por aí são amigos do mistério. Já te tenho dito que penso que há fé e fé. Tenho fé em Deus, nunca o vi, mas acredito que Ele se manifestou por Jesus Cristo, centro e motor do projecto de amor que deve construir cada um de nós e a história de todos. Não tenho outro modo de afrontar o absurdo. Mas essa fé não é uma evidência sensorial ou racional, antes se vive na prática do amor dos outros - o amor é, nesta vida, o modo permanente da fé - e na conversão contínua da dúvida em procura, e desta em esperança: fides est substantia sperandarum rerum. Talvez por assim pensar, eu me sinta tantas vezes mais solidário com aqueles que interrogam e buscam, do que com os que pretendem conhecer Deus com todas as suas contas, pesos e medidas. A gente abastada, segura da sua estabilidade material - como os que, sejam crentes ou ateus, estão tão só felizes consigo e suas ideias - dificilmente entrará no reino dos céus, no sentido de que dificilmente poderá sofrer como se interroga o desamparo, ou pensar como a esperança não é satisfação nem optimismo, mas é a resposta generosa que os pobres dão ao desespero... O desassossego é a condição de quem, nesta vida, como Paulo de Tarso, vê tudo como que refletido num espelho; ou, como frei Tomás de Aquino, depois de uma vida de trabalho intelectual incansável, percebe que "tudo o que escrevi é palha". Temos fé mas não vemos o objecto da nossa fé, por enquanto apenas entramos no reino do céu pelo amor dos outros. O Reino, minha Princesa de mim, não é deste mundo, na medida em que este mundo não exalta os humildes, nem sempre dá de comer a quem tem fome, nem gosta de sofrer prejuízo por amor da justiça. Mas o Reino começa já neste mundo, porque o Verbo se fez carne e habita entre nós, está bem vivo em cada humano gesto de fraternidade ou misericórdia, no coração de todos em cada vez que se faz ao mais pequenino aquilo que gostaríamos de fazer a Deus ou, melhor dizendo, que Deus gostaria que lhe fizéssemos. Não há espada nem decreto, guerra santa, apologética ou código canónico que o construa ou expanda. Só pelo amor mútuo, pela busca comprometida da justiça e da paz, se reconhecerá esse Império, que é o da vontade misericordiosa de Deus. Por outro lado, perdoa-me o desabafo, não consigo deixar de ver alienação religiosa na  prática de certas devoções, designadamente as que se prendem a promessas feitas a santos ou a aparições. O milagre cristão, para mim, faz-se pela incarnação de Deus em Jesus Cristo, acontece e repete-se pelo processo de conversão dos homens ao amor dos outros, à construção da justiça e da paz, sinal do Reino. Aí habita a minha fé. Tudo o mais é acessório, e pode, em certos casos, ser alienante, sobretudo na medida em que se pensarsentir que este ou aquele acto de devoção ou promessa obterá ao oferente um favor especial, bonificação à margem da economia geral da salvação. Cheira-me sempre  -  Deus me perdoe - a crendice pagã e interesseira. É oposta à abertura mística que por não se submeter à instrumentalização da relação religiosa - seja esta qual for - é a atmosfera de respiração do cristianismo. O general marquês de Montholon, que esteve com Napoleão em Santa Helena, escreve em carta publicada em 1840: Enquanto homem, Napoleão era crente. Enquanto rei, julgava a religião uma necessidade, um poderoso meio para governar... Mas creio que foi um padre corso, chamado Virgili, a testemunhar que Napoleão lhe teria dito, sobre Jesus Cristo: Tudo nEle me espanta, ultrapassa-me o seu espírito, confunde-me a sua vontade. Entre Ele e seja o que for deste mundo não há termo possível de comparação! Dou-te a mão, Princesa, e digo : Há! Há o amor que nos alimenta a vida. Só esse traduz a fidelidade, porque só ele  é deste mundo e do outro.


Camilo Maria 

Camilo Martins de Oliveira