Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

CRÓNICA DA CULTURA

A DOENÇA DO MOFO 

  


A realidade era repressiva, castradora, humilhante.

As vexações impostas pela cultura do medo e da pequenez medíocre testemunhavam o que se queria apagar.

Um certo luto constante era conveniente porque deveria extenuar a luz. 

A presença da morte era assim desejada e dava jeito daquele jeito, pois mantinha as inércias e as mentalidades atoladas na resignação e no temor.

Assim, tudo o que não chegasse a vir à tona da vida era bem-vindo.

E o que era a vida nesse tempo? Era uma obscuridade humilde, um hábito cinzento- integrado, o oposto de ação, de afirmação, de decisão, de alegria, era a vitória da praça aberta aos adultos infantilizados, reduzidos aos mínimos irreversíveis.

Naquele tempo de muitas missas disciplinares, a atividade pasmosa das cabeças das mulheres cobertas pelo véu alimentava os discursos políticos à maneira, discursos que impunham o cheiro a mofo como o princípio a respirar.

Nada tinha real importância.

Tudo era relativo para que as consciências nunca gritassem ou rebentassem.

O poder era exercido na impunidade total como um prolongamento natural do que converge.

O tempo devia passar na zona do esquecimento e por lá se ficar.

A vida social fora normalizada anos a fio e a mofo e nela se devia festejar a oportunidade.

E tinham lugar acontecimentos absolutamente trágicos como a perda de vidas por força da brutalidade que tudo regia.

Mas as dores, as dores absolutas que daí advinham, deviam ser sofridas na mais completa obscuridade, esfarelando as próprias lágrimas, desapercebidamente.

Todos deviam obedecer ao polícia, fosse ele quem fosse, fora e dentro da casa de cada um.

Não havia debates, nem com regras predeterminadas que muito obliterassem a espontaneidade. Nada se podia arriscar.

Os circuitos abafadores e redundantes eram a estrada dos mesmos argumentos do de nada novo.

Sonhar era um desvio perigoso para lá da estupidez do contexto.

A doença, a doença do espírito e do corpo, era essencial para matar a liberdade e impunha febres altas e fortes dores crónicas que se fechavam sobre si mesmas.

E ainda assim existiam vivos com uma relação com a vida digna. Vivos não mudos de ideias; vivos que faziam sentido para outros vivos; vivos de extraordinária importância porque vivos; vivos que lutavam contra o que era mutilar, censurar, anestesiar; vivos que se multiplicavam em amor; vivos, e acima de tudo muito vivos porque nunca ignorantes face à doença do mofo.


Teresa Bracinha Vieira

2 comentários

Comentar post