Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

CARTAS DE CAMILO MARIA, MARQUÊS DE SAROLEA

Chateaubriand.JPG
Chateaubriand


Minha Princesa de mim:
 

A sina de um lusitano, "dum desses" que, como eu, andou por aí, é mesmo, mesmo quando não se mexe, ter surpresas, ainda que as não queira ou espere... Aliás, nem todas são más, e muitas há que trazem inesperados sabores à vida. Coisas pequenas, até, anedóticas talvez, divertidas, como essa entrevista do historiador conservador britânico Andrew Roberts, próximo de David Cameron e admirador da Senhora Thatcher, ao francês Le Monde, em que recorda um artigo que escreveu para a prestigiada revista americana Smithsonian, com o título "Porque estaria o mundo melhor se Napoleão não tivesse perdido em Waterloo"... Claro que o súbdito de sua majestade britânica logo porá os pontos nos pertinentes i: Esse título vai para além do meu pensamento, porque, enquanto inglês, não posso dizer tal coisa. Tendo-se travado a batalha, prefiro, evidentemente, que os ingleses a tenham ganho. Mas penso que Waterloo poderia ter sido evitada, porque Napoleão já não ameaçava a paz na Europa... Pessoalmente, como miríades de seres humanos, não sei se todas as guerras serão inevitáveis, apenas sintopenso que tudo sempre deve ser feito para as evitar. E quero acreditar que a paz é a nossa vocação, e a justiça - feita de prudência ou amor sagaz - a sua necessária condição. Mas antes de prosseguir na partilha destes pensamentos contigo, deixa-me confessar-te, Princesa, que fui sorrindo pela manhã adiante, depois de notar a surpreendente coincidência de alguma reserva ou eurocepticismo de Andrew Roberts, na mesma entrevista, com a referência à moeda europeia feita, no mesmo dia, em artigo publicado em Le Figaro, pelo historiador francês Jean Tulard, que faz sua a nostalgia de uma página das Mémoires d´Outre-Tombe, inspirada a Chateaubriand por uma visão de Talleyrand e Fouché a caminho de um conselho de ministros presidido pelo imperador : Subitamente, abre-se uma porta: silenciosamente, entra a diplomacia, apoiada ao braço da ordem. Esses dois pilares do governo ideal vinham jurar fé e menagem ao maior dos conquistadores. Chorei de admiração. E, depois de assim citar Chateaubriand, o professor Tulard, continua o exercício de imaginar como teria sido a história se Napoleão tivesse vencido: Instala-se a prosperidade, graças ao barão Louis, ministro das finanças. O seu lema é: "Fazei boa política, farei boas finanças". Instala um sistema censitário muito flexível que recompensa os que pagam imposto, que é então uma contribuição. Não há mais emigração, mesmo fiscal. A 18 de Junho de 2015, Sua Majestade Napoleão VIII desloca-se ao Mont-Saint-Jean, para aí celebrar a vitória do seu antepassado. Tinha, antes disso, emitido, em honra dele, uma moeda de dois francos. O franco germinal continua em vigor, já que o estalão oiro torna inútil uma moeda europeia... Pela sua parte, Roberts afirma que, no referendo britânico, votará pela saída da UE, se Cameron não conseguir repatriar um número suficiente de poderes de Bruxelas para Westminster... ...Creio no conceito de Europa de Margaret Thatcher. A pertença à UE é uma coisa boa, enquanto não entravar a soberania nacional. Atravessando o Atlântico, sou desta vez surpreendido, Princesa de mim, pela fé no risco, em oposição à desconfiança, pelo gosto necessário de entrar no futuro, em contracorrente à sonhadora saudade do passado, pela prudência enquanto amor sagaz, em substituição de uma cautela sem esperança. Imagina tu que fui cair de paraquedas numa revista em linha, produzida em Bogotá, na Colômbia. Chama-se Kienyke (traduz Quem e quê) e conta algures a história da reinserção social de cinco antigos guerrilheiros das FARC e três ex-paramilitares das AUC que, há pouco tempo atrás, formavam grupos bélicos opostos e que se combatiam. Cansados de uma vida (e muitas mortes) em esquadrões de guerrilha, saudosos das famílias, converteram-se à vida civil, essa em que os outros não se atacam, mas se reúnem. Não foi obra fácil: Logo depois de ter abandonado o grupo armado, sentia-me nu e, pela primeira vez, só, vulnerável e angustiado. Duvidava do êxito da iniciativa. As coisas foram mudando a pouco e pouco, à medida que esquecíamos os ruídos da floresta ou o dos explosivos durante os combates. Paulatinamente, fomo-nos pacificando e ganhando confiança... Com o apoio da Agência Colombiana para a Reinserção Social e da Fundação Carvajal (privada), levaram sete anos a reintegrar-se numa vida de trabalho, recebendo também formação profissional. Constituíram uma empresa, que já exporta para o México e continua a crescer. Somos hoje oito, todos motivados pelo desejo de conseguir. Foi para deixarmos aos nossos filhos um mundo melhor, que decidimos pôr os nossos diferendos de parte. Decidimos aproveitar esta oportunidade e a boa vontade dos organismos que quiseram ajudar-nos. Segue hoje esta carta, mais curta do que o habitual. Mas sabes bem que te escrevo para desabafar, sobretudo para partilhar contigo coisas várias - da vida, do coração e da cabeça. Não pretendo ensinar-te seja o que for, só não resisto ao gosto de te convidar ou desafiar para uma reflexão sentida. E, desta vez, abre-se um caminho subjacente às notícias e histórias que te trago. A percorrer sozinhos, mas de mão dada.

 

Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira