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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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CARTAS DE CAMILO MARIA, MARQUÊS DE SAROLEA

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Minha Princesa de mim:
 

Escrevo-te mais esta, em maré de desabafos: problemas de saúde, muitas atribulações e algumas efemérides mais tristes têm-me desassossegado e cansado... Dirás que já tenho idade para ter juízo e deixar-me "dessas coisas", terás razão, como gostas, mas continuo a pensar que cheguei àquela fase da vida em que preciso do esforço de ter paciência para ter paciência. E tanto muito se vai tornando difícil para um espírito irrequieto como o meu, sobretudo quando me morde a impaciência que me provoca a repetição bacoca e socialmente correcta de opiniões "na moda"... Sinto muito que, em vez de se interrogar sobre as aberturas possíveis de caminhos de concórdia, justiça e paz, para um futuro melhor, tanta gente antes se entretenha com receios obsessivos, preconceitos que excluem, e até diabolizam, os outros, atitudes de negação e afrontamento. Lembras-te certamente de como discordei da eliminação da referência ao cristianismo na definição constitucional da Europa. Fi-lo porque a Europa como ideia e comunidade - apesar da grande diversidade de seus povos e línguas, e da efervescência desregrada  das suas bárbaras nações depois da queda do império romano - nasce e reconhece-se enquanto cristandade, e como tal se irá afirmando mais tarde, sobretudo face ao islão. Isto é história, não há que escamotear. Mas tal não significa que a comunidade europeia actual - e a própria cristandade que, já não a esgotando hoje, ainda maioritariamente a constitui - deva ser uma sociedade fechada e exclusiva. O próprio cristianismo se emancipou, não só da sua pátria europeia, mas, nela mesma, do Estado, abrindo-se a novas gentes e culturas e à contínua renovação da tradição dos seus valores e práticas. Não faz hoje sentido definirmo-nos em oposição ao islão. Muito pelo contrário, num mundo que se desenha pela proximidade obrigatória dos povos, culturas e religiões, ser profeticamente cristão é procurar o diálogo e a harmonia. Independentemente das suas religiões (muçulmanos, cristãos de várias tradições, pagãos ou demais) e etnias (árabes, berberes, bantus ou outros africanos), esses estrangeiros que vieram até cá, para servir nas nossas guerras e, depois delas, nos nossos estaleiros de obras urgentes e trabalho barato,  tal como, mais tarde ainda, no que já não queríamos fazer e entregávamos a esses trânsfugas dos regimes oligárquicos que a "nossa" vergonhosa descolonização instalou e apoiou - para desgraça de muitos e enriquecimento de alguns deles (e de "nós")  -  são e serão sempre, minha Princesa de mim, seres humanos, quiçá tantas vezes bem "superiores" a muitos da nossa gente, pela gentileza, a sageza e a cultura. Tive, eu mesmo, experiência de convívios enriquecedores e inesquecíveis, na baixa lisboeta, com guineenses tanto ou mais portugueses do que eu... Almoçávamos, eu bebia vinho (e bem!) e comia porco, eles não. Mas não dávamos por isso: cada um era o que era, a diferença não era razão de afrontamento, cada um de todos nós sabia, sabíamos todos, sem ter sido ensinados, que todos os homens se entendem, quando o coração é puro e os olhos não mentem. Somos todos crianças. O que é odioso, Princesa, é esta confrangedora incapacidade de olharmos uns para os outros, de dizermos e aceitarmos que nos digam o que nos vai no pensarsentir.. Porque a honesta franqueza não é insulto nem ofensa, é confiança e vulnerabilidade assumida. Penso, sim, penso mesmo, que é indispensável à nossa saúde mental que nos provoquemos uns aos outros. Mas atenção! Há provocação e provocação, desafio e desafio. É sempre bom, porque, incomodando, desperta-nos. Assim devemos entender - até com caridade cristã - o desafio que nos é feito. Mas - em nome da mesma cristã caridade - devemos querer que o desafio que lançamos não seja pretensiosamente destruidor, esmagador do outro, mas apenas uma acertada picadela que o alerte... Deverás saber, Princesa, que é muito difícil conseguir acertar a força do tiro, se esse for dirigido a portugueses, tão susceptíveis e carentes de encómios, tão falhos, por educação, de livre espírito crítico... Mas que, tantas vezes, tão levianamente poderão acusar outros e exigir-lhes mais entendimento do que a força humana pode dar... Não descanses muito, pois voltarei aos  desabafos; ou descansa imenso, para que eu volte mais vezes. Beijo-te a mão. Talvez a esquerda, não tanto por ser canhoto (essa mão é tua, não é minha), mas por ser tão desajeitado... 

Camilo Maria

Camilo Martins de Oliveira