Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

CRÓNICA DA CULTURA

QUE SE LEVANTEM OS SUSPEITOS!

  


Há um Portugal profundo que já desapareceu.


Os lugares de pão amassado pelas mãos das gentes, o lavrar, cavar, semear, podar, a debulha, a empa, o diálogo dos ofícios no uso das malgas, dos lagares, das eiras, dos alambiques, do carro de boi, do arado, da grade, do malho, da candeia, do chocalho, o gado e as capoeiras de campo aberto, tudo se esfumou como se nunca tivesse existido aquela vida e os instrumentos de a fazer naqueles lugares.


A relação entre as pessoas da lavoura, naqueles locais e naquelas naturezas, deveria ter-nos levado a compreender corpo e laboratórios de sentires e de fazeres diferentes que, em verdadeiras equipas multidisciplinares, executavam soluções procuradas com imaginação, criatividade e solidariedade.


As várias intimidades da vida, viviam-se de formas distintas de tudo o que são as experiências urbanas, pois que ali o vento sempre foi mais igual ao vento, e as abas das terras, corpos carnais dos riachos, por lá corriam ao caminho dos moinhos de um deus.


A razão das bebedeiras, das ladras dos cães, dos ovos das galinhas, dos esgares dos partos, do partir dos filhos para guerras ou para os estudos, pois que a mão do padre ajudara, tudo eram feições desta vida sofrida entre goelas que afinal a deixavam num lado de cá de tudo, numa cena sempiterna.


Era tão importante termos entendido a tempo, o quanto o beijo do milho-rei já estava a ser obrigado a transformar-se num exercício de despedida dos encontros de amor de então; o quanto as expectativas das sensualidades das vindimas, das constituições das famílias futuras, dentro daquelas arenas da vida, já se procediam em ausências por detrás das casas transumantes de um frio.


Os últimos viveres destas populações - às quais nunca se prestou a atenção de os ajudar a um conforto mínimo na labuta do que nos alimentava -, são hoje suportados em solidões absolutamente incompreendidas e consequentemente cruéis, já que nunca se interpretou sequer a razão das hortas serem o lugar do semear, do crescer e do regar dos mimos.


Mesmo quando os filhos das gerações de aldeões de então, os trazem a viver nas suas casas em condomínio na urbe, a ausência da comunidade do leite, o ATL que substitui o brincar dos netos nos campos de tapetes de carqueja, é algo que só conduz a uma obrigatória e definitiva infelicidade.


Nascer, crescer e morrer junto à Mãe-Natureza criou-lhes rotinas no acender do fogo na terra-chão das cozinhas, quando todos eram a infância uns dos outros, e por esses laços se seguravam por debaixo dos cobertores de papa, os colchões de carolas de milho que muito arranhavam o corpo, e até muitas substâncias da ideia-esperança.


Por ali, e daquele modo, amargamente duro, se criou conhecimento primordial, um conhecimento que não reclamou direitos, mas que era o participante insubstituível a que sobrevivêssemos nós, no nosso caminho.


E afinal, abandonámo-los, isolámo-los e aceitamos que eles, com humildade selada, se resignassem nas suas tremendas fragilidades, à sua sorte, tão inclusiva no desamparo.


Ir embora destes lugares começou a ser a transformação de uma extinção numa outra realidade.


As visitas de tantas músicas nas festas das aldeias com os DJ em cima das camionetas, começaram a interessar às gerações do êxodo que só regressavam no agosto.


A nova realidade surpreendeu os fazedores de alimentos do mundo de então, surpreendeu a comunidade, surpreendeu as pedras, as serras, os rios, e sobrepôs-se numa aventura sem respeito, aos seus diálogos com a vida.


O despovoamento de muitos dos lugares a que nos referimos, é agora algo colmatado - sobretudo depois da pandemia – pelo descobrir de vontades de uma vida mais simples e mais natura, mas definitivamente distinta da que temos estado a referenciar.


Estamos a escrever do lado da incompreensão a uma existência que tinha um objetivo, uma existência surpresa, corpo, unidade, luta, rugas e maçãs de rosto rosadas pelo dom do percorrer amor e outras verdades.


Escrevemos também do lado das ruínas de todas as casas mortuárias, afogadas bem fundo pelas barragens, traços exaltados da nossa evolução.


QUE SE LEVANTEM OS SUSPEITOS!


Teresa Bracinha Vieira

4 comentários

Comentar post