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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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CARTAS NOVAS À PRINCESA DE MIM

 

Minha Princesa de mim:

 

   Não te escrevo para cumprir o prometido devido. Venho fazer-te companhia, e assim também me sinto acompanhado. Escrever é não querer a solidão. Não é bem o mesmo que não querer estar sozinho, a solidão não é física, antes é sentida por essa parte do nosso humano, a tal que não sabemos exatamente o que é, e à qual chamamos espiritual. No passado, muitas vezes te disse que a solidão se me parece à morte, acontece-me pensarsentir que ela é a incomunicabilidade, essa impossibilidade de nos encontrarmos em relação. Pois, humanos, somos necessariamente em relação: cada eu e a sua circunstância. E, ainda, o invisível, o Inefável. Tomás de Aquino tinha uma oração, que recitávamos no colégio, antes de cada primeira aula do dia, e começava por esta invocação: Criador Inefável! Dirigíamo-nos ao invisível, ao inenarrável, a pedir-lhe a fortaleza necessária para enfrentar mais um dia da nossa vida, que seria, como todos os outros, mais um percurso no desconhecido, nessa realidade que insistimos em chamar futuro, apesar de não sabermos, à partida, se, como, e quando virá a existir. Não precisamos de esperar pela morte para saber que uma boa parte de nós é um mistério mergulhado noutro mistério maior. Afinal, todos os dias aprendemos que o caminho da nossa liberdade humana, movida pela inteligência e pela vontade, é o da busca incessante das nossas relações, pois só elas nos realizam e nos explicam... Sobretudo, são essas relações que nos vão ajudando a construir a Relação cujo apocalipse é o triunfo da Vida. Então também lhes podemos chamar «referências».

 

   Quando vivemos os dias e semanas sequentes à morte de um ente querido, podemos experimentar reações inesperadas, tais como nos lembrarmos de lhe telefonar, para contar um episódio, partilhar um pensarsentir, estender uma interrogação. Digo inesperadas, porque não as construímos racionalmente, de modo previsível. Por isso mesmo, pensando melhor, talvez também pudesse dizer que são expetáveis: na verdade, elas obedecem a esse impulso vital, muito profundo, essencial, que é a nossa necessidade inata de comunicação. Quiçá mesmo biológica: quem lidou ou lida com crianças pequenas, ou ainda em gestação, perceberá melhor esta minha intuição. O ser em relação é tão inicial e perseverante que até pode viver noutra circunstância. E assim chego eu, novamente, Princesa de mim, à dimensão divina do humanismo cristão, que vive na permanência do amor: Nós sabemos que passámos da morte para a vida, porque amamos os irmãos. Quem não ama, permanece na morte (1ª Carta de São João, 3, 14).

 

   Mas hoje, Princesa, vou deixar as meditações que me assaltam, para dar um passeio contigo por entre outras que me ocorreram a partir de uma metáfora do ser pessoal em ser cultural. Explico-me. Melhor: começo por deixar-te uma explicação do professor de Relações Internacionais na Universidade de Queensland (Austrália), Christian Reus-Smit, no seu On Cultural Diversity - International Theory in a World of Difference (Cambridge University Press, 2018):

 

   As culturas - sejam elas estruturas mentais estratégicas, nações, civilizações, ou mentalidades coletivas - são geralmente imaginadas como coisas coerentes: integradas, diferenciadas e fortemente constitutivas dos respetivos efeitos...  ...Mas partirei de uma posição completamente diferente. Devemos começar por assumir a diversidade cultural existencial, assumindo que o terreno cultural em que a política joga é polivalente, estratificado, riscado por fraturas muitas vezes contraditórias, muito longe de estar coerentemente integrado ou ligado. Como argumenta Andrew Hurrell, «são precisamente as diferenças das práticas sociais, valores, crenças, que representam a expressão mais importante da nossa humanidade comum... O que nos torna diferentes é precisamente o que nos faz humanos».

 

   Se recuarmos a 1871, encontraremos a definição inicial de Edward Tylor: Cultura ou Civilização é todo esse complexo que inclui conhecimento, crença, arte, moral, lei, costumes, e quaisquer outras capacidades e hábitos adquiridos pelo ser humano enquanto membro de uma sociedade. Assim, poderemos dizer que qualquer «cultura» é a circunstância arquetípica da sociedade que se lhe refere, ou que ela envolve. Simultaneamente seu produto e sua condicionante, resulta, de cada vez à sua própria maneira, da relação como um corpo social se estabelece no seu meio ambiente - tal como, já no século XIV/XV, defendia o mouro Ibn Khaldun, de quem te falei já em cartas antigas - e, depois, do modo dialético como se for organizando, económica e politicamente. Curiosamente, o pensamento do vitoriano Tylor foi-se orientando, e até fez escola, no sentido de pretender que, assim explica Reus-Smit, todas as culturas têm características semelhantes, resultantes de causas comuns, pelo que, consequentemente, todas formam parte de uma história humana uniforme... Sem negar o alicerce comum da nossa humanidade, um dos mais famosos críticos das teses de Tylor, o norte americano Frank Boas, embora concordando na verificação de feições culturais reaparecidas em diferentes culturas (quando estudamos a cultura de qualquer tribo, mais ou menos análogas feições de tal cultura se poderão encontrar entre uma grande diversidade de povos, escreve ele no seu Race, Language , and Culture - University of Chicago Press, 1940), irá, todavia, negar vigorosamente que elas tenham necessariamente as mesmas causas : Não podemos afirmar que a ocorrência do mesmo fenómeno é sempre devida às mesmas causas e que, portanto, a mente humana em toda a parte obedece às mesmas leis.

 

   É nesse sentido que, de forma enfática, te repito, Princesa de mim, que aquilo que nos torna mais humanos é a tal diferença que faz de cada um de nós um ser outro do que todos. Sendo que o próprio alicerce da nossa comum humanidade assim nos modelou, todos e cada um, à própria imagem e semelhança de Deus. A tal que nos iguala e nos proíbe de julgar que há pessoas ou culturas superiores ou inferiores. Por isso nos disseram já que Deus é tudo em todos, e aprendemos que o paradoxo humano é o seu valor divino.

 

   Isto assente, sou levado a uma perspetiva dialética das histórias pessoais, como das dos conjuntos sociais que, no decurso do tempo nos vão congregando em movimentos que, tal como cada pessoa face às outras, nos colocam em situações de afrontamento, não necessariamente conflituosas, apesar da própria propensão a sê-lo... Por isso mesmo, tal perspetiva dialética nos poderá ensinar a melhor entender a evolução dos povos, nações, estados, culturas e civilizações, sobretudo se soubermos apanhar essa subtileza de que qualquer confronto poderá parecer-se mais ao encontro do dó com o ré - o tal que, conta António Vitorino de Almeida, gerou o mi, assim nascendo a música - do que a um catastrófico choque de civilizações, como no pesadelo do Huntington.

 

   Espanta-me muito - não só no sentido de me pôr boquiaberto, mas sobretudo por me afugentar o gosto de conversar racionalmente - a moda "viral", como hodiernamente se diz, de se proclamar o drama fatal do declínio e queda do «Ocidente», isto é, da "cultura e civilização ocidental". Pelos tempos que correm, é relativamente fácil saber-se, por aí, que as culturas em que pensamos não são propriedade de ninguém, como, aliás, exemplifica a nossa própria cultura, que outras várias geraram e variegadas gentes nos legaram... E não esqueças, Princesa de mim, que o próprio Huntington foi nebuloso na circunscrição geográfica do «Ocidente» cultural. Niall Ferguson, no seu Civilisation (2011), observa bem que a definição hoje mais conhecida da cultura ocidental, a de Samuel Huntington, no Choque das Civilizações, exclui a Rússia e todos os países de tradição ortodoxa. Aplica-se apenas à Europa Ocidental e à europa Central (sem o Leste ortodoxo), à América do Norte (sem o México) e à Australásia (Austrália e Nova Zelândia). A Grécia, Israel, a Roménia e a Ucrânia não passam no teste. Nem as Caraíbas, quando, pelo menos algumas delas são tão ocidentais como a Florida.

 

   Deduz Ferguson que o Ocidente é mais do que simples noção geográfica: Um conjunto de normas, de comportamentos e de instituições com fronteiras muito nebulosas... Sem querer agora discutir contigo, Princesa, pormenores e fatores constitutivos dessa tal ideia de «Ocidente» - coisa que quiçá farei mais tarde - deixa-me só dizer-te que, hoje em dia, o conceito de cultura ou civilização ocidental é memória histórica, isto é, entra numa categoria conceitual que nos serve de referência para um entendimento do passado. É também, e sobretudo, um mito a marcar o panorama das nossas angústias, medos e desilusões espantadas... Tal não quer, todavia, significar que esse conceito, geograficamente tão vago, seja vazio, destituído de conteúdos próprios, ideais, valores, instituições... Pelo contrário, muitos destes ainda hoje orientam as condutas de muitos povos deste mundo, nem é preciso ser-se europeu ou de raça branca, do hemisfério norte ou do ocidental para nos referirmos a esse complexo de padrões, modelos e estilos de vida a que chamamos cultura ou civilização ocidental. E mais ainda: do mesmo modo que as sociedades nórdicas e ocidentais vão adotando normas, usos e costumes de outros povos e lugares, também nestes se vai impondo uma cultura crescente (por vezes, até, um verdadeiro culto) de valores e referências a que gostamos de chamar nossos; tal como nós, quiçá infelizmente, tendemos a desertá-los...

 

   Chegamos mesmo a ser surpreendidos com inesperadas novidades : à cultura do Iluminismo atribuímos a libertação do espírito crítico entre nós, com o consequente reforço da racionalidade, o declínio da crendice e, até, da própria religião, e um triunfo progressivo das correntes agnósticas e ateístas do pensamento ocidental ; contudo, é no mundo islâmico que hoje mais rapidamente se vão afirmando correntes de opinião sem Deus nem religião, enquanto nas sociedades do ocidente geográfico se vão anichando movimentos que cultivam espiritualidades que, embora estranhas ao cristianismo, a muita gente impõem meditações e motivações da vida humana elaboradas por culturas de alhures, não necessariamente deístas, mas tampouco ateias.

 

   Niall Ferguson pergunta: Mas será verdadeiramente possível uma sociedade asiática tornar-se ocidental se adotar as regras de vestuário e comerciais do Ocidente - como faz o Japão desde a época Meiji - e como hoje, parece, faz quase toda a Ásia? Outrora, chegou a dizer-se que o «sistema-mundo» capitalista impunha uma divisão permanente do trabalho entre o centro - o Ocidente - e a periferia - o resto do mundo. Mas que se passaria se todo o mundo se ocidentalizasse? A menos que as outras civilizações - como defendeu Huntington - se revelem mais resilientes, designadamente a civilização chinesa e o Islão com as suas «fronteiras e vísceras sangrentas»? Em que medida a sua adoção do "modus operandi" ocidental não passará duma modernização superficial sem enraizamento cultural?

 

   Pessoalmente, ainda creio que, precisamente por ser variavelmente dialética (se assim me posso exprimir), a história dos povos, culturas e civilizações não é linear, nem facilmente previsível, passeia muitas cores, pela sombra e pela luz, não é verticalmente a preto e branco, ou seja, ou escura, ou luminosa... Voltarei a esta questão - tal como em correspondência passada tu e eu, Princesa de mim, falámos de inculturações e confrontos - em cartas próximas. Por hoje, permite-me que te deixe com uma orientação a que muitas vezes recorro, na edição francesa (Gallimard, Bibliothèque de la Pléiade, Paris, 2002) da Autobiographie e de Muqaddima de Ibn-Khaldun (Túnis,1332-Cairo, 1406), magnificamente apresentada por Abdeselam Cheddadi. Traduzo breves trechos, mas uma lição com mais de seis séculos.

 

   Ibn-Khaldun insiste em ver a história como ciência que investiga os factos, de forma crítica e procurando entendê-los com inteligência. Assim, haverá quem veja o lado de fora da história que, desse modo, se reduzirá a narrativas de dias gloriosos e de dinastias, não se dando conta de como essas narrativas nos dão a conhecer o estado das criaturas e as mudanças que afetaram as suas condições, nem de como se expandiram as dinastias e se estabeleceram na terra até desaparecerem. E haverá outros que a veem do interior, tornando-a investigação especulativa e verificação, estudo minucioso das causas e princípios das coisas existentes, conhecimento aprofundado das circunstâncias e das causas dos acontecimentos.

 

   Ia já assinar esta carta, quando deparo com um artigo de Francisco Bethendourt, professor no King´s College de Londres, intitulado Emancipação (Público, 30 de julho de 2019) e, a respeito da abolição da escravatura, lembrando que a ideia de superioridade implica visão hierárquica entre culturas superiores e inferiores que está desatualizada. E alegra-me, Princesa de mim, poder terminar esta citando esse historiador de prestígio internacional, sobre temas que tanto te referi em cartas antigas : A vantagem de uma atitude de recusa de preconceitos é facilitar a tradução de experiências alheias e produzir um conhecimento acrescido de outras culturas, nas suas formas de resolver conflitos, obter trabalho recíproco, acolher estrangeiros, estabelecer regras comunitárias, relacionar-se com a natureza, mobilizar investimento, recolher informação ou desenvolver reflexão...   ... É esta atitude de abertura e hospitalidade perante outras culturas que nos deverá estimular no presente e no futuro, em lugar de mantermos uma visão virada para um passado mitificado que ignora ruturas, lutas e conflitos entre perspetivas completamente diferentes.

  

Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira

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