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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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CRÓNICA DA CULTURA

MAGIA

Não eram contos de belas impossibilidades aqueles contos que escrevia. Eram sim, contos não verdadeiros com o memorável poder de contar muitas verdades.


 

 

Fazia como que um escuro, estava muito frio e uma névoa coalhada pegava-se às roupas de domingo. O padre já estava no altar depois da sineta ter tocado. António, logo tentou caçar um lugar a jeito que lhe encapuchasse um pouco de calor entre os presentes.

Estava pouca gente naquela missa, a aldeia era de velhos, e o gelo das manhãs uma aflição às quedas nos carreiros até à Igreja.

Mas eu vim incumbido de rezar por todos e tenho na memória os pedidos a Deus e ainda o meu. E que a tia Gracinda tenha boas novas do hospital e que o tio Aires não bata na tia São, e que o Tio Eduardo não continue a cair na tentação dos demónios do vinho, e que haja força para a massa do pão e para malhar na lenha, e que o Rola, defunto marido da Maria Clara, esteja bem, e que todos arreneguem o mal ámen.

«E por mim te peço nesta minha oração, que será pouco dita na terra, mas recebe-a por muitas aí no céu, ámen-Jesus, para que me saia este pesadelo que tenho sentido no peito de que a minha vaca vai morrer no parto.»

Na volta, o vento ainda desfechava rajadas, António estudava o piso onde colocava os pés e ia pensando «E se hoje fosse Natal e ele nos trouxesse Menino? Ai! que até já me achego a que tudo vai correr bem.»

Arrastara o velho portão, depois, pegara num pavio por luz, e todo aquele pátio que só expunha pobreza, lhe pareceu de repente um presépio: o pavio, uma estrela, o seu cão, uma ovelha silenciosa e tranquila à entrada do curral, e tudo de tal modo mágico que nem um padre-nosso lhe pareceu adequado. Havia ali uma autoridade que rompia qualquer entendimento e António cingiu-se humildemente ao que via, acreditando.

Logo lhe coube o regalar-se com o belo bezerro ainda a fumegar do corpo, e os olhos da mãe, num abono de paz do seu menino-filho, e ela a lambê-lo numa meiguice indizível como quando em paz, alguém consoa.


Teresa Bracinha Vieira 

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