CRÓNICA DA CULTURA
VARIAÇÕES
1.
E as moscas andam de luto assumindo que assim tudo fará sentido.
As moscas nascem para uma espécie de treino, mas não se movem.
As moscas são atraídas pela luz e olham lá para um fora que não é algo
e rodopiam, rodopiam de olhos vermelhos trancados atrás de redes já muito usadas para outras coisas antes mesmo do primeiro ano nascer.
As moscas recebem medalhas, condecorações diversas e riem-se desconhecendo que o mundo é uma pequenina coisa, rudimentar, aproximada.
As moscas visitam drogarias, ourivesarias, igrejas, entram nos aeroportos novamente e novamente e umas após outras compram
os jornais de todas as manhãs.
As moscas não são apanhadas de surpresa.
As moscas não esmorecem nunca
e regressaram sempre aos hospitais
de luto
e continuam a dizer obrigado
obrigado
2.
Aquela mosca específica
pensou que via a diferença diminuir, embora esta persistisse.
A mosca, teimosa, acreditava e punha o mundo
a contraluz
3.
A mosca sentava-se na areia junto à água
e trancava-a entre as pernas.
4.
A mosca tem uma vontade familiar
que implica oposição à mudança
5.
E há uma recusa absoluta de fazer perguntas
- tão completamente-
que giram e giram e giram
as moscas
até que não existem.
Finalmente, finalmente começam a abrir-se
os chumbos que prendem os tornozelos,
a morte já parece algo significativo
e o que nos resta
está livre
de um outro modo
Teresa Bracinha Vieira