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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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CARTAS DERRADEIRAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA - III

 

Minha Princesa de mim:

 

    Entre os menus plaisirs que recordo no meu Éloge de la Jouissance, está este meu gosto de convívio, certo flirt com as palavras. Um namoro simultaneamente innocent, malin e inattendu... Inesperado sempre, como as surpresas, novidades súbitas que nos encandeiam e encantam; marotos, espertos como regatos de Tormes e, como tais, sempre inocentes. São bem felizes os que percebem que há maldades sem malícia. "Partidinhas". Assim me acontece pensarsentir que os prazeres são inocentes até serem "explicados"... Outros nem precisam de explicação, e mesmo assim nem sempre há quem os entenda.

 

   Por fortuito e furtivo acaso (haverá pleonasmo maior?), caiu-me sob os olhos uma tradução que fiz, aqui há uns anos, de um soneto de Petrarca:

 

 Zephiro torna, e´l bel tempo rimena, / e i fiori et l´erbe, sua dolce famiglia, / Et garrir Progne et  pianger Philomena, / Et primavera candida et vermiglia.

 

   Traduzi então esta primeira quadra assim: " Zéfiro volta e traz-nos brisa amena, / Tua família de verdura e flores! / Ria-se Eros e chore Filomena, / A Primavera é vermelha de amores!" Hoje, logo à primeira, surgiu-me melhor assim:

 

   Zéfiro volta e traz-nos brisa amena, / Tua família de verdura e flores! / Ria-se eros e chore Filomena, / a Primavera enrubesce de amores!

 

   E nestes dias de abertura da Primavera à nossa alegria, quanto gosto de a ver corar de amor! Na minha idade será como sol rubro do poente: mais fraco, mas incandescente... Lá diz o fado que Maria Teresa de Noronha tão bem cantava: a saudade é como a luz que o sol já morto deixou. Não há motivo de alarme, nem causa de tristeza. Apenas razão de outros sonhos, depois de desfrutado mais um menu plaisir.

 

   E, a talho desta minha foice de memórias pós-prandiais - hoje, não sei porquê, tão focadas no namoro das palavras - ocorre-me uma nota do professor Frederico Lourenço ao passo inicial da sua magnífica tradução do livro de Eclesiastes:   Vacuidade de vacuidades - disse o Eclesiastes -, Vacuidade de vacuidades: todas as coisas são vacuidade.

 

   Todos nos lembramos da tradução correntemente adotada: Vaidade das vaidades, e tudo é vaidade. Frederico Lourenço observa que, em grego, mataiótês (palavra que designa a qualidade do que é vão e, por isso "em vão"), em hebraico hebel (ilusão, vazio, inutilidade) que a Jewish Study Bible (Oxford, 2014) traduz como futilidade, tenha talvez uma tradução mais eufónica, mas simultaneamente mais atenta ao sentido profundo da frase, em vazio dos vazios: tudo é vazio.

 

   Pessoalmente, consigo dar-me com todas essas versões. Afinal, cada um de nós, em dado momento, respira a seu tempo e modo qualquer a mesma palavra. E eis que tal eventualidade pode sempre ser enriquecedora das nossas visões, desde que a prudência, esse amor sagaz, nunca se esqueça de chamar em nosso auxílio o nosso próprio espírito crítico. Neste instante, em que a camoeca da tarde me está afagando a costela mórfica, sonolento murmuro tradução minha: Oco, tão vazio - diz o Eclesiastes -, tanto vazio só vaidade pode ser... E penso em quanta vacuidade ouvimos e a quanta resistimos para não deixar de ser... Afinal, a versão latina da Vulgata (Vanitas vanitatum, omnis vanitas!), que traduzimos em português por vaidade das vaidades, tudo é vaidade!, diz bem a vacuidade, "emptiness", vazio, de tanto de nós... Ecclesiastes é o que preside à assembleia (ecclesia), na própria epígrafe do livro identificado como "filho de David, rei de Israel, em Jerusalém". Mas parece que o texto terá sido redigido bem mais tarde, mesmo já depois de Cristo, tal nos lembrando que o verbo latino da mesma raiz de vanus (vão) e vanitas (vaidade) é vano, vanas, vanare (minto, mentes, mentir).

 

   A partir daqui, talvez possamos rever, por outra perspetiva, a ideia de que o livro do Eclesiastes é obra pessvbimista, no sentido de dissuasora de qualquer esforço humano, já que tudo é vão, oco, vazio, frívolo, fútil, inconsistente, inútil, enganoso, pérfido, falso - todos estes termos sendo algumas das traduções oferecidas pelo Diccionário LATIM-PORTUGUEZ, Etymológico, Prosódico  e Orthográfico, editado como "propaganda de instrução para Portuguezes e Brazileiros", em 1922, pela Livraria Francisco Alves (Rio de Janeiro) e pelas Livrarias Aillaud e Bertrand (Paris-Lisboa). Coisa fina, democrática e progressista, como se pode ver...

 

   Ao fim e ao cabo, o Senhor Eclesiastes apenas terá querido, desejado ou pretendido prevenir-nos contra os enganos possíveis das nossas próprias ilusões. De como as palavras nos ensinam muito mais do que soem dizer... Namorar com elas é como deixar sonhar o coração...   

 

Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira

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