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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

CRÓNICA DA CULTURA

COMIGO ESTÃO OS OUTROS


1.
Com quem conversamos quando ficamos calados mais tempo?

Há telhados e portas, noites e janelas, e por elas aquele anjo que já me perguntou no dia anterior se o queria amanhã à mesma hora.

Claro que sim. Disse. Sou-te imprescindível. Ou o inverso. Propomo-nos, enfim. Como as cerejas nas prosas. Propomo-nos.

E um pouco de sal?

É que, às vezes, tenho o coração dissuadido.

São muitos os pormenores do mundo, tantos que até durmo desperta.

E logo nós em cima do tapete que voa, tu, anjo, e eu, janela fora

e poderoso é o fôlego face ao tempo predador do tal sal, e tu, anjo na conversa já só alertas que a sede com bagagem é pior e que levo muita.

Entendo, mas para lá do invólucro, tudo pesa pouco. Respondo.

Acresce que conheço as lesmas tão bem como tu, são ranhos arrastados de subjetividade com pouco interesse na versão adulta,

como se afinal, ao longo de todos esses anos de errância, tivesse havido um destino.

E voamos, e a nossa vitória imensa consiste em ver,

juntos e afadigados, eu em ti e tu em mim e nós um único

no tudo da ocasião festiva que bem se presta ao selo de qualidade, pois nos tornamos cúmplices por achadores

nas horas dos sem palavras quando tudo, tudo no ali e no agora nos é impertencente.

Mas acresce sempre uma razão,

uma razão que me habilita a viver com ou sem exército desertado:

é que comigo,

comigo estão os outros

aqueles que não têm senão a si mesmos para contar sonhos, saguões, pesares e fomes das sobremesas da vida

e que poderiam ler meus versos se eu os escrevesse que,

mesmo pobres,

existiriam no vaso de uma janela por aí e também,

por vezes, na minha


2.

Com quem conversamos quando ficamos calados mais tempo?

Convencida de que são meu centro

tenho amigos sem sapatos e sem relógios e sem casas e sem pais.

Ninguém os conhece.

Saem à noite das prisões.

As sentinelas sabem como ser


3.

Com quem conversamos quando ficamos calados mais tempo?

Podemos viver quase por completo na imaginação.

Lembra-te que por seres cego

não me podes tocar com teu olhar

mas porque te vejo

não preciso de mais nenhuma proteção


Teresa Bracinha Vieira

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