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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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CARTAS NOVAS À PRINCESA DE MIM

 

Minha Princesa de mim:

  

   Seguem, neste mesmo correio, três cartas para ti. Escrevi-as de fio a pavio, envio-tas juntas, para que as leias no mesmo contexto. Cada uma a seu tempo, como manda a paciência própria de quem sabe saborear momentos de partilha.

 

   Para meu concerto pós prandial, neste início de tarde morna, ao nono dia de um Setembro que se anunciou quente, escolhi escutar umas áreas de música de câmara, da primeira metade do século XVIII, compostas - repara bem, Princesa de mim - for a violin and through bass by Mr. Richard Jones... O registo de que disponho é o do Beggar’s Ensemble, gravado em Poitiers, de 27 a 30 de outubro de 2017, que para o efeito utiliza um violino, um violoncelo, um violone, duas violas da gamba, um fagote e um cravo. As quatro peças deste programa - com, respetivamente, três, sete, quatro e quatro andamentos cada - foram escolhidas e organizadas, de modo a criar uma operazinha instrumental à volta de Richard Jones, conta, na apresentação do disco, Tom Namias, que eu não conheço: o contínuo, muito rico e variado, foi escolhido para reforçar a teatralidade das árias, e criar o efeito de um coro, com personagens diversas a responder ou acompanhar o discurso do violino. A força bastante moderna desse contínuo também valoriza a escritura rítmica excecional de Jones e o seu gosto por frases assimétricas e rebuscadas.

 

   Como explicar tal independência, tal virtuosidade de escrita, nesse homem que, pela informação disponível, nunca estudou com os grandes deste mundo nem, muito provavelmente, andou com eles? Como conciliar a obscuridade em que se mergulhou a sua obra, e o seu aspeto absolutamente revolucionário?  E, fossem quais fossem as razões, que ensinamentos dali poderemos recolher, passados três séculos?

 

   Jones é homem do seu tempo. Vivendo numa Londres cosmopolita e debochada, embebedada por qualquer gin de má qualidade, ele vai buscar, a essa assustadora beleza cacofónica da cidade à beira do desabamento, a inspiração necessária à criação duma obra maior do século XVIII. 

 

   Confesso que, para mim, sem preconceito nem qualquer formação musical aplicada, me maravilhou este concerto tão livremente escutado no silêncio bucólico de uma tarde dolente, quase outonal, sem vento, sequer, a bulir nos campos verdes que avisto. E esqueci as arruaças pintadas pelo William Hogarth (1697-1764) na quarta (Chairing the Members, 1758) das suas Four Prints of an Election, que ilustra a capa do disco produzido pela editora Flora, embora tenha apreço por esse pintor sarcástico da Inglaterra do século XVIII. Tempo de guerras, iluminismos, filósofos e debochados, ditadores e fomentadores de revoluções, libertinos e devotos, o século XVIII - mais do que tudo isso, e mesmo, até, dos esplêndidos edifícios e decorações que nos deixou - talvez tenha sido sobretudo um século de música. Porquê? Além de muitos outros temas de estudo da nossa condição, esse século das luzes, das perucas, talcos e perfumes, do maneirismo e galanteio, do urbanismo e da engenharia (lembra-te da "baixa" pombalina, dos esgotos de Mafra, do aqueduto das águas livres) foi, mais do que isso e a "Passarola" do padre Gusmão, tempo de conspirações e governos autoritários. E o reverso de disso tudo, na vida dos espíritos livres, na literatura, na música e, até, na religião... Foi o tempo em que os hiatos do poder foram sendo ocupados, e em que o paradoxo da condição humana mais dialeticamente se demonstrou. Nas colónias de emigrantes britânicos na América do Norte, esses perseguidos e fugitivos das suas pátrias de origem, para além da reprodução, mutatis mutandis, ou, mais claramente, do estabelecimento, em seu favor, das estruturas socioeconómicas que os ostracizaram, ainda iniciaram movimentos de ocupação de novos territórios, com os governos de colónias, recém independentes da coroa britânica, a violentar as vidas e os direitos dos povos autóctones e dos escravos africanos importados. E, em Portugal, quantos edifícios, da coroa ou privados, sobretudo religiosos, com suas talhas douradas, terão sido pagos com ouros do Brasil?

 

   Tão cheio de contradições e caminhos perdidos, o século de Mozart e dos enciclopedistas, dos direitos do homem e da razão (redescoberta, deslumbrada e logo deslumbradora), foi o do despotismo iluminado, e terminaria pela Revolução Francesa, que também abriu novos campos de batalha e ressuscitaria impérios, repúblicas, calendários não cristãos e velhas monarquias. Por cá, reconstruiu-se exemplarmente Lisboa, logo após o Terramoto (com maiúscula), rolaram cabeças da alta nobreza, expulsaram-se jesuítas, Bocage foi-se divertindo e sofrendo, além de ser popular pelo verso e a pilhéria... Entretanto, a sábia Alcipe, uma Távora, escrevia e compunha poesia ao jeito clássico. Além de tudo o que ninguém pode negar, quiçá inspiradas por toda aquela cacofonia, surgem obras musicais sublimes, óperas brilhantes, elegantes e vigorosas sinfonias, sonatas e peças para câmara que, dos seus instrumentos, tiram espantosos sons e vibrações, que se harmonizam como se a função da música fosse extrair beleza para entendimento e perdão da desordem do humano mundo.

 

   [Sou, só por isso, levado a evocar outro tempo, este hodierno e nosso, que assim também se deixa mostrar, como nessa frase do celebrado Abbé Pierre: Temos de andar sempre com os dois olhos bem abertos, um a ver a miséria deste mundo, o outro a beleza do inefável. O que já levou alguém a clamar pelo testemunho da música minimalista ou pós-minimalista, como a dita zen, do compositor Gavin Bryars. Conta-se que este, no seu jeito de compor a partir de objetos achados (tal como artistas plásticos reciclam) se terá, certo dia, emocionado com a gravação abandonada de um canto, que lhe pareceu religioso, na voz de um homem idoso, sem abrigo : Jesus Blood never failed me yet... Decidiu aproveitá-la para nova obra sua, tema musical que se foi desenvolvendo pela integração de outros instrumentos a sustentá-lo. Tornou-se, quando publicamente executado e no seu registo magnético, um dos seus maiores êxitos].

 

   Regressando ao século XVIII, reencontramos Haydn e Mozart, mas também, com seu estilo italiano, o alemão Haendel em Inglaterra, Domenico Scarlatti na Ibéria, onde começou por ser mestre da capela real de D. João V e professor da infanta Maria Bárbara, a qual o levou para a vizinha Espanha, quando por lá se casou e fez rainha... E também, desta nativos, António Soler, conhecido pelo seu vigoroso fandango, e outros sonatistas como Josep Gallés e José Ferrer, próximos, no modo, doutro italiano amante da nossa península: Luigi Boccherini, famoso pelo seu minueto, mas também pelo quinteto em ré maior, para cordas, guitarra e castanholas (1798), cujo fandango se ergue ao nível dos melhores autóctones. Tudo isso é uma plêiade de músicos e suas obras a fazer vibrar e reunir-se uma Europa cheia de contradições e paradoxos, onde grandes igrejas e bibliotecas, no esplendor do seu barroco terminal, a pedir um neoclássico que já se anuncia, concorrem com a animação intelectual dos cafés em moda e os novos cultos maçónicos. Entre os maiores, contamos também portugueses, como Carlos Seixas que, pelos seus quinze anos, pediu a Domenico Scarlatti que o recebesse como discípulo. Diz-se que, ao ouvir a sua prova, o mestre italiano ficou tão embevecido que o dispensou, considerando-o tão bom ou melhor do que ele próprio... Ou o alentejano Sousa Carvalho e António Teixeira, autor da música de A Guerra do Alecrim e da Manjerona, cujo texto, como o de outras óperas, fora escrito por António José da Silva, o Judeu. Nascido no Brasil, a ele se devem muitas peças e libretos de óperas, representadas sobretudo no Teatro do Bairro Alto, antes de ter sido entregue pela Inquisição, após julgamento, ao braço secular e ter sido então executado. Aquele teatro era apenas um entre vários já desparecidos, o maior tendo sido a Ópera do Tejo, que o terramoto de 1755 destruiu. Quase quarenta anos depois, concretizar-se-ia um projeto iniciado ainda no reinado de D. José, e muito apoiado pelo intendente Pina Manique - que dali contava tirar receitas para apoio à Casa Pia: o nosso, sempre de pé, São Carlos, ao Chiado.

 

Camilo Maria

Camilo Martins de Oliveira

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