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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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CARTAS DE CAMILO MARIA, MARQUÊS DE SAROLEA

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   Minha Princesa de mim:

Durante uma semana, entreguei os momentos quotidianos  -  que, religiosamente, vou guardando para respirar música  -  à escuta de sinfonias (da 3ª à 9ª) do Bruckner, e do seu Te Deum, bem como da missa nº 3, pela Münchner Philharmoniker, dirigida por Sergiu Celibidache. Noutra carta, já te referira como sentia  - e também ouvira outros dizerem  -  que Bruckner não deixara uma extensa obra sacra, apesar de ser homem e compositor de profunda fé católica, porque as suas sinfonias já absorviam o lançamento da sua força espiritual. Curiosamente, descubro agora, no livrinho que acompanha esta edição da Filarmónica de Munique pela Warner Bros, duas referências complementares. A primeira conta-nos o encanto quase infantil de Celibidache, maestro activo aos 83 anos, que a música de Bruckner acompanhou toda a vida, no ensaio do scherzo da 9ª: Onde se encontra coisa igual? De um simples ponto de vista harmónico, é incrível a maneira como tudo se combina! Mas, com fé maior, no esforçado início de um  andamento lento, citando a Bíblia: Quem procura encontra. A segunda observação ali feita diz-nos o seguinte: A atitude de Sergiu Celibidache perante a vida e a música foi profundamente influenciada pelo zen. Um mestre japonês do zen descreveu um dia assim a direcção de Celibidache: "Uma música livre por mãos livres". O maestro romeno ficou célebre também pelos seus tempi, as suas interpretações sendo quase sempre mais lentas do que as de outros. Penso que tal se devia à sua concentração no que eu chamaria meditação musical. Disse ele um dia, respondendo a Furtwängler, que o tempo depende de "como isso soa"... Portanto, a maneira como isso soa pode ditar o tempo! o tempo não é uma realidade em si, mas uma condição. Se estiver em jogo uma diversidade considerável, precisarei então de mais tempo, se quiser fazer musicalmente qualquer coisa disso; se se passarem menos coisas, poderei então encadear-me mais depressa no que se segue..." Deve ser isso que tanto me atrai na música de que mais gosto: o tempo de meditação, essa abertura da alma. Esta semana, movido por um livro de que adiante te falo, voltei aos lieder da Winterreise do Franz Schubert, na interpretação pelo barítono Dietrich Fischer-Dieskau, acompanhado ao piano pelo Gerald Moore. Gravação de 1955, vê tu bem! Repeti a escuta do primeiro lied que, em letra de Wilhelm Muller (1794-1827), começa assim (as traduções são minhas):

          Estrangeiro aqui cheguei,

          estrangeiro daqui parti.

          Que bem me acolheu Maio,

          com flores que se abriam!

          A moça falava de amor,

          a mãe até de casamento...

          Empalidece agora a natureza

          e de neve se cobrem os caminhos...

   E o último lied, o 24º, canta assim:

          Além, por detrás do casal,

          está um sanfoneiro,

          que com os dedos magoados

          toca o que pode.

          Descalço sobre o gelo,

          vai cambaleando,

          e a malga que traz

          está sempre vazia.

          Ninguém o quer ouvir,

          nem há quem queira vê-lo,

          e rosnam os cães

          em redor do homem velho.

          Mas p´ra ele está tudo certo,

          seja o que Deus quiser,

          toca, toca e não deixa

          que a sua sanfona se cale.

          Diz-me, espantoso velho,

          se deverei ir contigo?

          Posso cantar o meu fado

          Ao som da tua sanfona?

   A viagem pelo Inverno é a peregrinação da vida. A caminho do fim, na 20ª canção, Die Wegweiser, um sinal de trânsito:

          Vejo ali um sinal de trânsito,

           indiferente ao meu olhar ;

           deverei seguir um caminho,

           pelo qual jamais alguém voltou.

   E eu, Princesa, muito portuguesinho, só me lembro, então, do José Régio, do Cântico Negro dos Poemas de Deus e do Diabo:

          «Vem por aqui»  --  dizem-me alguns com olhos doces,

          estendendo-me os braços e seguros

          de que seria bom que eu os ouvisse

          quando me dizem: «Vem por aqui!»

          Eu olho-os com olhos lassos,

          (Há, nos meus olhos, ironias e cansaços)

          e cruzo os braços,

          e nunca vou por ali... 

Decorei os versos e guardei o livro, com capa do Júlio Gil, que me foi oferecido em 1955...há sessenta anos! E, ao deparar com a data, dou-me conta, agora mesmo, que é desse ano a gravação do Winterreise que estive a ouvir! E reparo ainda que é de 2015, isto é, sessenta anos mais novo, o livro que me fez lembrar de tudo isto : Schubert´s Winter Journey : Anatomy of an Obsession, de Ian Bostridge, brilhante tenor inglês, historiador de formação, que interpretou mais de cem vezes essas canções com letra do Muller e música do Schubert, que as terminou no seu leito de morte, aos 31 anos de idade, explicando-se: Imagina um homem cuja saúde nunca mais será boa, e que, por simples desespero, torna as coisas piores, em vez de as melhorar; imagina um homem, digo-te eu, cujas brilhantes esperanças pereceram, e ao qual o amor e a amizade não oferecem nada melhor do que o sofrimento. Vale a pena leres o livro, como quem caminha e medita na longa peregrinação da vida, sempre longa, porque, morra-se novo ou velho, sempre morremos com saudade do que fomos, e saudade ainda do que esperamos ser. Escreve Bostridge: A Winterreise é uma das grandes festas do calendário musical: uma festa austera, mas que toca o indizível. Após o último lied, "O tocador de sanfona", é palpável o silêncio, essa espécie de silêncio que só uma Paixão de Bach pode invocar.
Com esse silêncio te deixo

                                           Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira

 

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