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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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CARTAS DERRADEIRAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA - V

 

Minha Princesa de mim:

 

   Mona Ozouf, historiadora, professora universitária francesa e bretã (o bretão foi a sua língua materna), em entrevista recente a Jean Birnbaum, para o jornal Le Monde, quando a Flammarion publica um livro que amigos vários lhe dedicam, pelos seus 88 anos de idade (Mona Ozouf. Portrait d´une historienne), faz declarações que profundamente me tocam, até pela proximidade com temas, caminhos e interrogações que há muitos anos venho percorrendo. Traduzo-te, mais abaixo, uma pergunta que Birnbaum lhe faz e a pertinente resposta da historiadora. Mas deixa-me, antes, destacar desta uma frase que especialmente me atingiu, verás porquê: Para além das semelhanças, há todavia uma diferença fundamental entre 1789 e o atual movimento dos «coletes amarelos»: estes não sonham com futuro, estão na imediatidade. Esta palavra, pela qual traduzo immédiateté, não aparece em dicionários da língua portuguesa, mas atrevo-me a ela por me soar a um conceito distinto de imediatismo, no sentido de mais envolvente, como cultura. Talvez sem razão. Creio já te ter contado que, a seguir a um dos meus jantares com o Rogério Martins, ali no Grémio Literário, talvez um ou dois anos antes da sua morte, subindo a pé a rua Garrett, o nosso diálogo se preocupava com a esterilidade e tacanhez de grande parte da conversa política portuguesa. E eu lembrava ao Rogério os anos derradeiros do Estado Novo, os movimentos em que nos esforçávamos por sair do pântano em que se afundava a vida nacional, procurávamos abrir portas e janelas, para deixar entrar e respirar ar, ideias e projetos. Entristecia-me falar de tudo isso como se fosse já passado estéril, pois tínhamos sonhado com outro futuro coletivo, para hoje, afinal, darmos connosco a debater-nos na confusão de interesses imediatos. Foi então que o meu Amigo e Mestre, parou, pôs a mão no meu ombro e disse esta verdade simples: Nós tínhamos esperança, Camilo, vivíamos dela! Nas cartas que te fui enviando por estes tantos anos de utopias já varridas, tal como noutros escritos meus, de uma ou doutra forma andei quixotescamente lanceando fantasmas e velas de vento... Pelo menos assim julgaram muitos, quiçá menos atentos à insídia de forças mascaradas que vão transformando a bondade de ideias inspiradoras de bem fazer, e de propósitos motivadores das obras possíveis, em andaimes de construções destinadas ao bem estar de alguns. E tal aflige muito, quando nos descobrimos num mundo que insiste em orientar-se pela imediatidade (e imediação) do lucro e do prazer, proposta universalmente veiculada pela robotização da, ainda assim, chamada «comunicação». Perceberás melhor agora, minha Princesa de mim, porque me tocou cá dentro o trecho da referida entrevista que ora traduzo da secção Idées de Le Monde de 25/03/2019: porque põe em cena a imediatidade como cultura, isto é, como meio ambiente ou circunstância do pensarsentir hoje predominante. À pergunta:

 

- «Nós queremos igualdade real ou morte!», resumia o revolucionário Gracchus Babeuf. Quando temos na cabeça a memória de 1789, devemos ter especial atenção ao movimento dos «coletes amarelos», ou não? - responde:

 

    Os «coletes amarelos», na verdade, inscrevem-se na reivindicação da igualdade real. O problema é que a igualdade real é uma quimera. Não podemos «realizá-la» num mundo onde a natureza e a história semeiam desigualdades de toda a espécie.

 

A igualdade, portanto, só pode ser um horizonte, a tal ponto que os verdadeiros defensores da igualdade são aqueles que se propõem, não proclamar a igualdade real, o que está ao alcance de cada qual, mas reduzir laboriosamente as desigualdades, o que é completamente diferente.

 

   Quanto ao resto, lá que os «coletes amarelos» recuperam uma linguagem, uma simbólica e problemas que me remetem para a Revolução Francesa, é evidente que sim! Pense só nas queixas ou no problema da representação, que é concomitante à Revolução, quando a gente dos Estados Gerais chega a Versailles, com os bolsos cheios de reivindicações locais. Tal continua sendo, para mim, o mistério da Revolução: como é possível que essa gente, portadora de reivindicações contra os abusos da justiça senhorial ou a favor da abertura de um caminho vicinal, pode tão depressa batizar-se «Assembleia Nacional»?

 

   Ora, a partir do momento em que o faz, deixa de ser mandatária, essencialmente encarregada de levar até "lá acima" a reivindicação. Abre-se então a distância entre representados e representantes, o que continua a ser, hoje em dia, o nosso problema. Trata-se de saber como vamos conseguir proteger os representados da arrogância dos representantes, e estes da vindicta daqueles... Para além das semelhanças, há todavia uma diferença fundamental entre 1789 e o atual movimento dos «coletes amarelos» : estes não sonham o futuro, estão na imediatidade. As mulheres e os homens que entravam em revolução em 1789 herdavam das Luzes e tinham grandes ideias sobre o que poderia ser uma sociedade perfeita.

 

   Todos nós, afinal, com mais ou menos luzes, temos ideias sobre como e quão perfeita poderia ser uma sociedade... Mas "poderia" talvez mais queira dizer pudesse do que ser possível... A subtileza de tal distinção remete-me para essa saudade súbita da frase do Rogério Martins que dizia: Nós tínhamos esperança! Então busco por aí esperanças perdidas - não no sentido de serem já desesperos, mas porque não as encontramos logo, perdidas que estão entre a algazarra tão ruidosa das propagandas que dão pelo nome politicamente correto de "informação". São utopias bonitas de gente que sonha e quer construir futuros pelo humano, com o humano, no humano. Algo que, por só ter sentido na consciência da nossa humanidade como condição comum a todos, consegue levantar do chão e movimentar mesmo quem pensava ter o sofrimento por destino, e agora descobre uma boa nova que liberta e pode construir as solidariedades que são abrigo e lareira da nossa humanidade. Em África, e noutras partes do hemisfério sul americano e asiático, há hoje gente que se organiza para que os seus povos, as suas comunidades, respirem mais livres de ditaduras do poder e do dinheiro. Ditaduras que soem ser sempre vistas como políticas, porque, afinal, nos esquecemos de que podem residir em nós próprios, que somos alimentados por uma cultura sem jeito de ser porque logo ferozmente preocupada com fazer e ter...

 

   E outra gente - bem mais jovem, até porque menos envelhecida pelo uso do materialismo soez que o nosso modelo socio económico quer impor - chega mesmo a manifestar-se urbi et orbi pela proteção devida à Terra, casa de todos nós! Toda esta gente tem esperança, não se perde nem gasta em tricas políticas para reivindicação do alcançável tostão a mais - para a satisfação dos egoísmos - mas põe o olhar e as forças da vontade nesse horizonte misterioso em que, sendo humanos, descobrimos sempre a terra prometida! A verdadeira raiz dos problemas que hoje mais nos afligem, mas também perturbam a ordem social estabelecida não se encontra, evidentemente, nessa mesma possível desestabilização - até porque esta muitas vezes se justificará como último recurso para uma concertação da justiça que, entretanto, tanta gente tem ignorado. Antes vem do facto de o solo donde tudo isto surge ter vindo a ser revolvido por uma cultura nefasta, materialista, gananciosa, hedonista e imediatista. A crise do sistema socioeconómico e, consequentemente, do regime político das democracias hodiernas deve-se à lógica desumana gerada pelo próprio funcionamento de sociedades e economias sem transcendência possível, viciosamente girando sobre si mesmas, na busca de um horizonte imediato de satisfações mensuráveis e generalizadas. Assim se vão os fins esgotando nos seus próprios meios, e por estes. O drama fulcral do materialismo é não entender que, por definição, a matéria se esgota ou se torna obsoleta, e é perecível, determinada pela própria circunstância do espaço-tempo em que, por definição, existe.

 

   Só o espírito liberta, pois só ele sabe contemplar o mistério e desafia-lo, inventar soluções novas e ter esperança no que não vê, em vez da ganância ilusória do aparentemente alcançável... Temos visto, minha Princesa de mim, no meio de tantas infelicidades e desgraças, acidentais ou consentidas, que afligem populações inteiras, muita solidariedade humana, gestos e feitos de grande generosidade. Aí deve fortalecer-se a nossa esperança em dias melhores para todos. Assim possa tão generosa gente ser também cada vez mais visionária, para melhor poder prever e acautelar o porvir: a justiça, o respeito da dignidade humana, da liberdade e igualdade dos filhos de Deus, não se obtêm apenas socorrendo ou acorrendo ao mal já acontecido, permitido ou provocado. São necessariamente obra fraterna, construída a partir da consciência inicial de que é impossível ao espírito ético negar aos outros - ou, mais simplesmente, não providenciar - que tenham aquilo que não consentimos nos seja negado ou retirado.

 

   Doutra perspetiva, poderemos falar de manifestações "à coletes amarelos", refletindo nelas como crises entre o apelo da Utopia, no sentido etimológico de Thomas More (isto é, Nenhures ou o Lugar inexistente) e o da Retrotopia, título feliz da última obra de Zigmunt Bauman (isto é o Lugar atrás, dantes, o Passado), cuja edição original, em inglês, é da Polity Press, em Janeiro de 2017. Desse tópico ou "lugar" anti utópico se alimentam os populismos hodiernos, desde o Brexit a outros nacionalismos xenófobos, com maiores ou menores, e mais ou menos argumentáveis, saudades de passadas grandezas... O primeiro apelo, o que aponta o tal lugar que não existe, mas que o nosso mais íntimo sentido do humano pede que exista, é a verdadeira utopia, evangélica até no sentido da vontade de renovação da face da terra. Muito me alegrou, por exemplo, ver tantos jovens, em todo o mundo, manifestarem-se pela necessidade urgente de acudirmos à saúde da casa de todos nós... Qualquer revolução, no sentido de conversão a melhor mundo e melhores gentes, só faz sentido na fraterna alegria da esperança

 

Camilo Maria 

 

Camilo Martins de Oliveira