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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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CARTAS DERRADEIRAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA - II

 

Minha Princesa de mim:

 

   Coisa nenhuma nos custa sempre equivalente esforço - e menos ainda o mesmo dom - neste tempo de vida. Todos somos afeitos a caprichos de idades, com seus modos e tempos, bem diferentes, de sonhos e sabedorias, quiçá anseios e saudades tão insinuantes...que até nos fazem tomar-nos então e assim por nós mesmos, como se estar fora de qualquer circunstância em cada momento fosse a nossa habitação.

 

   É difícil - será sempre um desafio a sermos nós e para além de nós - esta consciência do humano que vive no tempo e fora dele. Nunca me curei desta loucura. Já há quase vinte anos, lembro bem, enviei-te por sms (short message service), como hoje se diz na nossa cultura anglosaxofónica, uma mensagem escrita no meu telemóvel, enquanto passeava no paredão de Cascais, refletindo essa funda impressão de intemporalidade de mim, da minha vida, que tantas vezes se me apodera. Todavia, desde pequeno que sou um maníaco da pontualidade, uma espécie de controlador do tempo cronológico. Sempre tive uma consciência aguda da minha situação no espaço-tempo, como minha mensurabilidade. Simultaneamente, um qualquer íntimo de mim recusa-se à medida, só vive e se sente vivo na intemporalidade. As minhas angústias não são pertinentes ao ignoto, no sentido deste as tornar necessariamente aflitas, frustrantes ou até depressivas, antes serão paradoxalmente alegres, felizes como aberturas sobre espaços infinitos e tempos incomensuráveis, logo impensáveis por nós enquanto tais. Esta manhã, acordei recordado de notícias dum universo em expansão contínua, de galáxias com milhões de estrelas solares, tão imenso e infinito que dele outra consciência não posso ter do que a da minha própria pequenez. Contudo, não me assusto perante essa dimensão que ultrapassa o meu próprio entendimento e sua capacidade, mas contemplo-a e, como diria o Ungaretti, ilumino-me, alumio-me de imenso. E é tão profunda e serena a alegria que habita esta minha íntima casa, moradia que o sentimento de intemporalidade me edificou... Acredito, aliás, que tal sentimento de estar bem no tempo que me é dado - partilhando modos e crises da existência humana - por nos "sabermos" simultaneamente fora dele, não é privilégio meu, mas uma certeza moral intimamente deparada por miríades de humanos da minha mesma condição, na consciência de que pertencem, desde já, ao intemporal do espaço infinito.

 

   Nota bem, Princesa de mim, que não estou a argumentar: apenas meramente vou narrando uma experiência de vida interior. Talvez por ser humano, o único ser capaz de viver e sobreviver fora da sua circunstância. Creio que a razão pela qual tanto e tantas vezes nos revoltamos é sermos paradoxo, o nosso próprio paradoxo. Nenhum animal é ateu, planta tampouco, e mineral nem sequer pensassente. Só nós, humanos, o podemos ser, isto é, podemos negar Deus, talvez, precisamente, porque também o podemos anunciar, já que, geneticamente, recebemos a ideia e o anseio do divino, nome que damos à transcendência do infinito intemporal. Na verdade, se não tem medida, nem tempo nem espaço, como poderá caber na nossa "cabeça"?  Afinal, "surfando" ondas hodiernas, não fará sentido perguntar se a fé é uma questão genética? Mas poderá tal questão ser respondida cientificamente ou, como há milénios, apenas nos resta, pacientemente, aguardar uma visão apocalíptica? [É curioso, cabe nota-lo aqui, que apocalipse tem, para muitos, o significado de catástrofe final, quando todavia quer dizer uma última alegria: revelação, descoberta.

 

  Deixo-te a interrogação a pairar, mas proponho-te uma meditação sobre dois testemunhos que talvez saibas referir a essa questão: o de uma certa forma de religião, ou religiosidade, respigado do livro História do Ateísmo em Portugal (Guerra e Paz Editores, Lisboa, 2010), de Luís F. Rodrigues; e o de tempos da morte, retirado de Un temps pour mourir (Fayard, Paris, 2018) de Nicolas Diat:

 

   1.- O último grande momento de religiosidade nacional sucedeu em 2004, aquando da participação do país no campeonato europeu de futebol. Por estranho que pareça, foi aqui que desaguaram, de forma evidente, todos os tiques, toda a essência da identidade portuguesa na sua mais profunda espiritualidade: fizeram-se promessas, rogou-se aos céus, idolatraram-se futebolistas, juntaram-se comunidades (em Portugal e na diáspora), reuniram-se famílias. Portugal fundiu-se numa única entidade monista, bem patente na febre de bandeiras nacionais desfraldadas em cada edifício.

 

   É óbvio que o desempenho devocional não é suficiente para garantir resultados - como, infelizmente, para as ambições futebolísticas nacionais, não garantiu - no entanto, é importante que se perceba que a ausência de resultados em nada desmontou o processo agregador então gerado. Instalou-se na mente de todos os portugueses que algo se tinha conseguido: uma vitória moral, a união de todos os portugueses numa causa, momentos de êxtase até então nunca experimentados. Ora, tudo isto é, claramente religião. Interessa apenas o «estar lá», estar de corpo e alma num projeto que solicita, de cada um, envolvimento e empenho inquestionado (ou, quando questionado - por exemplo, o desempenho de um treinador ou jogador - isso em nada fere o princípio de devoção exigido para a «causa nacional».

 

   Este texto vale o que possa valer - não o avalio - cito-o por me parecer ilustrador de como qualquer sentimento de pura transcendência não consegue ter tradição na cultura portuguesa, onde tudo tem de caber nos limites do alcançável, seja este uma possibilidade de facto real, ou apenas compreensível ou imaginável, pelas capacidades da nossa inteligência ou só no contexto dos nossos onirismos. Nesta perspetiva, a "fé" religiosa é da mesma natureza da crença ou "fezada" em que me saia a sorte grande ou a seleção nacional seja campeã mundial de futebol. E tudo se passará na temporalidade atual das vidas, as nossas fantasias, pessoais e coletivas, podem ser irrealistas (ou cheias de wishfulthinking) mas só teriam realidade possível no tempo/espaço em que sempre as situamos.

 

   2.- O grande passo é a finalidade de qualquer vida monástica, ponto sobre o qual frei Filipe sempre insistia. «A morte é o momento que esperamos. Morremos como vivemos. Também há situações extraordinárias. Acompanhei três dos nossos irmãos que se revelaram santos no momento da morte».

 

   Frei Filipe ficava feliz e comovido ao falar-me dos monges desaparecidos que tinham contado na sua vida. À medida em que a narrativa avançava, ia-me parecendo um rosário de palavras correntes e sublimes.

 

   Em 2005, o irmão José Maria rendeu a alma aos oitenta e sete anos. Diabético e insulinodependente, despediu-se com hemorragias internas sucessivas. Suportava a doença sem nada mostrar do seu sofrimento. Um dia decidiu deixar de tomar analgésicos. «Eu arranjava muitas vezes tempo para conversar com ele. Tentava compreender a profundidade exata da sua dor. As respostas eram sempre as mesmas: "O corpo está morto, mas o espírito vive". Citava com frequência S. Paulo na epístola aos filipenses (3, 21): "Jesus voltará para transfigurar o nosso corpo de miséria e conformá-lo ao seu corpo glorioso".»

 

   A crueza das palavras de frei Filipe pode ser chocante. Ele não quer esconder seja o que for do inferno dos males físicos: «Por acaso descobri que o irmão José Maria tinha hemorragias. Ao lavá-lo, pensei que sofria de incontinência, mas o afluxo de sangue mostrou-me que o problema era mais grave. Percebi que tinha os dias contados. Nada mais podíamos fazer, além de recolher o sangue que regularmente se lhe escapava.»

 

   ... Certo dia, estava ele sozinho no quarto, disse-lhe frei Filipe: «Então, frei José Maria, vai para o céu?» A resposta, dita em voz gozada, foi esplêndida: «Claro que sim, e vai ser uma festa de arromba!» Frei José Maria estava mesmo a morrer e estava alegre. Três dias antes da sua morte, ainda confiou a frei Filipe: «Procurei viver o Evangelho».

 

   Já neste texto, em que a realidade atual do ser na sua própria circunstância surge inescapável e muito dolorosa, se descobre essa tal intimidade com o intemporal, de que te falava, Princesa de mim. Aqueles monges, mesmo moribundos, não fogem de nada, não fantasiam. Começam a viver plenamente na misteriosa intimidade que certo dia os cativou. Este relato, que te traduzi de Un temps pour mourir - derniers jours de la vie des moines, de Nicolas Diat, foi escrito na Abadia de Cister. O livro recolhe testemunhos de monges beneditinos, cistercienses, trapistas, e outros, como de eremitas do Mosteiro da Grande Cartuxa, a tal, creio eu, em que se filmou o Silêncio. O silêncio que, há quem diga, estava antes de todas as vozes e era Vida. Que virá depois e ainda, quiçá cobrindo-nos, qual noite da ode pessoana, com o seu manto franjado de infinito. Ao pensarsenti-lo assim, ocorre-me que ele é intemporal, memória sem fim. Como nesta meditação de François Cheng, o sino-francês da Académie Française de que tantas vezes já te falei, Princesa de mim (em Cinq méditations sur la mort, autrement dit sur la vie, Albin Michel, Paris 2013):

 

                                                Não te esqueças dos que estão no fundo do abismo,
                                                Privados de fogo, de candeia, de face consoladora,
                                                De mão que socorra... Não os esqueças,
                                                Pois que eles se lembram das luzes da infância,
                                                Dos brilhos da mocidade -  a vida em ecos
                                                Das fontes em rajadas do vento -, aonde irão eles
                                                Se os esqueceres, ó Deus da lembrança!

                                               

   A morte é silêncio e é lembrança, como a vida antes de si. Será arriscado pensar assim, mas como diz Bernanos, a dado passo dos seus Dialogues des Carmélites: Devemos correr o risco de ter medo, tal como se arrisca a vida, eis que em tal risco se reconhece a coragem. Nicolas Diat não deixa de citar este dito, em epígrafe do livro que talvez lhe tenha sido inspirado também por estas palavras de François Mitterrand, então doente terminal, no seu prefácio a La Mort intime de Marie de Hennezel (Paris, Robert Laffont, 1995): Jamais a relação à morte terá sido tão pobre como nestes tempos de seca espiritual em que os homens, com pressa de existir, parecem escamotear o mistério.

 

   Mas escrevi-te esta carta, Princesa, a pensar no frei Bernardo Domingues, que certamente sempre entenderia bem melhor do que eu tudo o te quis dizer.

 

Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira