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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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CRÓNICA DA CULTURA

Um prado de livros, qualquer que seja o suporte que o dá a ler


Um prado de livros que não apague o contexto, o motivo, a informação com conhecimento, o processamento profundo e o acesso à imersão sensorial do mundo.

Um prado de livros sem a pressa de avançar mais rapidamente do que a nossa capacidade de compreender.

Um prado de livros próprio de quem tem um pensamento crítico.

Naomi Baron, que tem investigado as diferenças entre a leitura online e em meio impresso, refere que "A verdadeira questão é saber se a extensão e a complexidade conceptual, a memória, a concentração e a reflexão, serão potencialmente perdidas pelos atributos da leitura no ecrã que nos conduzem a um novo normal".

Pode-se crer que, num ecrã, existe a franca possibilidade de se avançar na página, saltando e criando o hábito da «hiperleitura» que James Sosnoski refere e que é bem distinto da leitura lenta associada ao livro impresso.

Sosnoski defende que a leitura é um processo contextualizado e interativo e que a leitura deve ser entendida como processo cultural, social e político, pois é uma verdadeira atividade de reconstrução de sentidos.

No caso da hiperleitura, a satisfação instantânea parece também colher e pode fazer perder o apetite para uma leitura focada de longos períodos.

Enfim, digo que a fisicalidade do livro, o segurar o livro e virar-lhe as páginas, olhar para ele e repensá-lo, sempre foi como as canções que me exprimem melhor o que sinto. O livro nas minhas mãos é todo um compromisso com os canais de acesso às bibliotecas num exercício não isolado; é o entender a composição do solo que retém a fundamental água.

A eficácia mágica do livro permanece uma realidade que me permite sentir prosperar sem receio de que se deteriore ou afaste o que agrupa a humanidade no ver-se de perto.

A auto-reflexão que possibilita as páginas de um livro, enquanto movimento de liberdade (ler para libertar), impede a regressão a autoritarismos e possibilita o imaginar e o fazer acontecer algo melhor.

Desconhecendo o futuro, imagino que o livro impresso e o digital existirão numa civilização de prados mistos.

Irão, seguramente, continuar a existir objetivos de monopolização de saberes comandados pelos poderes que não têm a função de divulgar o conhecimento crítico.

Contudo, e na verdade, as ameaças, em qualquer época, nunca estiveram ausentes e até assumiram pressões muito concretas. Mas quero tender a acreditar que os seres humanos são uma espécie resistente e que a necessidade de ler e cultivar os prados de livros que nos oferecem fantásticas razões pode co-responsabilizar-nos pelo conhecimento e salvar-nos.


Teresa Bracinha Vieira

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