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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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COM ÉMILE ZOLA E GEORGES BERNANOS

6.   N O V A   C A R T A   S E X T A

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Minha Princesa de mim:

Nesta, finalmente, te falo do caso Dreyfus. Sobretudo pelo que ele nos convida a examinar em atitudes nossas que, generalizando suspeitas ou antipatias, ou estendendo preconceitos, acabam por nos levar a juízos temerários e injustos. Para além do bom senso, da prudência e da justiça, a nossa propensão a desunir, dividir, separar e excluir, condenar e abominar, leva-nos a rotular os outros, ou o diferente, conferindo entoações e sentidos pejorativos a designações de identificação que, ainda por cima, vão alcançar e abranger pessoas e grupos que suspeitamos e pretendemos agredir, mais do que defini-los conformemente à realidade: pretos, padres, comunistas, maçons, judeus, eis alguns dos muitos exemplos desses temerários e injustos vocativos... Nomes circunstanciando conceitos mal definidos em nebulosas mentais, correspondentes, o mais das vezes, a frustrações ou ódios particulares. Injúrias. Insultos que apenas resultam no aumento de tensões e afrontamentos, concomitantemente à diminuição da lucidez e capacidade de diálogo. Resumindo: uma irresponsabilidade, a que, mais vez,  menos vez, nem sempre fugimos... Nas cartas que te vou escrevendo, Princesa  -  como noutros textos que publiquei  -  por várias vezes me referi, pensando na circunstância actual da "globalização", a essas questões, condicionantes do diálogo e da convivência, que acima menciono. Tal como insisti na importância da identidade, da consciência de si, para ser possível, no respeito mútuo da diferença do outro, todos sabermos do que falamos e em que termos o devemos fazer. Este domingo, curiosamente, as leituras bíblicas contam-nos o episódio da queixa que os discípulos fazem a Jesus, por terem visto um homem, que não era do grupo deles, expulsar demónios. Ao que o Mestre responde: Não o proibais, porque ninguém pode fazer um milagre em meu nome e depois dizer mal de mim. Quem não é contra nós é por nós. O bem e a razão não são monopólio de um grupo só, ou de uma só religião. Também Moisés, outro judeu, quando Josué, seu dedicado servidor, lhe disse que outros profetizavam, e ele devia proibi-los, respondeu: Estás com ciúmes por causa de mim? Quem me dera que todo o povo fosse profeta, e que o Senhor infundisse o Espírito sobre todos! A diferença de identidades não exclui ninguém da comum dignidade humana, nem dos planos de Deus. Mas sobre a definição da identidade...falaremos noutro dia. Hoje, curiosamente também, li uma entrevista ao historiador britânico (mas francófono e francófilo) Sudhir Hazareesingh, de quem recentemente falei, sobre o receio de perda de identidade francesa que hoje atravessa o discurso dos pensadores gauleses, da direita até à esquerda. Transversal. A dado passo, afirma ele: Há uma tendência muito actual para diabolizar tudo o que é "outro"...   ...Tudo o que é "outro" é representado como uma ameaça para a "identidade francesa", essoutro sendo, quer o estrangeiro (a Alemanha, os EUA, o mundo árabe e muçulmano), quer o minoritário (as feministas, os homossexuais, os imigrantes, etc.). Ainda curiosamente, fui dar com outro entrevistado, o historiador francês Patrick Boucheron, que adianta: Uma poderosa interpelação política exorta os historiadores a tranquilizar-nos sobre a antiguidade, a consistência e a clausura da nossa identidade. Face a este veneno contemporâneo, que pode a história?...   ... A procura apaixonada da identidade é contrária à própria ideia de história, essa ciência da mudança social, que conta a maneira como os homens e as mulheres, em sociedade, se tornam senhores do seu destino. Contrariamente ao que afirmam os apóstolos da identidade nacional, a história não é providencial: nada está previamente escrito. Quando a história se deixa apanhar numa armadilha identitária, limita-se ao "já escrito", consente nessa teologia do inevitável que é a catástrofe por vir. O único pensamento crítico válido, é compreender que outras opções são possíveis. A história continua porque está continuamente aberta. Não se contenta com o que foi, mas permanece acolhedora a possíveis porvir. Essa será, talvez, a única lição da história: a certeza de que a cada momento se inventou algo que não estava previsto... Penso que Émile Zola, no caso Dreyfus, também percebeu isso. Para além da defesa da inocência de um homem ( mesmo que este fosse um pedante, rico e femeeiro) que, aos olhos de muitos, simbolizava a nova burguesia francesa, com o seu luxo exibicionista, a sua insensibilidade social, e a falta de escrúpulos que a levou a tantos escândalos, financeiros e outros, havia que apontar o dedo a uma classe militar e política, cúmplice dessa mesma burguesia, e que, para se safar do intolerável escândalo da alta traição cometida no seu seio (espionagem em favor do inimigo alemão), entendeu sacrificar um dos seus que, por ser judeu, seria bode expiatório mais facilmente aceite pela opinião pública. Despachava-se, assim, o processo e... não se falava mais no assunto! O culpado  --  que, evidentemente, nunca poderia ser um oficial "francês de gema"  --  era "outro", intrinsecamente estrangeiro, malevolente e indigno de confiança. Não se identificava com a França, era um estranho. Edouard Drumont, por muito que detestasse as classes dominantes  -  e corajosamente tivesse levantado, bem mais do que Zola, o seu protesto contra a carnificina repressiva da Comuna  -  não se libertava do seu complexo antissemita: o judeu, e o seu gosto pelo Dinheiro, envenenava as virtudes autênticas da França. Errou. Foi em Maio de 1896, no Figaro, como já te disse, que Zola começou a contestar publicamente a campanha antissemita de Drumont, e só em finais desse ano ele melhor conhecerá, na sequência de um encontro com Bernard Lazare (autor de Une erreur judiciaire. La vérité sur l´affaire Dreyfus), o processo judicial que, em 1894, condenara à deportação, por espionagem em favor da Alemanha, do capitão de família judia. Mas só em Novembro de 1897, depois de ter notícia da descoberta, pelo tenente-coronel Picquart, de provas incriminatórias de Esterhazy (o culpado, que ainda será absolvido antes de ser finalmente condenado), Zola iniciará uma série de artigos no Figaro, questionando as acusações contra os judeus, incluindo no caso Dreyfus. Terá de interromper essa campanha naquele jornal, dar-se-á conta, também, da sua relativa ineficácia, no meio do marasmo geral perante a ebulição antijudaica, o que o levará a mudar de tática e, na sequência da absolvição de Esterhazy pelo conselho de guerra, em 11 de Janeiro de 1898, publicará, em toda a primeira página do jornal L´Aurore, no dia 13, a sua carta ao Presidente da República, Félix Faure, sob o veemente título J´Accuse...! O jornal logo vendeu 300 mil exemplares! E, é claro, o governo logo moveu uma acção em tribunal contra Zola, por insultos às forças armadas, etc., tendo o escritor sido condenado, por crime de difamação, a um ano de cadeia e três mil francos de multa. Só que a agitação começara, e o caso passou de simplesmente judicial a político, ganhando foros de interpelação à consciência moral da França. Substituiu-se a pena de prisão por exílio em Londres, que durou de Julho de 1898 a Junho de 1899. Neste mesmo mês, no dia 3, dois dias antes do regresso de Zola a França, é anulada a sentença que condenara Dreyfus em 1894. Mas o capitão só será reintegrado em 1906, já depois de ter assistido à vitória eleitoral da esquerda radical nas eleições de 1902 e, a 5 de Outubro desse ano, às exéquias de Émile Zola, falecido em 29 de Setembro. Todo este processo e a sua circunstância estão eivados de intenções, actos e factos, tristes e sórdidos: falsificaram-se documentos e provas, suicidaram-se falsificadores, tramaram-se intrigas e escamotearam-se revelações; mesmo depois de anulada, em 1899, a sentença de 1894, logo em 1900, as Câmaras do Parlamento aprovaram uma lei amnistiando todos os envolvidos no processo, isto é, misturando os culpados, tardiamente acusados, julgados e condenados, com os inocentes, que já haviam pago pelo que não tinham feito, incluindo nestes o tenente-coronel Picquart que, por ter levantado o véu lançado sobre a culpabilidade de Esterhazy, iniciara o caminho da salvação da honra do exército francês. (O que não impedira, antes entusiasmara, os perseguidores a julgarem-no por falsificação de provas, quando mostrou que o autor do memorando entregue aos alemães fora, efectivamente, Esterhazy). O polemista e justiceiro Zola, jornalista e escritor de combate, fora sobretudo um romancista romântico e naturalista que, em vinte romances, compusera, com genealogias e hereditariedades minuciosamente preparadas, o percurso de uma família pelo Segundo Império : os Rougon-Macquart. Nessa saga convivemos com uma época e uma sociedade dominadas pelo oportunismo, pela ganância, pela luxúria, em que sobressaem, aqui e ali, algumas personagens com outra densidade espiritual, talvez por isso mesmo desaparelhadas, desadaptadas, quase como os Misfits de Arthur Miller, ou os de This side of Paradise do Scott Fitzgerald, no desfazer do sonho americano. Agnóstico, Zola iniciará  --  como em carta anterior te conto  --  a redacção dos seus Quatre Évangiles, no exílio, em Londres, uma espécie de regresso laico a valores cristãos... Tenho pena de não conseguir achar, hoje, aqui, na floresta dos meus livros, cópia do texto original de El Mal del Siglo, de Miguel de Unamuno, mas leio umas notas, já velhinhas, de leitura minha. Ocorre-me o mesmo por contraposição à coragem e ao sonho do Zola que, apesar de tudo, acredita ainda na possibilidade de vidas conduzidas por valores e esperança. O texto de Unamuno que ora recordo  --  e que anuncia o grande Del Sentimiento Trágico de la Vida (1911)  --  data de 1897, sofre também dos males de fim de século, e contra eles procura igualmente reagir. Refere, curiosamente outra vez, de acordo com os meus apontamentos, o eloquente suicídio do "poeta nihilista" Antero de Quental, como símbolo da vaidade de todas as coisas e da morte eterna como única saída. Mas, contrapondo-o de outro modo a Zola, registei nas minhas notas um passo de Unamuno, que, apesar de traduzido por mim, não andará longe do original: Mesmo que a razão se tenha tornado ateia, o coração continuou a ser cristão, e é do coração que jorra a fé. Devemos esperar mais duma alma cristã arrancada ao ateísmo do que dum deísta cristianizado...   ... a razão deísta acaba por afogar Deus no mundo e dissolvê-lo. Deus não se prova, não pode provar-se, sentimo-lo. Deus não é racional, é cordial...   ... É abandonando a Razão e a Vontade que procuraremos o Amor. Deus é amor, e o amor é mais forte do que a morte...   ...Uma só coisa é necessária: a fé, que é amor. E o amor é justiça. Georges Bernanos também foi jornalista e escritor de combate. Nascido numa família da média burguesia francesa, católica, conservadora e monárquica, herdou valores tradicionais e uma visão do mundo que pretendia arrumá-lo no quadro desses valores. Mas foi sempre fiel ao mandamento novo, tal como Unamuno acima o formula. Foi isso que o ajudou a também nunca perder nem esperança, nem coragem, a falar com liberdade interior e independência. Tarde se fez romancista, mas as suas histórias contam-nos a exigente aventura da graça de Deus na vida dos homens, têm heróis que são padres, são habitadas por forças obscuras mas sempre presentes, como em Dostoievsky. Acaba aqui, Princesa, este passeio que, de mãos dadas com Zola e Bernanos, eu dei contigo. Ou talvez não acabe, e por novos horizontes se vá prolongando...
Dou-te a mão

                      Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira

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