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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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CRÓNICA DA CULTURA

VARIAÇÕES 

  


1.

E as moscas andam de luto assumindo que assim tudo fará sentido.

As moscas nascem para uma espécie de treino, mas não se movem.

As moscas são atraídas pela luz e olham lá para um fora que não é algo

e rodopiam, rodopiam de olhos vermelhos trancados atrás de redes já muito usadas para outras coisas antes mesmo do primeiro ano nascer.

As moscas recebem medalhas, condecorações diversas e riem-se desconhecendo que o mundo é uma pequenina coisa, rudimentar, aproximada.

As moscas visitam drogarias, ourivesarias, igrejas, entram nos aeroportos novamente e novamente e umas após outras compram

os jornais de todas as manhãs.

As moscas não são apanhadas de surpresa.

As moscas não esmorecem nunca

e regressaram sempre aos hospitais

de luto

e continuam a dizer obrigado

obrigado


2.

Aquela mosca específica

pensou que via a diferença diminuir, embora esta persistisse.

A mosca, teimosa, acreditava e punha o mundo

a contraluz


3.

A mosca sentava-se na areia junto à água

e trancava-a entre as pernas.


4.

A mosca tem uma vontade familiar

que implica oposição à mudança


5.

E há uma recusa absoluta de fazer perguntas

-  tão completamente-

que giram e giram e giram

as moscas

até que não existem.

Finalmente, finalmente começam a abrir-se

os chumbos que prendem os tornozelos,

a morte já parece algo significativo

e o que nos resta

está livre

de um outro modo


Teresa Bracinha Vieira